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As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia

(Esta review vai passar à frente de outra que foi sendo adiada por dias de trabalho intensivo) 


Quando descobri a existência deste livro, senti que o devia ler, por ter andado na escola com o nome da última rainha de Portugal e, no entanto, não saber nada sobre a mesma (não sei nada sobre o quarto vice-rei da Índia nem sobre o arquitecto da Torre de Belém). O livro começa com uma introdução relativa ao 25 de Abril, e depois uma breve explicação de como o manuscrito original das memórias da Rainha D. Amélia chegou às mãos de Miguel Real. Aqui foi-me suscitada uma dúvida: a capa do livro diz “romance”; o livro está também dividido em capítulos que duvido que tenha sido a própria Amélie a fazer tal divisão. Mas passando isso à frente, é uma boa leitura.

Há vidas lixadas, e esta é uma delas. Amélie d’Órleans nasce exilada em Inglaterra, primogénita de um casal que queria um rapaz em tal papel, filha de um homem que queria regressar ao seu antigo país, ao seu antigo trono e que se teve de satisfazer em fazer da filha rainha de um outro país, já que a França os renegava.

Através deste livro aprendemos sobre a vida familiar, pública e política da Rainha D. Amélia, sem pudores no que respeita a descrições da sua vida sexual (e da do Rei D. Carlos, muitas vezes afastada do casamento), dos seus sentimentos para com os seus filhos e para com o país, cuja pobreza queria aliviar e cuja nobreza e burguesia a repugnavam.

(...) que raio de nome, «Vencidos da Vida», parece um retrato de Portugal, todas as gerações deveriam adoptar esse cognome, só os espertos, os ignorantes e os especuladores não se revêem nesse título, ganham dinheiro presumindo ter ganho a vida, apetecia-me pôr um anúncio no Figaro - «Se quer ser um vencido da vida, emigre para Portugal», não, o povo lá em baixo não merece, tão cordato, não sei se será cordato, o português não é cordato, é submisso e servil, aprendeu a resignar-se, tornou-se passivo, morde pela calada, como se diz em português, tornou-se espertote, carregado de inveja; a inveja, a imagem perfeita de Portugal, última palavra d'Os Lusíadas, não a paixão, o esforço, a aventura, o trabalho, tudo o que o português faz, fá-lo por inveja de outrem que se notabilizou, fá-lo para humilhar o vizinho, o primo, o colega, o superior.

Esta mulher foi feliz no Palácio da Pena, mas viu morrer o seu marido e filho no Terreiro do Paço, bateu no assassino com um ramo de violetas, foi expulsa de um segundo país que a acolhera, desterrada sempre, azares e tragédias em torno de toda a sua família e amigos, sente-se amaldiçoada.

Aprendemos os seus feitos, a preocupação com o analfabetismo (pela qual o seu marido não se deixou afectar), a preocupação com doenças como a tuberculose (tendo mandado criar vários sanatórios), as suas amizades e inimizades políticas e, o mais surpreendente, a simpatia que nutria por Salazar. É uma figura fascinante nos seus ideais e feitos, na longa vida que levou.

4/5


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