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The Sense of an Ending

Yes, of course we were pretentious - what else is youth for?



Tony Webster, narrador deste livro (o meu primeiro de Julian Barnes) narra-nos, aqui, a história da sua vida - agora que a vida que lhe resta é menos que aquela que já passou -, reflectindo na banalidade da mesma. Interligando o tempo presente com o passado cerca de 30-40 anos antes, nos tempos de escola, faculdade e início de juventude, rapidamente nos apercebemos que Tony, como vários outros, é um narrador não confiável, mas por um motivo diferente da maioria dos narradores não confiáveis que a literatura nos costuma apresentar.

À medida que recorda e regista a sua vida, Tony apercebe-se que se lembra apenas daquilo que se "treinou" para lembrar, que há coisas que recalca, reprime, que definem ou poderiam mudar a sua auto-imagem - vai-se apercebendo que a forma como se lembra de vários eventos pode não só ser unilateral, por poder ter sido interpretada de forma díspare pelos outros intervenientes, como do facto que, regra geral, as suas memórias o pintam de forma muito mais bonita que, possivelmente, a realidade o fez.

…but what you end up remembering isn’t always the same as what you witnessed.

O tema de The Sense of an Ending é, portanto, a precisão (ou falta dela) das memórias que temos, que carregamos, que nos definem, e o peso que a nossa posição, e a passagem do tempo, têm sobre as mesmas. A verdade de Tony pode não ser aquilo que realmente se passou; mas e quando somos confrontados com isso? Algumas revelações forçam este homem sexagenário a reavaliar e reinterpretar dados que tinha como garantidos, falsas realidades sobre as quais baseava a sua vida.

É, assim, um narrador que reflecte sobre o facto de não ser confiável, sobre a própria memória não ser confiável, sobre as escolhas inconscientes que fazemos para esquecer ou reinventar o passado, para não recordar aquilo que nos perturba.

If I can’t be sure of the actual events any more, I can at least be true to the impression those facts left.

Incapaz de mudar o rumo da história - a da sua vida, que, tal como a mundial, conhece de uma perspectiva apenas, incerta -, Tony tem de se reconciliar com o passado que, anos mais tarde, o confronta, que muda toda a imagem que ele tinha de relações passadas, familiares, amorosas, de amizade. Há muito que é apenas dito nas entrelinhas neste curto livro, cujo final, algo ambíguo, serve um propósito.

É um livro que convida o leitor a repensar a sua vida e as suas decisões, a reflectir nas temáticas da memória, da vida em geral.

4/5 mas altamente recomendado

Podem comprar esta edição na wook ou na Bertrand, ou em português, na wook ou na Bertrand.


Comentários

  1. Um dos meus preferidos de sempre. The Only Story também é excelente, talvez uns furinhos abaixo para mim.
    Paula

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    Respostas
    1. tenho de ler mais do Barnes! não tendo ficado maravilhada com a narrativa em si deste, foram as suas considerações sobre a forma como aquilo em que queremos acreditar, e a passagem do tempo, toldam as nossas memórias, que me ficaram mesmo.

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