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Diz-lhe que Não

O blog da Helena é um blog que leio às vezes, mais pelo que ela possa ter a dizer sobre livros do que pelo restante conteúdo, confesso. Este livro é sobre o restante.


No entanto, quando finalmente foi lançado o livro no qual ela mencionava há meses estar a trabalhar, fiquei curiosa na mesma.

Tal como o He's Just Not That Into You, que li há anos e mencionei há dias, Diz-lhe que Não é uma reflexão humorística sobre relacionamentos (tanto da própria Helena, como das suas amigas mais chegadas) que talvez não sejam os mais correctos, seja porque a outra pessoa em questão não é a mais correcta, porque não está verdadeiramente interessada, etc. Helena fala, ao longo dos capítulos, das dificuldades vividas nas relações amorosas, cada vez mais banalizadas, sem-futuro e exacerbadas pelas novas tecnologias que tornam tudo tanto mais impessoal, quanto mais rápido.

Não me consegui exactamente identificar com a autora ou com as suas amigas, por um motivo.

Para quem vive noutro universo (aquele em que eu queria viver), e não sabe o que é o Tinder, eu explico (...)

Basicamente, eu vivo nesse outro universo. Sei no que consiste o Tinder, porque não vivo num universo exactamente infoexcluído, mas nunca usei, não sei como funciona, nem quero saber, não por ter tido um Nokia com lanterna até 2015, mas porque vivo naquele outro universo: tenho uma relação estável, de alguns anos, com alguém que conheci na vida real (nada contra quem conhece pessoas online, no entanto!), que me completa e me deixa feliz todos os dias, com quem estou a construir uma vida.

Portanto, no meu universo, não estou à procura de absolutamente ninguém, e as histórias de procura, de tentativa e erro, no fundo, que Helena relata, não se aplicam. Helena fala de romances maioritariamente fátuos (aos quais chama de "relações fast-food"), seus e das suas amigas, o que correu mal, os sinais que devia ter apanhado de que ia correr mal, atribuindo alcunhas aos vários homens que vai apresentando (preservando identidades). E são daquelas histórias que, vendo de fora (ou, espero, olhando para trás), acabam por ser tão patéticas que dão vontade de rir: desde um senhor de mais idade cuja terceira ex-mulher vai atormentar a autora e a sua amiga a uma casa que era deles, em Sevilha (e sim, dá-se ao trabalho de fazer a viagem inteira), a homens que inventam vidas duplas, a homens que são incapazes de sair sem o seu colega de casa (mesmo quando a intenção da saída seria romântica), passando pelo Espanhol, um homem que vive em Barcelona e que tem com Helena uma relação do tipo the one who got away, que se vão esquecendo e relembrando sempre que se reencontram - mas ele tem outra, e não a larga embora prometa que o vá fazer.

Conheço muitas mulheres que escolhem ficar em relações de merda porque é muito mais fácil viver assim do que enfrentar o mundo sozinhas.

É também engraçado ver como Helena acaba, de certa forma, por cair nas coisas em que diz não querer cair: experimenta o Tinder, embora abomine relações "baseadas" nas conversas por mensagens, por Whatsapp e outras aplicações; repele relações rápidas mas, quando aos três meses numa relação, uma amiga está surpreendida por ainda não ter havido sexo, Helena começa a questionar aquilo que achava que estava a correr bem (porque é que, aos 30 anos, ainda é real esta pressão à la American Pie?); fala de quem partilha demasiado nas redes sociais mas, numa visita de trabalho a Barcelona, partilha uma foto com a sua localização, não esperando ser contactada pelo Espanhol, que continua com a sua namorada (e Helena condena, assumidamente, traições, mas descobre-se também - embora enganada - nessa posição). Porque, no fundo, toda a gente tem ideais, e diz que não vai fazer certas coisas - mas quão mais fácil será dizer que fazer?

Mas o que acontece é que, às vezes, ficamos tão envolvidas com a ideia do que aquela relação poderá vir a ser que não pensamos se aquela pessoa é alguém com a qual nos identificamos.

Mesmo que não sejam histórias que eu, na primeira pessoa, conheça, compõem uma leitura agradável. É divertido, rápido e fácil de ler, e Helena escreve muito bem, o que ajuda. Os vários livros que leu, os seus anos a trabalhar em jornalismo, a boa selecção de histórias no meio de um universo que acredito ser bem mais vasto: tudo isto contribui claramente para a qualidade desta sua primeira obra. 

Tive apenas um problema, um pequeno senão: fiquei triste e algo decepcionada com a mensagem atribuída a certas peças de vestuário, algo que me parecia demasiado julgamento, pois embora me tenha relacionado com a parte em que Helena diz julgar situações de traição, não me sinto à vontade com frases como normalmente, imaginamos as "outras" como vadias de mini-saias (...), ou quando ia com as amigas numa rua no Porto, nós de ténis e Beatriz a arrastar uns saltos altos que traduzem engate, ou ainda a parte em que refere uma amiga com quem saia mas, então, nas minhas calças de ganga, botas ou ténis, nunca conseguia competir com as suas mini-saias ou saltos altos. Estamos aqui a entrar no campo de atribuir um significado ou uma mensagem em certas peças de vestuário, quase passando a imagem que vestir uma mini-saia faz de alguém uma pessoa com certas intenções. São roupas com uma conotação sexualizada? Se calhar podíamos todos lutar um bocadinho para ultrapassar estereótipos, para não os incumbir numa população quiçá mais nova, para podermos todos vestir o que nos apetecer sem nos chamarem vadias de mini-saia? Custou-me muito por vir de alguém que advoga o girl power, o amor-próprio, a auto-estima.

Posto isso, é um problema meu, que eu tenho (e que ultrapassei, apenas não consegui deixar de referir). E recomendo o livro a qualquer pessoa: mesmo a quem, como eu, não se vá identificar ou relacionar com as histórias narradas.

O amor é sentirmo-nos em casa com alguém ao lado, é sermos nós próprias com alguém ao lado. 

4/5

Podem comprar esta edição aqui.

Comentários

  1. Parece bastante actual, gostava de ler :p

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  2. Essas referencias à roupa é contraditório em relação ao resto da mensagem. Para além disso é feio.

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    Respostas
    1. Concordo Cláudia, sem dúvida. Sou activista na área do feminismo, é uma mensagem muito feia e muito contraditória ao empoderamento feminino. São "apenas" meia dúzia de frases no meio de um livro, respiro fundo, continuo em frente, gostei do livro em geral - mas detesto a ideia de um público mais jovem a ler isso, achar que as colegas da escola que gostam de saltos ou saias curtas são isto e aquilo e ténis/calças é uma combinação superior... e pior, homens que possam achar que uma mulher de saia curta legitima alguma coisa.

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