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O Padrinho

Querendo juntar este à minha incrível lista de "li o livro, nunca vi o filme", até agora encabeçada pelo One Flew Over the Cuckoo's Nest.


Antes de abrir o livro, sabia pouco sobre o enredo. Sabia da história do cavalo, não sabia quanta relevância tinha ou em que contexto acontecia ou quando, etc, o mesmo pode ser dito de outras cenas. O Padrinho é uma história sobre poder e sobre família: Don Vito Corleone, um senhor que faz favores aos seus amigos em troca da sua amizade, e os seus filhos, Sonny, Fredo e Michael, a filha Connie e o filho adoptivo Hagen, que é alemão-irlandês e é advogado. Os três filhos biológicos são-nos apresentados como tendo um pénis enorme (Sonny), sendo um playboy (Fredo) e sendo incrivelmente bem parecido (Michael), sendo estas características importantíssimas e reveladoras.

O poder de Don Corleone vem de ele saber fazer propostas que não se podem recusar e da complexidade das suas relações interpessoais, e de deixar que abusem dele pedindo favores no casamento da sua filha. As pessoas, aliás, referiam-se a ele como Padrinho por fazer tais favores.

Acho que toda a gente que não eu viu os filmes, portanto posso spoilar, né? O Vito achava que jogar era uma coisa e método legítimo de ganhar dinheiro, mas disse que não às drogas (vou só meter esta música aqui porque acho que o meu blog precisa de mais coisas destas). Isto, ironicamente, quase acaba com a vida dele, porque os outros Dons lá do burgo decidem que ele lhes está a arruinar a vida e portanto devem acabar com ele e dão-lhe uns tiros, aos quais ele sobrevive. O Fredo-filho-irrelevante está com ele e entra numa espécie de estado apoplético, o Sonny, conhecido pelo seu enorme pénis mau feitio, toma conta da família e o Michael mais novo decide que não quer ter nada a ver com aquilo, afinal ele foi para a faculdade, foi à guerra lutar pela América e vai-se casar com uma americana chamada Kay, mas depois ele deixa-se envolver quando um polícia o desfigura... com um murro. E depois mata-o mais ao tipo das drogas e foge para a Sicília, reconcilia-se com as suas origens e indirectamente com a Máfia, lifechanging, etc. 

Michael casa-se com uma italiana que nunca fala, esquecendo-se da Kay Americana, mas matam-lhe o irmão Sonny (enquanto ele corria em auxílio da sua irmã vítima de violência doméstica) e depois a italiana é morta num atentado que procurava livrar-se do Michael. Outro tipo assume a culpa por ele, ele volta a NY, forever changed, para herdar o negócio do pai. De herói de guerra, estudante universitário, a líder da Máfia, não mais idealista, por acidente ou destino.

Gostei também de ler a parte do cavalo:

Naquela terça-feira, por qualquer motivo, acordara cedo. A luz da manhã tornava o seu enorme quarto tão embaciado como uma campina enevoada. A certa distância, aos pés da cama, estava uma coisa de forma familiar, e Woltz moveu-se com dificuldade apoiado nos cotovelos para conseguir uma visão mais clara. Tinha a forma de uma cabeça de cavalo. Ainda tonto, Woltz estendeu a mão para alcançar a lâmpada de cabeceira e acendeu-a.
O choque do que viu deixou-o agoniado. Parecia que um grande martelo o tinha atingido no peito, o seu coração começou a bater estranhamente e sentiu náuseas. O seu vómito respingou no tapete de gosto grosseiro.
Separada do corpo, a sedosa cabeça preta do grande cavalo Khartoum estava colada num espesso coágulo de sangue. Viam-se os tendões brancos e delgados. Espuma cobria-lhe o focinho, e os seus olhos grandes como maçãs que tinham brilhado como ouro estavam manchados, lembrando um fruto podre, de sangue morto, em consequência da hemorragia. Woltz foi atacado por um terror puramente animal e, sob o efeito desse terror, gritou pelos criados, em seguida, telefonou para Hagen, fazendo ameaças descontroladas. O seu delírio insano alarmou o mordomo, que telefonou para o médico particular de Woltz e para o seu substituto eventual no estúdio. Mas Woltz recuperou os sentidos antes de chegarem.

E respondendo à minha questão: não tem grande significado nem importância sem ser estabelecer a forma como Don Corleone não deixava que recusassem as suas propostas. Ao contar a história romanceadamente e "do lado de dentro", Mario Puzo faz com que a Máfia pareça uma organização gostável, apesar das suas ideias sobre legalidade e a forma como fazem os seus negócios, e de Vito Corleone uma figura acima de admirável pela forma como construiu o seu mundo. Óptima backstory. Personagens que todos nós detestaríamos na vida real.

Agora o problema, ou antes, os problemas:

1) Lucy Mancini
Há toda uma personagem neste livro cuja função e característica definidora é ter uma wide set vagina (Mean Girls, anyone?). Ela começa como alma gémea do gigante pénis do Sonny e acaba por ter capítulos dedicados a uma cirurgia reconstrutora que o seu marido após a morte do Corleone mais velho patrocina. Para quem viu o filme, a tipa com quem o Sonny tem uma ONS no casamento da irmã. Só porque usei o nome "Sonny" demasiadas vezes neste parágrafo, ele é uma personagem do caraças. É um monstro cheio de defeitos, mas é um bom monstro. Por que é que o livro continua a querer saber da Lucy após a morte do Sonny? We'll never know.

2) Frank Sin, digo, Johnny Fontane
O Johnny é o afilhado (literal) do Padrinho Vito, é cantor/estrela de cinema/cameo do Frank neste livro. Tal como a moça acima, ele é patético, não é relevante na história (serve para a cena do cavalo, PRONTO). Há páginas várias dedicadas ao seu divórcio e à sua vida familiar e à sua sedução de jovens actrizes que não contribuem em nada para a história.

3) Kay Adams
O problema com a moça é que o Michael a abandonou sem dizer nada, volta sem lhe dizer nada (ela descobre acidentalmente SEIS meses depois. SEIS!), e ela aceita-o de volta. Caso não tenham percebido com a história da Lucy, este não é um livro para feministas. Se precisarem de mais argumentos, as mulheres neste livro são fracas, não falam, são definidas por wide set vaginas, ou são prostitutas, e perco um bocado de respeito por homens supostamente fortes que só se relacionam com mulheres assim. Como é que se chama a Mãe Corleone? Ah pois.

4) Tom Hagen
A minha personagem favorita foi o Tom Hagen e infelizmente o livro não é mais sobre ele.

Não sei o quão boa descrição da Máfia real, do crime organizado, isto é, mas é um bocado trashy e eu gosto disso.

4/5 (vou tratar de ver os filmes)

Podem comprar em inglês aqui e em português aqui.

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