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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2020

Dylan Dog: Até que a Morte vos Separe

Uma história fundadora de um dos nossos detectives favoritos.


A primeira coisa a notar é que a edição italiana original, aparentemente, é a cores - e não no preto e branco habitual de Dylan Dog - e esta edição, da G Floy/A Seita/Colecção Aleph recupera o monocromatismo, sendo, portanto, inédita. E a imagem da capa, que é belíssima?

Aqui, Dylan Dog era ainda agente da Scotland Yard. O ambiente vivido era pesado - este volume tem como pano de fundo a luta pela independência da Irlanda do Norte, conflito muito recente e muito marcante, com maiores proporções nas décadas de 1970 e 1980. Este contexto dá uma carga política e realista interessante à obra, que questiona vincadamente tanto o IRA como a Scotland Yard nos seus modos de operação.

Um colega de Dylan Dog morre, ao seu lado, num atentado do IRA, evento que muito o marca; e é nesse momento que conhece a irlandesa Lillie Connolly, activista do IRA, com quem se envolve romanticamente. Os conflitos são múltiplos: desde o conflito de i…

The Country Girls

Desafio de Março: ler um clássico escrito por uma mulher.

Tinha muitos candidatos para esta categoria na estante, tendo a selecção saído da ajuda do público (comecei a enumerar livros passíveis de encaixar e o meu namorado escolheu este). The Country Girls é o primeiro livro de uma trilogia, escrita nos anos de 1960, e a cujas sequelas estou a dar seguimento.
A Irlanda da primeira metade do século XX caracteriza-se pelo catolicismo intenso e pela forte pobreza. A família de Caithleen Brady, a protagonista e narradora, encaixa no perfil, e é profundamente disfuncional: o pai alcoólico, violento e ausente, a mãe sofredora, a quinta cada vez mais arruinada onde vivem. Os únicos consolos de Caithleen, de 14 anos, são a companhia da mãe, de Hickey, o trabalhador da quinta, e Brigitte "Baba" Brennan, a sua tóxica melhor amiga.
O mundo de Caithleen muda subitamente quando a sua mãe sai de casa, para fugir ao pai - tendo depois de ficar em casa de Baba, depois a estudar num convento…

Os Vencidos da História

Consta que, dos vencidos, não reza a história.

José Jorge Letria pega nessa premissa para escrever e celebrar os derrotados célebres da História, considerando-os enquanto tendo tido um papel importante, seja em futuras vitórias, seja ao mudar o curso dos eventos. Transcende, assim, a ideia de "vencidos" e "vencedores", demonstrando empatia para com o comummente considerado como vencido.
Apesar de os vencidos serem frequentemente considerados como invisíveis, aqui temos breves relatos de derrotados célebres, como sendo Júlio César ou Napoleão. Ou seja, o único ponto comum nos biografados é o seu aparente fracasso: temos personalidades de várias épocas, âmbitos, posicionamentos políticos e geográficos. Temos vencidos que foram heróis, como Aristides de Sousa Mendes, vencidos que foram vítimas de repressão ou mártires e vencidos que foram tiranos e ditadores.

Ao darmos prioridade à memória, em detrimento da História oficial, damos voz aos vencidos, aos oprimidos, aos…

Telma, o Unicórnio

Claro que tinha de deitar as mãos a mais Aaron Blabey.

Enquanto a Porto Editora não se decide a dar continuidade a Os Mauzões(ficámos num enorme impasse no que respeita aos planos do Dr. Marmelada), sai em Portugal este pequeno livro do autor, num registo mais infantil.
O veredicto do meu companheiro quando o livro chegou a casa foi que se via logo que era do mesmo autor d'Os Mauzões. Os desenhos são, de facto, inconfundíveis - os olhos e sorrisos grandes, desta vez a cores, num livro ilustrado e não numa espécie de banda desenhada. O texto, curto, é em verso, o que também anima a narrativa deste pequeno pónei.

A história é muito simples: é sobre como ter aquilo que sempre desejámos nem sempre corre bem; sobre os aspectos terríveis da fama; e, acima de tudo, sobre aceitarmo-nos tal como somos. Telma é um pónei que sonha ser um unicórnio. Ao ter um acidente bizarro (que poderia ter causado a sua morte!), fica cor-de-rosa e coberta de glitter, aparentando ser o unicórnio que sempre…

Dead Souls

Muito atrasada, foi esta a minha participação no meu próprio desafio, em Fevereiro.

O desafio para Fevereiro era ler um clássico russo; isto deve-se ao facto de, ao longo dos anos, ter visto alguns desafios que pegavam no aniversário da Revolução Russa para incitar a ler o género (e, como não quero apoquentar ninguém, achei por bem colidir um pouco nestas temáticas; veja-se o tema para Março, a leitura de um clássico de autoria feminina).
Queria ler este livro há muito, e já há uns cinco anos que o tinha na estante. Gogol é um nome grande na lista do cânone dos russos, ficando sempre atrás de Dostoevsky e de Tolstoy, e eu nunca lera sequer os seus contos mais conhecidos, como "O Nariz" ou "O Capote". De Dead Souls, apelava-me o título (como me apela também o Diary of a Madman); sem ter explorado a temática, descobri que o livro que tinha em mãos era suposto vir a ser uma trilogia.
Gogol escreveu o primeiro volume, queimou grande parte do segundo e faleceu antes de …

A Janela Fingida + O Homem no Arame + Além do Quadro

Já muito por aqui se falou da vertente contista de Maria Judite de Carvalho.

Ora vejam: Tanta Gente, Mariana Seta Despedida Os Armários Vazios Obra Completa, Vol. I Obra Completa, Vol. II Obra Completa, Vol. III
Assim, falemos daquilo que mais se distingue neste quarto volume da obra completa da autora: é composto por dois conjuntos de crónicas e um conjunto de contos. E, precisamente por ser diferente, focarei nas crónicas.
Retratos de época, em parte, mas, em muito, absolutamente intemporais. Maria Judite de Carvalho revela, nas suas crónicas, a mesma astúcia e capacidade de observação que são tão marcantes nos seus contos. São retratos da cidade e da sociedade de Lisboa, desta nossa cidade, grande e confusa cabeça do corpo frágil que é Portugal, nos finais dos anos 1960 e inícios de 1970, publicados inicialmente no Diário de Lisboa.
Todo o tipo de situações e objectos servem de mote para estas crónicas: pedintes na zona do Chiado, classificados do jornal, listas telefónicas, janelas, el…

2020 | Fevereiro

Se Janeiro tem cerca de 90 dias, Fevereiro tem cerca de 12.

Recebidos & Comprados
Também Fevereiro foi um mês intenso de novidades na estante: O Silêncio das Mulheres, livro aclamado de Pat Barker, uma espécie de nova versão da Ilíada, e bastante aclamado; Rockonomics, de Alan B Krueger, um livro de não-ficção que junta dois dos meus interesses, a música e a economia; As Mãos Sujas, peça de Jean-Paul Sartre de conteúdo político; Telma, o Unicórnio, de Aaron Blabey, um livro infantil (do mesmo autor de Os Mauzões); e Os Anos, de Annie Ernaux, um livro de auto-ficção francês que creio que irei adorar. Fui também contactada pela Editorial Planeta, no sentido de me quererem enviar um livro. Enviaram-me dois romances que, creio, não serão totalmente o meu género: O meu mapa de ti, de Isabelle Broom, e Esperarei por ti toda a vida, de Megan Maxwell. Darei uma chance, mas sinto que é o tipo de romance leve que apelará mais a outro tipo de leitor - como, por exemplo, à minha mãe.

Lidos
Fev…