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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2020

Quem Come o Quê?

Bárbara Ferreira lê álbuns ilustrados. Este livro chegou-me de surpresa. É um álbum ilustrado de grande formato, pelo que me dediquei no imediato à sua leitura. Não conhecia a autora, Katerina Gorelik, artista russa publicada em França pela Larousse e, agora,  também em Portugal. Pesquisei-a, e não existe muita informação sobre a mesma, fora as suas redes sociais. Fica aqui o behance , e aqui o instagram - confesso que gostei do traço de Katerina. É bonito, colorido e agradável. Quem Come o Quê? é directo qb; mostra-nos animais herbívoros mas também carnívoros, com delicadeza suficiente para dar a entender que alguns animais são também alimento para outros, sem ser gráfico: não só as minhocas e os insectos, mas também as galinhas, vítimas das raposas. Aliás, as galinhas são mostradas num galinheiro, realçando a sua proximidade com os humanos. É um bom livro, sucinto e com belas ilustrações. 3,5/5 Podem comprar esta edição na  wook  ou na  Bertrand

Gideon Falls: O Celeiro Negro ; Pecados Originais

A chegar atrasada àquele que foi sem dúvida um dos enormes lançamentos de 2019. Tão atrasada que, para compensar, li os dois volumes de seguida. E agora estou ansiosa pelo terceiro porque preciso de saber mais. Num pequeno (e muito parvo) aparte: o primeiro volume abre com uma personagem de máscara, colocando luvas, o que, tendo em conta os tempos que correm, conseguiu ser ainda mais bizarro e sinistro do que aquele que julgo ter sido o intuito de Jeff Lemire e Andrea Sorrentino. Este homem é Norton Sinclair, um jovem adulto com vasto historial de problemas psiquiátricos e sem família, que cresceu em instituições e tem uma compulsão por acumular pedaços e farpas de madeira e pregos que encontra no lixo. A história deste homem é-nos apresentada em paralelo com a do Padre Fred, um padre católico que acaba de ser colocado numa paróquia num meio algo rural, por um bispo que parece ter algum interesse nesta colocação. O próprio Padre Fred tem, claramente, um segredo obscuro no

Livros sobre liberdade

Todos os dias são bons para comemorar a liberdade e a democracia, mas hoje é um dia ainda melhor. A democracia e a liberdade, para mim, reflectem-se no igual tratamento de todos os seres humanos enquanto tal. Sermos livres de sermos quem somos, de fazermos as nossas escolhas pessoais e não sermos perseguidos pelas mesmas. Termos todos igual direito à vida e à dignidade. À nossa voz e às nossas escolhas, em pleno respeito dos outros. Portugal é um país em que, há 46 anos e um dia, o governo se orgulhava publicamente de ter poupado o país à Segunda Guerra Mundial, como se não estivesse há anos submerso em guerras coloniais várias. Um país com um Tarrafal, com um Aljube, com uma mal esclarecida morte do Carlos Burnay e muita perseguição a muita gente. Onde um homem que assassinasse a esposa estava condenado, no máximo, a seis meses de desterro. Onde estes mesmos maridos é que podiam decidir se a esposa podia ter um carro, sair do país, ou ter uma profissão. Cresci na freguesia ond

Girls In Their Married Bliss

O último da trilogia  The Country Girls. Com este volume, rematamos as aventuras de Baba e Caithleen (conhecida como "Kate" neste livro) - e temos direito àquele que é possivelmente o título mais sarcástico da história da literatura. Será importante referir a grande diferença deste livro, o mais curto da trilogia, relativamente aos dois anteriores: abandonamos Kate como narradora. Esta diferença estilística demarca-se ainda mais por a narração do livro alternar entre a voz em primeira pessoa da sua amiga de infância, Baba, e a vida de Kate na terceira pessoa. Se, no primeiro livro, tínhamos a parvoíce romântica típica de uma adolescente e, no segundo, o primeiro amor mais maduro de Caithleen (aos 20 anos, ainda não uma pessoa completa e formada),  Eugene, temos aqui o desenlace desse mesmo romance, que, no final do segundo volume, parecia terminado. No final do livro anterior, as raparigas tinham ido para Londres, e é em Londres que continuam, alguns anos

Watchmen

Demorei demasiado tempo para ler este portento. Aproveitei para finalmente o adquirir na Feira do Livro de 2019 , quando a FNAC fez da edição inglesa livro do dia, mas só recentemente me consegui sentar e dedicar decentemente à sua leitura, que requer atenção, até por causa da sua estrutura em que, no final de cada "capítulo", há uma porção de texto corrido, documentação acessória que auxilia a compreensão da história. Estamos nos anos 1980 de um mundo alternativo, uma História na qual Nixon é presidente de um terceiro termo, em que a invasão do Afeganistão pela URSS toma proporções ainda maiores, e há ameaça premente de guerra nuclear. Neste mundo, desde os anos 1940 que os EUA tinham super-heróis, e a visão e o papel destes fora mudando ao longo das décadas até que, em 1977, o Keene Act banira a actuação dos heróis. Mas os super-heróis/vigilantes mascarados que Watchmen nos apresenta não são os mais simpáticos - e acompanhamos um deles, Rorschach, que, com a morte d

