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The Sorrows of Young Werther

Ainda tentando recuperar da diferença drástica entre esta obra e Faust, que li alguns anos antes de começar este blog.


Logo o título do livro é esclarecedor, com o uso da palavra sorrows (tristeza, sofrimento): é fácil perceber que não nos dirigimos a um livro alegre, mas a um livro com tons de desespero. E é absolutamente humano e comum sentir tais sentimentos. O epónimo jovem Werther escreve cartas ao seu grande amigo Wilhelm, e geralmente livros epistolários são um género que me agrada imenso; nunca obtemos as respostas de Wilhelm, mas apenas o ponto de vista de Werther.

Werther é um jovem artista, extremamente sensível tanto àquilo que o rodeia mas a quem o rodeia; esta sensibilidade significa que Werther não só ama a simplicidade, sente empatia para com os outros, dá igual valor e respeito a tudo e todos, mas também sente cada momento no seu extremo, cada paixão no máximo. A princípio, é fácil admirar este jovem à medida que seguimos a sua viagem emocional. Como exemplo da sua sensibilidade, a sua adoração pela natureza e pelo clima bucólico em que agora vive leva-o às lágrimas.

Nature alone is infinitely rich, and she alone forms the great artist.

Momentos antes de Werther conhecer Lotte, é advertido que esta está prometida em casamento e que não se poderá apaixonar por ela. Mas é claro que é isso que acontece, e é esta a fonte de todas as desgraças e tristezas da personagem principal, num caminho que leva ao inevitável coração partido. Este é daqueles livros que não sei se devia ser recomendado ou proibido a quem sofre de amores não correspondidos. Estamos perante um jovem claramente insatisfeito com aquilo que a vida até agora lhe ofereceu e, quando a vida lhe presenteia momentos de felicidade, também lhos retira arduamente.

I am living through such happy days as God sets aside for his saints, and let become of me what will, I may never say that I have not tasted the joys, the unalloyed joys of life. You know my Wahlheim; there I am completely settled, from there it is only a half-hour's walk to Lotte, and there I feel all that I am and the full bliss that is given to man.

E depois Albert, o noivo de Lotte, aparece em cena. Inicialmente, são os três amigos - Werther tolera a existência, a presença e o amor de Albert por Lotte. Albert e Werther têm discussões interessantes nas quais Werther compara um coração partido a morrer de uma doença, que, nesse sentido, o suicídio é uma morte natural. E embora seja fácil ter empatia para com amores não correspondidos, torna-se difícil compreender Werther e não sentir a mínima frustração para com estas ideias, para com os seus exageros e devaneios. Werther coloca os sentimentos acima da racionalidade.

Sometimes I do not understand how any other can love her, is permitted to love her, since I love her so exclusively, so deeply, so fully, and neither know nor have anything but her!

Sensível e romântico sim - mas Werther torna-se gradualmente obcecado com Lotte e tudo começa a decair rapidamente. E as suas tristezas começam a aliená-lo do resto do mundo e a criar conflitos e fissuras na sua relação com Albert.

I put my handkerchief to my eyes and left the room, and only the voice of Lotte, calling to me that we were going to leave, brought me to my senses. And how she scolded me as we went, saying that I took everything too much to heart, and that it would bring me to my death! That I should spare myself! Oh, angel! For your sake I must go on living!

Werther torna-se tão obcecado com Lotte que parece que não a vê mais por quem ela é, mas pela ideia que cria sobre ela, um ideal dela, e leva todas as suas acções e sentimentos ao extremo. Isto, obviamente, não é saudável - mas é algo com que alguns de nós nos podemos relacionar. Em Lotte, Werther procura uma salvação, alguém em que se pode agarrar para prender todos os seus sonhos, todas as suas esperanças, a salvação da condição humana a que todos estamos sujeitos e da qual o amor nos poderá salvar. Mas será correcto, ou mesmo ideal, colocar esse fardo nos ombros de outra pessoa? E Albert tem precedência sobre aquela que Werther elegeu enquanto sua salvadora.

Em cada uma das suas cartas, Werther parece necessitar de imensa atenção, de imenso afecto, e tudo isto reside naquele que acaba por ser o seu maior defeito, a sua sensibilidade extrema. Sonhador, romântico e emocional, torna-se extremamente fraco e vulnerável aos seus próprios sentimentos, e é visível que alguém com tamanha sensibilidade não foi feito para se adaptar ao mundo. E Werther não consegue ultrapassar Lotte e entra num caminho de auto-destruição.

Esta obsessão é mórbida, especialmente porque para Werther cada sensação é intensa e hiperbolizada, a leitura torna-se melancólica e mesmo dolorosa. É bonito ver que alguém acreditava na bondade humana, alguém tão dedicado ao mundo das artes que idealizava tudo, fazia da natureza poesia; mas é este mesmo idealismo que se torna perigoso, que torna o seu desespero pior. Mas para além do mórbido e doloroso, vemos a beleza por trás da tragédia, a forma como o amor pode desafiar toda a lógica, mesmo quando sabemos que não vai correr bem.

E é por isso que este livro tem significado.

Igualmente fascinante é o facto de o protagonista deste livro, o retrato de todas estas sensações e sentimentos, ser um homem e não uma mulher tonta apaixonada. É um homem, num livro escrito em 1774, e talvez seja exactamente por isso que um livro tão sentimental sobreviveu até hoje com estatuto de clássico. E temos também o retrato do declinar da saúde mental de um jovem, pois claramente Werther era, desde o início, instável - os extremos das suas sensações, emoções e sentimentos demonstram algo que vai mais fundo que um simples amor não correspondido. Este apenas piorou a situação, a tristeza e o desespero.

No, I do not delude myself! I read in her black eyes true sympathy for me, and for my fate. Yes, I feel, and in this I can trust my heart, that she - oh, may I, can I utter the heaven that lies in these words? - that she loves me!

Seria o amor não correspondido de todo, ou mais que isso, impedido de o ser, por Lotte estar já noiva? O que sentiria Lotte, verdadeiramente, por Werther? Tudo o que lemos, é o que é visto pelos olhos de Werther - o que será verdade, e o que será exagerado pelos olhos de um homem obcecado e apaixonado? Nunca conseguimos uma resposta satisfatória a esta questão.

Livro pequeno, mas com muitas mensagens, muito sobre o que pensar.

4,5/5

Podem comprar uma outra edição aqui, ou em português aqui.


Para breve, review do Festival Folio, em Óbidos.

Comentários

  1. Comecei a ler antes de ir de férias; achando Kierkyesco. A review dá-me esperança.

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    1. também senti o vibe Kierky ao início na verdade! mudou, mas se foi para melhor ou não é subjectivo. agradecendo a confiança, kind regards, etc.

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  2. Review que me deu vontade de ler Faust, livro que me emprestaste há tanto tempo!

    P.S. Boa foto :p

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    Respostas
    1. são livros tão diferentes porém, ainda estou chocada com a diferença abismal!

      noted :p

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