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Mistérios

O meu segundo Hamsun, emprestado pelo meu primeiro amor.


Mistérios não tem muita história: Nagel, um forasteiro bizarro de fato amarelo, decide desembarcar numa pequena cidade na Noruega, lançando o caos, ou tentando semeá-lo.

O comportamento de Nagel é provocatório, auto-depreciativo, de um mentiroso compulsivo, depressivo e quiçá sociopático; e ele ocupa muito do seu tempo ora a beber, ora a relatar histórias estranhas, desconcertantes e frequentemente contraditórias que o denigrem aos olhos de quem as escuta. Nesse mesmo sentido, fala interminavelmente a quem conseguir que o ouça, lança ideias loucas para o ar, tudo parece calculado de modo a dar um mau aspecto de si mesmo.

 - O nosso cão morreu. Simplesmente não parece possível!
 - Morreu? - foi tudo o que Nagel disse.
 - Foi há poucos dias. Encontrámo-lo rijo e frio como uma pedra. Não posso imaginar como isso possa ter acontecido.
 - Tive sempre a sensação de que o cão era um animal maldoso. Lamento, mas ele era um daqueles mastins de focinho achatado cujas caras parecem assustadoramente humanas. Quando olhava para uma pessoa, a mandíbula abria-se-lhe como se carregasse as dores do mundo às costas. Sinto-me bastante contente por ele ter morrido.
 - Como pode dizer uma coisa dessas?

Apaixona-se por Dagny, a rapariga mais bonita e cheia de pretendentes da aldeia, mas tenta casar com Martha, uma quarentona solteira e pobre. Com os seus comportamentos, consegue afastar ambas, que estiveram primeiro interessadas (Dagny gostava, inicialmente, de o ouvir).

Há ainda o Anão, a vítima de piadas e tormentos por parte da aldeia inteira, a quem Nagel começa por oferecer dinheiro, charutos e roupa, mas que acaba por atormentar também, com os seus monólogos intermináveis e interrogatórios.

Tudo em Nagel é falso, desde a persona que ele constrói ao seu fato amarelo que tenta esconder o fracasso que ele é. Ao ler este livro, não percebi onde ia; a morte de uma personagem no início faz com que pareça inicialmente um livro sobre um homicídio, mas não. Muitos outros mistérios se levantam.

Quem é a mulher do véu que o visita e o trata por outro nome? Que anel é aquele? Porquê andar com cianeto atrás? Por que motivo ajuda ele financeiramente desconhecidos, escondendo os seus feitos? Quem é Nagel realmente?

Tudo questões por responder, é certo; mas outra, também levantada pelo livro, que transcende Nagel, é: por que é que as pessoas fazem aquilo que fazem?

Quais as minhas motivações?

Destaco também a dificuldade que algumas passagens apresentam em fazer esquecer o facto de o autor ter simpatizado com a ideologia nazi; tal como em Hunger, toda uma suposta superioridade:

O que quero dizer é que temos de distinguir os maiores dos simplesmente grandes, para que não se afundem no proletariado dos génios. Quero ver a supermente no seu devido lugar; há que retirar as ervas daninhas com cuidado, por amor de Deus, livrarmo-nos dos génios da aldeia.

Hamsun traiu o seu país e a humanidade, mas é preciso separar o autor enquanto pessoa da sua obra, especialmente quando esta é visivelmente significativa na história da literatura.

5/5

Podem comprar esta edição aqui, ou em inglês aqui.

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