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Madame Bovary

Este tinha-me sido já recomendado por várias pessoas. Peguei-lhe finalmente por ser group read de um dos vários grupos no Goodreads aos quais pertenço mas nos quais não participo.


A minha primeira (e única, até agora) experiência com o Flaubert foi um conto, também em português, sobre uma empregada e um papagaio. Embora tal conto tivesse como objectivo enaltecer a simplicidade da empregada (ou é o que retiro do título, Un coeur simple), a relação dela com o papagaio roçava a bestialidade, pelo que não sabia bem o que esperar desta obra.

Um dos motivos que me fez não querer ler este livro antes foi o facto de ser uma tradução em português (como todos os livros nesta casa que não me pertencem). Não gosto de ler traduções em português, não só porque são bem mais caras que traduções inglesas mas porque, pior ainda, fico sempre com a sensação que só temos tradutores bimbos, tanto pela forma raramente apelativa da prosa como pelas palavras utilizadas*. À quinta página este meu receio confirmou-se, com a utilização da palavra "pimpolho" em contexto não relacionado com o Iran Costa:

Quando ela teve um filho, foi preciso pô-lo na ama. Voltando para casa dos pais, o pimpolho foi tratado como um príncipe.

O tradutor, segundo o livro, chama-se João Pedro Andrade. Surge-me aqui uma dúvida: será o João Pedro de Andrade, que traduziu a obra em 1960 (de acordo com o Google), ou um outro quase homónimo? Se for o primeiro, por que é que uma edição de 2007 continua a apostar numa tradução incrivelmente datada (sim, a tradução É incrivelmente datada: A criada abriu a lucarna do sótão e parlamentou durante algum tempo com um homem que ficara lá em baixo, na rua.)? Se é outro (são, afinal, nomes comuns), por que é que parece tão datado?

Mas bem, não tendo capacidades financeiras para comprar uma cópia em inglês por 3€, nem os conhecimentos necessários para comprar uma em francês (leio um pouco em francês, mas o Flaubert e o seu le mot juste assustam-me um pouco - embora esta tradução deva ser um atentado ao mot juste), perseverei.

Ora adiante.

Os talvez cinco primeiros capítulos de Madame Bovary são sobre Charles (ou Carlos, segundo esta tradução e a sua necessidade louca de traduzir nomes próprios) Bovary, e são uma seca descomunal (ou, novamente, a tradução não ajuda. E eu que pensava que já tinha preenchido a minha quota vitalícia de livros sobre médicos chatos com um certo russo...). A partir daí o livro centra-se na personagem que lhe deu o título, a sua esposa, Emma (ou Ema, qual ave australiana, segundo o João Pedro) Bovary, que está aborrecida. Aqui a história começa a ter mais interesse - o que não é de admirar, até porque o Charles/Carlos é uma seca e é péssimo médico.

A conversação de Carlos era chata como o passeio duma rua, e nela desfilavam as ideias de toda a gente, no seu revestimento comum, sem excitar qualquer emoção, riso ou motivo para meditar. Nunca tivera a curiosidade bastante, dizia ele, para, enquanto habitava Ruão, ir ao teatro ver os actores de Paris. Não sabia nadar, nem esgrimir, nem atirar à pistola, e um dia teve dificuldade em explicar-lhe um termo de equitação que ela encontrara num livro.
Pois não era verdade que um homem devia, pelo contrário, conhecer tudo, ser expedito em actividades múltiplas, iniciar uma mulher nas energias da paixão, nos refinamentos da vida, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava nada, não sabia nada, não desejava nada. Julgava-a feliz; e ela aborrecia-o por aquela calma tão permanente, aquela gravidade serena, pela felicidade até que ela lhe proporcionava.

Emma casa-se por estar aborrecida (claramente uma boa motivação), e cedo (na noite do casamento) se volta a aborrecer (ver citação acima): redecora a casa, muda de terra, tem uma filha (não por estar aborrecida, mas a maternidade aborrece-a), lê romances manhosos, adoece, gasta dinheiro, vai falar com o padre, arranja amantes, endivida-se, mas nada a satisfaz. Ainda por cima a comida não é servida nos pratos certos e o marido veste-se mal e gosta de lhe falar do seu dia, mas quem é que aguenta isso? Final trágico para um livro sobre uma mulher que possivelmente apenas não se sabia entreter e que, enquanto no início era uma pessoa gostável (estava aborrecida com o marido e com a vida - quem nunca esteve?), no fim é apenas má pessoa e, pior - pobre. Emma acaba por parecer ingrata, porque não tem grande motivo para querer mais da vida: não interessa o facto de o marido a idolatrar, de ter na sua vida comodidades várias - não há grande justificação para os seus amantes, para os seus erros - e, no fim, não aprende nada com o que fez. Porém, gosto como como o livro não nos incita a julgá-la, apesar de a história ser um bocado "esta tipa tinha tudo e olhem no que deu". No mesmo sentido, este excerto vale pelo livro todo:

- Sim - respondeu ela -, e fiz mal. Uma pessoa não deve habituar-se a prazeres inacessíveis, quando tem à volta de si mil exigências...
- Oh! Eu imagino...
- Não, não pode imaginar porque não é mulher.

Entretanto, tal como as partes focadas no Charles, todas as cenas focadas na vida do pessoal de Yonville eram também maçudas - possivelmente por contribuírem pouco para a narrativa e por serem incrivelmente descritivas (sim, sei que é comentário social, sim sei que é relevante para localizar a história, mas não aprecio aquilo que não avance com a história e não aprecio descrições). Não quero saber de mesas de bilhar nem de concursos de animais. Aproveitarei para salientar apenas:

- Que espantosa catástrofe! - exclamou o boticário, que tinha sempre expressões adequadas para todas as circunstâncias imagináveis.

3.5/5

Podem comprar em inglês aqui, em francês aqui, em português aqui.


* Sou tradutora, embora não de literatura. Caso as crianças (e respectivos pais) que lêem o meu trabalho me achem bimba, e no altamente improvável evento de lerem também este blog, fica aqui o meu mais sincero pedido de desculpas.

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