14 maio, 2017

Le Grand Meaulnes

Post tardio pós-semana atribulada.


Já acabei de ler este livro há uns dias, mas o tempo tem escasseado. Peguei no Le Grand Meaulnes por diversas razões, sendo a principal o desejo e necessidade, por motivos de ordem também profissional, de regressar à prática do francês - algo que, quem for ler posts mais antigos, saberá que é uma ambição antiga.

Escolhi Le Grand Meaulnes por ser um livro de orientação mais jovem; os próprios protagonistas são adolescentes em idade escolar, e pensei que a língua fluiria mais facilmente - coisa que não aconteceu ao longo de vários capítulos, mas que se foi solucionando com o tempo e prática (como, aliás, acontecerá com qualquer língua).

Meaulnes, o grande Augustin Meaulnes de 17 anos, vai estudar para a escola onde o pai de François Seurel (o narrador) é professor. François é tímido e tem um joelho mau, o que o impede de brincar com os outros rapazes; isto muda com a chegada de Meaulnes, que, ao quebrar com a rotina escolar, rapidamente se torna popular e, começando a viver com François, se torna seu melhor amigo.

L'arrivée d'Augustin Meaulnes, qui coïncida avec ma guérison, fut le commencement d'une vie nouvelle.

Um dia de inverno, é sorteado o rapaz que irá buscar os avós de François à estação de Vierzon. Quando Meaulnes não é escolhido, rouba a carroça (carruagem?) e tenta ir. De noite, o veículo volta, mas o rapaz não. Já dado como desaparecido, Augustin Meaulnes regressa, com um colete bizarro vestido, distraído e sem paciência, estudando copiosamente um mapa. Os outros rapazes da escola aborrecem-se, mas François só quer saber a sua história.

Perdido, Meaulnes dera por si numa propriedade perdida no meio do bosque, numa festa de noivado esplêndida, um baile de máscaras fantástico, onde conhecera uma rapariga lindíssima, por quem se apaixonara, a irmã do noivo, Yvonne de Galais. A festa tem um toque surreal, lindíssimo e etéreo, como se de um sonho se tratasse, é uma festa mágica onde as crianças têm a autoridade, uma definição impossível de liberdade, e toda a paixão de Meaulnes tem esse toque idílico; porém, Yvonne tinha-o afastado.

Mais lorsqu'enfin il osa lui demander la permission de revenir un jour vers ce beau domaine:
"Je vous attendrai", répondit-elle simplement.
Ils arrivaient en vue de l'embarcadère. Elle s'arrêta soudain et dit pensivement:
"Nous sommes deux enfants; nous avons fait une folie. Il ne faut pas que nous montions cette fois dans le même bateau. Adieu, ne me suivez pas".

E Meaulnes não a consegue esquecer, e não sabe como regressar. No decorrer da festa, conhecera também Frantz de Galais, o noivo, que tinha sido abandonado praticamente no altar (dado a noiva sentir não estar à sua altura), um jovem imprudente a quem nada nunca tinha sido negado. Frantz decide fugir e, com esse gesto, a festa termina. Meaulnes arranjou boleia, regressou a casa, e não sabe que caminho tinha percorrido para chegar àquela propriedade misteriosa.

"Ma fiancée a disparu, me faisant dire qu'elle ne pouvait pas être ma femme; qu'elle était une couturière et non pas une princesse. Je ne sais que devenir. Je m'en vais. Je n'ai plus envie de vivre. Qu'Yvonne me pardonne si je ne lui dis pas adieu, mais elle ne pourrait rien pour moi..."

Dias depois desta confissão, um jovem estranho aparece na escola, e conquista todos os outros alunos, como Meaulnes fizera um dia; num conjunto de eventos estranhos, o jovem revela ser Frantz, dá uma pista a Meaulnes sobre uma casa de verão em Paris onde Yvonne passaria algum tempo, e desaparece sem deixar rasto - mas não sem antes fazer um pacto, uma jura de amizade, com Meaulnes e François.

"Soyez mes amis pour le jour où je serais encore à deux doigts de l'enfer comme une fois déjà... Jurez-moi que vous répondrez quand je vous appellerai - quand je vous appellerai ainsi... (et il poussa une sorte de cri étrange: Hou-ou!...) Vous, Meaulnes, jurez d'abord!"

Meaulnes parte, obviamente, para Paris, obcecado com encontrar a jovem Yvonne. Conhece uma rapariga que ronda a mesma casa que ele, e que lhe conta, eventualmente, que Yvonne terá casado. Meaulnes escreve apenas três cartas a François, ao longo de cerca de ano e meio - e o sonho parece estar, para sempre, perdido. Meaulnes desaparece em busca do seu amor perdido, daquela antiga promessa de felicidade, do ideal que encontrara outrora, que tocara mas não agarrara. É um amor misterioso, uma história de uma perda de algo que não se chegou a ter, um amor jovem e não conseguido - mas, acima de tudo, idealizado.

Até que um dia, por acaso, François descobre a existência da propriedade de Sablonnières, perto de Vieux-Nançay, onde viviam os seus tios e, aí, conhece finalmente Yvonne, solteira e com vontade de rever Augustin. François reconhece que Yvonne é realmente lindíssima, e tornam-se rapidamente bons amigos. Vai rapidamente visitar Meaulnes para lhe contar o sucedido; Meaulnes procurava partir, e ficou fortemente abalado com a história de ir a uma festa e reencontrar o seu amor do passado.

