20 março, 2017

A Sibila

Alerta passatempo!


Começando pela parte gira: quase quatro anos depois da primeira publicação, este blog entrou no mundo das parcerias. A editora Babel enviou-me esta obra, pela qual eu tinha há anos uma enorme curiosidade, para leitura e resenha, juntamente com duas outras edições para que eu possa partilhar convosco. Para participar:
Ao que a editora escolhe um vencedor, eu escolho outro, envio os livros e ficamos todos com um grande clássico da literatura portuguesa na estante. O prazo para participar é 29 de Março (porque eu depois vou de férias).

Por falar em ter o livro na estante, relembro que a Revista Estante, da FNAC, nomeou A Sibila como um dos 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos.

Agora, a minha experiência a ler o livro.

Agustina Bessa-Luís é possivelmente dos primeiros nomes que sempre me veio à cabeça ao pensar em grandes autoras portuguesas, embora nunca tivesse, até à data, tido oportunidade de ler nada da autora - e esta é, possivelmente, uma das suas obras mais conhecidas.

A narrativa de A Sibila centra-se, como muitas outras obras portuguesas, sinto, em várias gerações que passam numa casa, a casa da Vessada, centrando-se principalmente em Quina, a sibila do título, mas transcendendo cronologicamente a sua vida.

Ah, Quina, tão estranha, difícil, mas que não era possível recordar sem uma saudade ansiada, que fora ela?

Quando Maria Encarnação tinha nove anos, foi encontrada na rua por Francisco Teixeira, o Don Juan local, mais velho, que a levou a casa e anunciou ao seu pai que era com ela que iria, um dia, casar - algo que sucedeu onze anos mais tarde, inicialmente em segredo. Francisco nunca muda, rodeado sempre de casos e amantes, e é Maria e, mais tarde, as suas filhas, Estina e Quina, quem acabam por ficar responsáveis pela propriedade - nunca deixou que os filhos tomassem conta da casa.

Nota-se desde o início uma forte predominância de personagens femininas, fortes e muito mais interessantes do que os homens da narrativa. Todas as personagens são, no entanto, desenvolvidas e, acima de tudo, humanas e multi-dimensionais. E não é, como tantas obras com mulheres como protagonistas, uma história de amor. É, talvez mais até que a história de Quina, a história da casa da Vessada, que é destruída por um fogo e reconstruída em 1870, o ano gravado na varanda; acompanhamos os tempos de prosperidade, de declínio, as mudanças na família, sempre com o centro físico da casa.

Quina não tinha verdadeiramente poderes místicos, de "sibila", dando na verdade conselhos práticos às pessoas (nomeadamente à Condessa Monteros), muitas vezes baseada em racionalidade no meio dos mexericos da terra - demonstra ser inteligente, mas também de certa forma é notório que pretende destacar-se dos outros, e que gosta da atenção e respeito que lhe dão quando lhe chamam "sibila". Mas é, como acaba por concluir Germa, a sua sobrinha, profundamente humana - talvez incapaz de se impor sobre certas convenções ou condições humanas.

Foi talvez Estina, irmã de Quina, a personagem que mais interesse me despertou. Inicialmente poupada pela mãe aos esforços e trabalhos da casa e da terra, e posteriormente sua confidente, foi possivelmente quem mais sofreu, entre os abusos do marido com quem casara maioritariamente por conveniência (e que não largava, para não manchar a honra da casa) e as mortes dos filhos, mantendo sempre, no entanto, uma clareza e frieza enormes. É triste, porém, ver como se submete sempre ao marido, como fica, infeliz - mas sempre, sempre ligada à casa onde nasceu.

Quina, embora rodeada de pretendentes até idade avançada, nunca casa; sente alguma afeição pela filha de um dos irmãos, Germa, mas é em Custódio, filho de um dos empregados que poderia, por sua vez, ser filho ilegítimo da Condessa Monteros, que deposita todo o seu amor nos seus últimos anos de vida (indo contra o que a família lhe aconselhava a fazer), fazendo com que a sobrinha se sinta indesejada na casa.

Quase adolescente, possuía graças dum efebo um tanto selvagem, no expectante do gesto, no movimento da cabeça que se adianta para escutar, não com interesse, mas sim ingénuo, espontâneo espanto.

Custódio, que se envolvia em crimes, roubava Quina e a manipulava emocionalmente, mas mais tarde entra em desespero - e não se chega a perceber se é porque Quina irá morrer, ou porque pode não lhe deixar nada em herança.

Destaca-se principalmente desta obra o facto de Quina nunca se submeter ou sujeitar a homens, sejam os irmãos, que teriam, tradicionalmente, o comando da casa, seja aos vários pretendentes que arranjou ao lado da vida; é uma personagem independente, enquanto que os irmãos e o pai são apresentados como voláteis e fracos.

Não é uma leitura totalmente fácil, mas recompensa.

4/5

Podem comprar esta edição aqui.

2 comentários:

  1. Olá Ba, eu gostava de ler a obra porque gostei da review, quero ler mais autores portugueses mas principalmente por se tratar de uma autora, há uma grande discrepância entre o que já li de homens e mulheres, quero ler mais de mulheres e o nome sempre me suscitou interesse mas nunca li nada dela
    Um beijo :p

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  2. Quero ler porque gosto da Agustina e é uma grande lacuna ainda não ter pegado neste clássico.

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