As Mãos Sujas

Desafio de Abril: ler um clássico traduzido. Tinha pensado em várias outras possibilidades para este tema, mas acabei por escolher uma peça de Sartre. Sendo que leio francês, nunca li Sartre no original . As Mãos Sujas  é uma peça em sete actos, que tem a sua acção num país fictício, Ilíria, que fica algures na Europa Central. A título de curiosidade, Ilíria foi, na antiguidade clássica, o nome de uma parte dos Balcãs (Dalmácia, ex-Jugoslávia e por aí), e é também o local da acção do Twelfth Night  do Shakespeare. A peça passa-se maioritariamente em flashbacks ; a personagem principal, Hugo Barine, libertado da prisão, relata como assassinou um político, dois anos antes. Ou seja, a identidade do assassino é sabida desde logo - a questão aqui é a sua motivação. Pessoal ou política? Não é um "quem o fez"; é um "porquê". Hugo, de origens burguesas, tinha-se juntado ao partido comunista que procurava lutar contra o nazismo e, de modo a obter o reconheci

Ms. Marvel, Vol. 3: Apanhada

É adequado que este livro tenha sido lido no romântico mês de Fevereiro. O título, que no seu original indica  crushed , refere-se a isso mesmo: à vida romântica de Kamala. Pela primeira vez, temos um título em que Kamala Khan, Ms. Marvel, pensa em algo mais que nos seus recém-adquiridos super-poderes e nos vilões que vêm complicar a sua já atribulada vida. Após um momento em que não acredita nos sentimentos de Bruno por ela (o romance impossível que, além do mais, os seus pais nunca permitiriam), Kamala revê Kamran, o filho de uns amigos dos pais dela. É paquistanês, aprovado pela família e tem imensos interesses em comum com ela. Fica imediatamente apanhada por ele. Fazem um casal engraçado, ele tem bom cabelo e parece boa pessoa. A família não a deixa sair com ele sem a companhia do irmão mais velho; fora isso, tudo parece correr bem. Excepto que Kamran não é quem aparentava ser, e tem outros planos com Kamala...   Esta série nunca falha em me divertir e

Nova Lisboa

É difícil escrever sobre o livro de um amigo. Mas é para isso que aqui estamos hoje. Conheço o Alex há vários anos, de lides há muito idas. Há muito que sabia do seu desejo de escrever um livro, tendo chegado a ler alguns dos seus textos - motivo pelo qual este livro me foi algo inesperado (embora o próprio me tivesse anunciado a temática de antemão). O Alex é originalmente de Setúbal, terra de Choque Frrite, mas radicou-se em Lisboa, como tantos outros que vieram por questões laborais ou de estudo. Eu, pessoalmente, sou nascida e criada em Lisboa - mas, como o Alex, e como muita gente, nos últimos meses dei por mim a viver no subúrbio. E este livro é um bocado sobre isso. Sobre como uma cidade se estragou e nos expulsou a todos. Sou uma lisboeta que nunca soube exactamente onde eram ou o que eram os vários tascos históricos que foram fechando e foram ameaçados de fechar por causa dos aumentos das rendas, por prédios comprados e vendidos para outros propósitos

Descender, Vol. 4: Mecânica Orbital

Após um volume de flashbacks , Descender volta a ganhar ritmo. E que ritmo! Este volume retoma o ponto em que ficámos no final do segundo volume, Lua Máquina , em grande suspense. É difícil falar sobre este número sem spoilar , pelo que ficam aqui apenas algumas ideias - em especial, a ideia de que ninguém sairá desiludido desta leitura. Acompanhamos três histórias separadas: o conflito de Tim-21 e Tim-22, Telsa e Quon e Andy e Effie (e o Broca. Adoro o Broca). E a narrativa está desenhada de modo a que conseguimos ler e acompanhar os três blocos em paralelo, com três painéis por página.   Há novos segredos, desvendam-se planos, novos conflitos, novas traições, a grande revelação do Broca. O Andy e a Effie têm de compreender se conseguem continuar a trabalhar juntos ou mesmo coexistir. Telsa, Quon e Tim-21 escapam da Lua Máquina. Há mesmo muita acção, um novo planeta, muito build up  e momentos emotivos. Descender é sci-fi  excelente e as ilustrações magníficas de

Girl with Green Eyes

O segundo volume da trilogia The Country Girls , de Edna O'Brien. Girl with Green Eyes  foi originalmente publicado sob o título The Lonely Girl , em meados dos anos 1960, e dá continuidade ao agridoce  The Country Girls . No final do volume anterior, Caithleen e Baba conseguiram fugir do campo sobre-religioso para Dublin, estando a arrendar um quarto na casa de Joanna. É aqui que as reencontramos, desta feita para uma aventura mais desoladora. Este volume é uma história coming of age  que não terá nada de particularmente memorável, fora o facto de ter profundidade, ser credível e facilitar que o leitor entre no turbilhão de emoções que é o novo romance de Caithleen/Kate. Todo o livro trata do início, meio e fim desse romance - e é avassalador. É um amor jovem que faz com que o "special someone" de Caithleen vire o mundo dela do avesso. I knew that if I loved him enough I would put up with anything from him. A inocência e o estado mental de Kate e Baba são per

Marvels

Um belíssimo tributo às origens dos super-heróis. Esta obra foi-me oferecida por alguém que considero uma autoridade neste mundo da BD e novelas gráficas. Assim, foi com enorme expectativa que abri na primeira página - e, ainda assim, consegui ser surpreendida com a arte logo no início, no momento do nascimento do Tocha Humana. Esta é outra review  criminosamente atrasada, já agora. Marvels  é um tributo às origens dos super-heróis, apresentando magnificamente não só o Tocha Humana, mas o Capitão América e Namor, seguindo-se outras personagens da Marvel, como os Fantastic Four, X-Men, o Homem-Aranha... e a morte de Gwen Stacy, pelas mãos do Duende Verde. Um ponto altíssimo do livro é a forma como mostra que os vários eventos do universo Marvel estão interligados, tornando-o um maravilhoso ponto de partida para a leitura dos seus vários heróis. É-nos tudo relatado do ponto de vista de Phil Sheldon, um fotojornalista que, através da sua lente, nos mostra numa nova luz algun