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Dubliners

Fazer uma review de James Joyce é um desafio (embora menor que a aura de desafio em torno da obra do autor).


Estando mentalmente preparada para um esforço tremendo para perceber James Joyce, naquela que foi a minha primeira experiência com o autor, fiquei surpreendida pela facilidade de não só ler mas também visualizar os residentes de Dublin circa 1900.

Em 15 contos, temos um retrato desolador de uma cidade que se torna estranhamente familiar ao passar de cada página. O primeiro conto retrata a morte, bem como o último - começa e acaba em morte, e tudo no meio retrata vários pontos da vida (porque, algures no meio, há a vida), de forma singular mas discretamente cronológica. Muitos dos contos são poderosos por serem tão realistas.

Destaco alguns: Counterparts, sobre o estereótipo alcoólico irlandês; Eveline, a jovem que quer fugir com um marinheiro; A Painful Case, sobre a solidão a que podemos condenar os outros; e a história final, The Dead, cujo protagonista, Gabriel, se apercebe, no final de uma festa dada pelas suas tias, que afinal não conhece a sua esposa como pensava - que esta amara sempre outro, um fantasma. Gabriel sente-se preso num passado que não foi o seu, e numa epifania de que nunca amou realmente a sua mulher, ou qualquer outra. Tal como o antigo amor da sua esposa, também ele está morto, num sentido figurado, pois a sua vida, como ele a conhecera, acaba ali.

Generous tears filled Gabriel's eyes. He had never felt like that himself towards any woman, but he knew that such a feeling must be love. The tears gathered more thickly in his eyes and in the partial darkness he imagined he saw the form of a young man standing under a dripping tree. Other forms were near. His soul had approached that region where dwell the vast hosts of the dead. He was conscious of, but could not apprehend, their wayward and flickering existence. His own identity was fading out into a grey impalpable world: the solid world itself, which these dead had one time reared and lived in, was dissolving and dwindling. (...) His soul swooned slowly as he heard the snow falling faintly through the Universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living and the dead.

Em poucas páginas, temos um retrato de uma cidade com a sua classe média e trabalhadora, com os vários desejos humanos, sejam estes amor, dinheiro, uma forma de escapar, religião, entre outros; temos aqui um conjunto de pessoas frustradas, que descarregam muitas vezes as suas frustrações nos outros, que fazem com que a vida em Dublin, aquela que devia rechear as páginas desta obra, não seja realmente vida, mas um conjunto de alcoolismo, hipocrisia, paralisia moral e política.

Nunca estive em Dublin; não sei como é a cidade, não sei o que esperar dela hoje, mas este livro dá uma sensação extremamente forte de como ela era no início do século passado, não por descrever os seus espaços físicos mas as suas instituições sociais e políticas, a sua base, as suas pessoas. Dubliners, gente de Dublin.

I wanted real adventures to happen to myself. But real adventures, I reflected, do not happen to people who remain at home: they must be sought abroad.

4/5

Podem comprar esta edição aqui, ou em português aqui.

Comentários

  1. Deu-me vontade de ler o livro
    A última citação é totalmente accurate, tem de se ter um lado Bilbo Baggins every once in a while

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