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Mensagens

Quem Come o Quê?

Bárbara Ferreira lê álbuns ilustrados. Este livro chegou-me de surpresa. É um álbum ilustrado de grande formato, pelo que me dediquei no imediato à sua leitura. Não conhecia a autora, Katerina Gorelik, artista russa publicada em França pela Larousse e, agora,  também em Portugal. Pesquisei-a, e não existe muita informação sobre a mesma, fora as suas redes sociais. Fica aqui o behance , e aqui o instagram - confesso que gostei do traço de Katerina. É bonito, colorido e agradável. Quem Come o Quê? é directo qb; mostra-nos animais herbívoros mas também carnívoros, com delicadeza suficiente para dar a entender que alguns animais são também alimento para outros, sem ser gráfico: não só as minhocas e os insectos, mas também as galinhas, vítimas das raposas. Aliás, as galinhas são mostradas num galinheiro, realçando a sua proximidade com os humanos. É um bom livro, sucinto e com belas ilustrações. 3,5/5 Podem comprar esta edição na  wook  ou na  Be...

Gideon Falls: O Celeiro Negro ; Pecados Originais

A chegar atrasada àquele que foi sem dúvida um dos enormes lançamentos de 2019. Tão atrasada que, para compensar, li os dois volumes de seguida. E agora estou ansiosa pelo terceiro porque preciso de saber mais. Num pequeno (e muito parvo) aparte: o primeiro volume abre com uma personagem de máscara, colocando luvas, o que, tendo em conta os tempos que correm, conseguiu ser ainda mais bizarro e sinistro do que aquele que julgo ter sido o intuito de Jeff Lemire e Andrea Sorrentino. Este homem é Norton Sinclair, um jovem adulto com vasto historial de problemas psiquiátricos e sem família, que cresceu em instituições e tem uma compulsão por acumular pedaços e farpas de madeira e pregos que encontra no lixo. A história deste homem é-nos apresentada em paralelo com a do Padre Fred, um padre católico que acaba de ser colocado numa paróquia num meio algo rural, por um bispo que parece ter algum interesse nesta colocação. O próprio Padre Fred tem, claramente, um segredo obscuro no ...

Livros sobre liberdade

Todos os dias são bons para comemorar a liberdade e a democracia, mas hoje é um dia ainda melhor. A democracia e a liberdade, para mim, reflectem-se no igual tratamento de todos os seres humanos enquanto tal. Sermos livres de sermos quem somos, de fazermos as nossas escolhas pessoais e não sermos perseguidos pelas mesmas. Termos todos igual direito à vida e à dignidade. À nossa voz e às nossas escolhas, em pleno respeito dos outros. Portugal é um país em que, há 46 anos e um dia, o governo se orgulhava publicamente de ter poupado o país à Segunda Guerra Mundial, como se não estivesse há anos submerso em guerras coloniais várias. Um país com um Tarrafal, com um Aljube, com uma mal esclarecida morte do Carlos Burnay e muita perseguição a muita gente. Onde um homem que assassinasse a esposa estava condenado, no máximo, a seis meses de desterro. Onde estes mesmos maridos é que podiam decidir se a esposa podia ter um carro, sair do país, ou ter uma profissão. Cresci na freguesia ond...

Girls In Their Married Bliss

O último da trilogia  The Country Girls. Com este volume, rematamos as aventuras de Baba e Caithleen (conhecida como "Kate" neste livro) - e temos direito àquele que é possivelmente o título mais sarcástico da história da literatura. Será importante referir a grande diferença deste livro, o mais curto da trilogia, relativamente aos dois anteriores: abandonamos Kate como narradora. Esta diferença estilística demarca-se ainda mais por a narração do livro alternar entre a voz em primeira pessoa da sua amiga de infância, Baba, e a vida de Kate na terceira pessoa. Se, no primeiro livro, tínhamos a parvoíce romântica típica de uma adolescente e, no segundo, o primeiro amor mais maduro de Caithleen (aos 20 anos, ainda não uma pessoa completa e formada),  Eugene, temos aqui o desenlace desse mesmo romance, que, no final do segundo volume, parecia terminado. No final do livro anterior, as raparigas tinham ido para Londres, e é em Londres que continuam, alguns anos...

Watchmen

Demorei demasiado tempo para ler este portento. Aproveitei para finalmente o adquirir na Feira do Livro de 2019 , quando a FNAC fez da edição inglesa livro do dia, mas só recentemente me consegui sentar e dedicar decentemente à sua leitura, que requer atenção, até por causa da sua estrutura em que, no final de cada "capítulo", há uma porção de texto corrido, documentação acessória que auxilia a compreensão da história. Estamos nos anos 1980 de um mundo alternativo, uma História na qual Nixon é presidente de um terceiro termo, em que a invasão do Afeganistão pela URSS toma proporções ainda maiores, e há ameaça premente de guerra nuclear. Neste mundo, desde os anos 1940 que os EUA tinham super-heróis, e a visão e o papel destes fora mudando ao longo das décadas até que, em 1977, o Keene Act banira a actuação dos heróis. Mas os super-heróis/vigilantes mascarados que Watchmen nos apresenta não são os mais simpáticos - e acompanhamos um deles, Rorschach, que, com a morte d...

As Mãos Sujas

Desafio de Abril: ler um clássico traduzido. Tinha pensado em várias outras possibilidades para este tema, mas acabei por escolher uma peça de Sartre. Sendo que leio francês, nunca li Sartre no original . As Mãos Sujas  é uma peça em sete actos, que tem a sua acção num país fictício, Ilíria, que fica algures na Europa Central. A título de curiosidade, Ilíria foi, na antiguidade clássica, o nome de uma parte dos Balcãs (Dalmácia, ex-Jugoslávia e por aí), e é também o local da acção do Twelfth Night  do Shakespeare. A peça passa-se maioritariamente em flashbacks ; a personagem principal, Hugo Barine, libertado da prisão, relata como assassinou um político, dois anos antes. Ou seja, a identidade do assassino é sabida desde logo - a questão aqui é a sua motivação. Pessoal ou política? Não é um "quem o fez"; é um "porquê". Hugo, de origens burguesas, tinha-se juntado ao partido comunista que procurava lutar contra o nazismo e, de modo a obter o reconheci...