François conta-nos como a festa tinha tudo para correr bem, mas fora uma desgraça: Meaulnes pergunta a Yvonne sobre todas as maravilhas do passado, mas com a fuga de Frantz, os de Galais haviam perdido e vendido tudo, vivendo agora na pobreza. Yvonne sente-se envergonhada, e Meaulnes sente que perdera novamente o seu sonho. A visão idealizada do passado desfaz-se nas mãos de Meaulnes mal ele a tenta agarrar. Porém, ao fim do dia, apercebe-se dos erros que cometera e pede Yvonne de Galais em casamento:

Et c'est ce soir-là, avec des sanglots, qu'il demanda en mariage Mlle de Galais.

Os eventos que se sucedem são uma série de coincidências bastante irreais e inverosímeis (ou não, dependendo do leitor - são, na realidade, avaliações subjectivas) que vêm acrescentar magia à narrativa - mas basicamente, são eventos que acabam por afastar e reaproximar Meaulnes, Yvonne, Frantz, a sua antiga noiva Valentine, e mesmo François, quando um evento obriga Meaulnes a abandonar Yvonne no dia após o seu casamento, deixando-a aos cuidados de François.

Des semaines, des mois passèrent. Epoque passée! Bonheur perdu! De celle qui avait été la fée, la princesse et l'amour mystérieux de toute notre adolescence, c'est à moi qu'il était échu de prendre le bras et de dire ce qu'il fallait pour adoucir son chagrin, tandis que mon compagnon avait fui.

É um livro com um sentimento de tristeza permanente (nomeadamente no final - o final!), baseado numa aventura e fantasia adolescente, de perder-se, descobrir um lugar mágico e desconhecido, fingir ser outra pessoa, apaixonar-se. Porque as crianças, como Yvonne diz, não têm 11 anos, têm 16, portanto o romance perdido afigura-se mais real.

No entanto, este amor perdido têm raízes mais fundas: o fim da juventude precipita-se com a busca obsessiva e eterna pela beleza e ideal inatingíveis, que desapareceram do alcance de Meaulnes, aos quais ele nunca conseguirá regressar, ou concretizar, fazendo com que ele tenha de partir em novas aventuras mal consegue aquele que julgava ser o seu objectivo (casar com Yvonne). Porque as experiências do passado, aquela espécie de "auge" do ideal, nunca mais voltarão a ser vividas, e é apor isso, a custo da sua própria felicidade e da dos outros, que Augustin Meaulnes passa a sua vida numa demanda por algo que nunca mais terá, mas de que guarda memória. Isto pode minorar um pouco a ideia da história de amor como centro do livro, é certo; mas seria Yvonne que Meaulnes queria recuperar, ou apenas uma ideia idealizada e construída da sua infância? Se não for este o caso, por que partiu Meaulnes àquela que parece ser a primeira oportunidade (por mais justificado que este acto esteja)?

E até que ponto idealizamos as memórias? Enquanto que Meaulnes tenta voltar ao sítio onde conheceu Yvonne, François, o narrador, passa o livro a revirar as suas memórias: pelo que o lugar perdido pode ser físico, sim, mas quiçá também mental, psicológico, pode ser a infância perdida.

"Il n'y a qu'une explication à laquelle je croie, dit-il encore. Certes, j'aurais voulu revoir une fois mademoiselle de Galais, seulement la revoir... Mais, j'en suis persuadé maintenant, lorsque j'avais découvert le Domaine sans nom, j'étais à une hauteur, à un degré de perfection et de pureté que je n'atteindrai jamais plus. Dans la mort seulement, comme je te l'écrivais un jour, je retrouverai peut-être la beauté de ce temps-là..."

E o tempo não pode voltar atrás, a juventude de François e a juventude de Augustin não voltarão. E, assim, coloca-se a hipótese de Meaulnes estar mais apaixonado pela ideia de Yvonne, pela ideia da propriedade escondida, que com a mulher e o local reais. E, nesse sentido, é triste que François e Meaulnes tenham resolvido o mistério, tenham encontrado o lugar, pois a realidade acaba por suplantar a magia, apagá-la um pouco - pois a magia já não existe.

4/5

Podem comprar uma outra edição em francês aqui, em português aqui, ou em inglês aqui.

5 comentários:

  1. Estar apaixonado pela ideia de alguém, principalmente na adolescência, é um fenómeno tão comum que é um bom tema para ser explorado mas, pese embora a review esteja bastante boa, toda a história me parece tão irreal e demasiado fraca quando tinha mais potencial
    Opinião de quem não leu o livro :p
    Kudos por voltares a ler em francês, és incrível incrível

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    1. É verdade, e acho que este livro explora isso bastante bem porque não fica bem claro :p e acho que posso ter sido 100% eu a focar no "mágico" :$ mas gostei bastante do livro!
      Oh :$$$

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  2. Não conheço o autor, mas andei durante anos afastado da cultura francesa por opção pessoal, ler romances em francês penso já não ser capaz devido há tanto tempo sem ler nesta língua, contudo tenho lido em inglês para me aproximar desta língua pelo que compreendo a opção.

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    1. Carlos, é perfeitamente legítima essa opção - eu própria abordo o francês com receio! Se tiver interesse, creio que esta obra está traduzida para português.

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