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Um rapaz chamado Giotto

Um bonito livro para crianças e para todos que apreciem arte.


Vamos todos começar por ignorar o facto que esta review está cerca de um mês atrasada. Falei sobre este livro, da Livros Horizonte, neste post sobre a Feira do Livro, ainda que de passagem. É parte de uma pequena série de livros sobre artistas, havendo também (pelo menos) obras sobre Klimt e Van Gogh.

Giotto nasceu há mais de 700 anos, perto de Florença. Da sua infância só se sabe que era um pastorinho e, da primeira juventude, que foi discípulo do Cimabue. Tudo o resto é lenda, como esta história.

Giotto acabava por ser, dos três, o pintor do qual sabia (sabíamos, até porque, como mencionei no outro post, o livro não veio exactamente comigo) menos. Gosto muito do Van Gogh e da loucura associada à sua orelha, gosto muito do Klimt e dos seus dourados e d'O Beijo. A minha única ideia de Giotto é que seria um pintor de imagens religiosas da Idade Média (também tenho ideia que os motivos mais pintados na Idade Média eram, efectivamente, religiosos).

As imagens das ilustrações foram retiradas da Amazon e daqui


Este livro fala da infância de Giotto, pequeno pastor de ovelhas, que se distraía das suas funções, para infelicidade do seu pai. E distraía-se para desenhar ovelhas e outras figuras da natureza, com giz nas pedras escuras, com pauzinhos na areia, entristecido pela efemeridade destas imagens. Giotto perde um cordeirinho, é posto de castigo, e vê da sua janela uma procissão, na qual vai uma imagem pintada em lindos tons de dourado.

Aproveito aqui para salientar o facto de as ilustrações deste livro terem também lindos tons de dourado, que eu nunca tinha visto em livros ilustrados.

(...) o sonho que Giotto tem naquela noite parece-lhe bem real. Com as cores dá vida às velhas pedras das casas e dos palácios. Desenha sobre grandes espaços e todos exclamam: "mas que bom pintor é este menino. Vejam! As suas imagens parecem vivas!"


Giotto desobedece ao pai e conhece o pintor da tal obra, Cimabue, que lhe mostra como faz os pigmentos, como pinta, e promete ir ver os seus desenhos nas pedras. Giotto fica fascinado pois os quadros de Cimabue têm a capacidade de resistir ao vento e à chuva. E, no dia seguinte, em vez de ir procurar o cordeirinho perdido, desenha dedicadamente uma das ovelhas. O cordeirinho reconhece, na pintura, o retrato da sua mãe, e regressa - e é neste momento que o pai de Giotto reconhece o talento do filho e o deixa ir com Cimabue para Florença, para ser seu aprendiz.

Chegou a sua hora de pintar frescos que nem mesmo o tempo poderá apagar.


O livro tem ilustrações lindíssimas, misturando os quadros de Giotto com as ilustrações de Bimba Landmann. Imagina a vida de um pintor sobre o qual se sabe pouquíssimo, como referido na citação acima. Fui pesquisar mais: são verdadeiramente poucas as certezas sobre a sua vida, indo pouco além do facto de ter pintado a Capela Scrovegni, em Pádua, a sua obra prima e uma das principais obras primas dos inícios do Renascimento (cerca de 1305), e ter desenhado o campanário da Catedral de Florença (conhecido como Campanile di Giotto). 

A Cappella degli Scrovegni tem este simples aspecto por fora

E vários painéis de Giotto por dentro. Ambas as imagens foram retiradas da Wikipedia.

Debatidos são a data e local exacto do seu nascimento, e a aprendizagem com Cimabue é considerada lenda, segundo Vasari; sobre Giotto, Giorgio Vasari disse que é o percursor da "great art of painting as we know it today, introducing the technique of drawing accurately from life, which had been neglected for more than two hundred years": a ideia, lá está, da ovelha tão realista que tinha sido reconhecida pelo seu cordeirinho. Também debatida é a autoria de muitas outras obras.

Acho fascinante a ideia de fazer um livro fantasiado sobre um artista do qual se sabe pouco. Escrevi aqui sobre a Rapariga do Brinco de Pérola, que entra na mesma lógica; gostei mais deste, talvez por ser tão mais leve e tão pouco detalhado. Pega na tal lenda da aprendizagem, na ideia de Giotto ter sido um pastor. É simples e bonito, e traz mais reconhecimento sobre um artista do Renascimento, cujos artistas principais acabaram por influenciar, até, as Tartarugas Ninja (Rafaello, Michelangelo e Leonardo da Vinci são os nomes mais sonantes do movimento. Por que não Giotto em vez de Donatello?).

Esta é uma obra muito bonita, não exactamente para descobrir mais sobre um pintor, dada a incerteza dos factos da sua vida, mas para descobrir a arte e a pintura. É a história de um menino que tinha um sonho e a grande dúvida se algum dia o iria concretizar, com um final feliz e o reconhecimento do seu talento. É um livro para crianças, mas também é maravilhoso para qualquer adulto que possa ter interesse na arte, que possa querer investigar mais, ou que tenha apenas prazer num livro bonito.

5/5

Podem comprar esta edição aqui.

Maratona Literária de Verão 2017: 804 pág.


Comentários

  1. Respostas
    1. É verdade, uma bonita forma de divulgação de arte!

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  2. E a imagem que publicaste com os painéis é linda mesmo

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    1. Da capela em Pádua? Tem um aspecto tão humilde e simples por fora, se vires mais imagens no google o interior parece surpreendente mesmo! Mais uma prova que livros não se julgam pelas capas (nem capelas pela fachada) :p

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  3. Gostei imenso das ilustrações da Bimba Landmann, muito boas mesmo, hei de investigar mais sobre ela

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    1. Sim! Aquele link de onde tirei as imagens de algumas ilustrações tem mais alguns exemplos do trabalho dela e parece muito bonito!

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    2. Pois parece, estou a ver agora :p obrigado por teres incluído o link Ba, fizeste muito bem

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    3. E isso é de louvar :p devia ser uma situação normal mas já se sabe como é o ser humano por isso sim, é de louvar, kudos :p

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