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O Artesão

Lido a convite da Capital Books, terminado ainda antes da minha viagem.


Esta foi a minha segunda experiência com um eBook. A primeira foi, há talvez dez anos, a ler o He's Not That Into You (memória que será engraçada para umas reviews mais à frente, para verem o quão em atraso estou nisto). Essa primeira tentativa foi, como quiçá seja sugerido pela data, num portátil, algo que, especialmente com as crescentes horas fora de casa, se torna pouco prático; desta vez, o suporte foi o tablet do meu amor.

O Artesão, primeiro livro da autora, Carla Antunes, é um romance na verdadeira acepção da palavra: centra-se numa história de amor forte, entre Nina e Simão, tornado (ou descoberto) impossível, amor que acompanhara as duas personagens desde crianças e que nunca as largou. Nina nunca soubera por que motivo Simão a pedira em casamento e não voltara a aparecer, mas ambos continuaram a pensar um no outro, a viver em função um do outro, pese embora não estarem mais juntos.

– Às vezes fecho os olhos, à noite deitada naquela colcha e ainda o vejo.

Este é um cenário de isolamento, uma comunidade fechada na Serra da Estrela, um cenário onde a neve fecha todos os caminhos e contactos, onde as telecomunicações parecem não ter atingido a população do modo a que estamos habituados, onde há referências (muito apreciadas) à Bonnie Tyler e as mensagens podem ser entregues por falcões:

Sente-se observada, diante dos olhos curiosos de ver aquela rapariga a aproximar-se do falcão. 
– Que trazes tu aí? – eleva as asas, enormes de reflexos castanhos e dourados. Crava-lhe as garras no pulso e acalma assim que lhe tira o pequeno papel da anilha metálica que traz na pata: – Pronto. Calma... Toma! – dá-lhe um pedaço de presunto seco que guardava no bolso, desdobra o papel . “O relógio avariou outra vez. Espero por ti na vila. Victor”.

Nina, apaixonada por relógios, vai à vila ver o que se passa, deixando para trás o seu pai alcoólico, de quem cuida. Já na vila, presencia uma cena de luta entre Simão e um desconhecido, louro, com quem se cruza e que lhe deixa uma imagem marcante, bem como uma peça de relógio. Como a sinopse da obra diz, "perdido no tempo": tanto se aplica ao ambiente, com os seus anacronismos, como à ideia dos relógios que param.

O dia avança, a neve cai, e Nina cai do cavalo e desaparece. A vila inteira entra em pânico - Nina era amada por todos - e procura-a, e aprendemos cada vez mais sobre certas dinâmicas, certas inimizades, nomeadamente aquelas que Simão semeara por toda a vila, tanto pelo seu comportamento para com Nina, como para com alguns amigos em geral - mas, mais recentemente, por se ter envolvido com um grupo criminoso de interesses pouco claros.

Quando Nina acorda, dá por si num local abandonado, juntamente com a família que a salvara, família essa da qual faz parte o louro misterioso com quem se cruzara antes, Isaac. Convalescente, vai-se tornando cada vez mais parte da família, aprendendo a sua vida de eremitas e as suas peculiaridades (incluindo uma escalada anual ritualística a uma muralha, à la Game of Thrones, aqui sem objectivos invasores, mas sim de comunhão) e, é claro, apaixonando-se por Isaac.

Apesar de ter dito "é claro", devo deixar explícito que o livro não teve nada de óbvio; toda a atmosfera se manteve misteriosa e surpreendente, e é interessante ver o desenrolar da paixão entre Nina e Isaac quando Simão se encontra sempre no pano de fundo para ela. Quer-se sempre virar a página, descobrir o que acontecerá a seguir; e quando, meses decorridos, Simão finalmente encontra Nina, cruzando o seu mundo com o novo mundo dela, a narrativa torna-se imprevisível. O final repõe, de certa forma, a felicidade onde nada deveria ter sido conturbado, mostra o tempo a dar uma segunda oportunidade.

O escolhido entre tantos, a certeza que nas suas mãos qualquer vida chegaria a tempo. “E o tempo é generoso”, tantas vezes ela o dizia. Tudo voltou ao início, mas desta vez estava escrito muito além das estrelas, num lugar que ninguém conhece nem pode alcançar.

É uma primeira obra entusiasmante e, acima de tudo, ambiciosa. Senti que a autora teria material para muitos mais livros, material que não foi totalmente desenvolvido nesta obra e poderia ser central em obras futuras - e, nesse sentido, tenho curiosidade relativamente a futuras publicações da sua autoria.

3,5/5

Podem comprar esta edição aqui.


Comentários

  1. Respostas
    1. Não tenho palavras. Muito obrigada pela partilha, nunca pensei receber tais palavras vindas de alguém que não conheço, que nunca vi mas que consegui tocar de alguma forma. Abraço :)

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    2. Obrigado pelo seu comentário, Carla, fico muito feliz por ter chegado ao meu blog e ter tirado o tempo de ler o que achei da sua primeira obra! Continue a escrever - sinto que tem realmente muitas histórias para contar.

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