16 abril, 2017

Fever Pitch

Bárbara Ferreira lê non-fiction sobre futebol.


Comprei há alguns anos um pack de seis livros do Nick Hornby, e li entretanto todos (podem ler três reviews espalhadas por este espaço; os outros dois, li antes). Gosto muito do autor: não sendo exactamente as minhas obras favoritas, a leitura é sempre fácil e agradável, e em momentos de maior "desinspiração" para a leitura, foi a quem recorri. Mas houve um motivo para este ter ficado guardado até agora, e o motivo foi precisamente tratar-se de uma obra sobre a experiência de um fã de um clube da Premier League.

Agora, não me interpretem mal. O motivo pelo qual Fever Pitch ficou na estante não é aversão a futebol: é que, menos de um ano depois da aquisição dos livros, conheci alguém que mudou a minha vida por completo (se tornou na minha vida) e cujo sonho era ir a Old Trafford. E levá-lo a Old Trafford tornou-se num dos meus sonhos, e achei que seria giro ler este livro para a ocasião, não obstante o facto de Nick Hornby ser fã do Arsenal e não do Manchester United.

E esse sonho realizou-se há menos de duas semanas.

I fell in love with football as I was later to fall in love with women: suddenly, inexplicably, uncritically, giving no thought to the pain or disruption it would bring with it.

Nick Hornby relata neste livro mais de 20 anos enquanto fã do Arsenal e de visitas frequentes ao estádio de Highbury. Hornby apaixonou-se pelo clube aos 11 anos porque o pai, que se tinha divorciado recentemente da mãe e tinha, como consequência, saído da casa da família, o levava a ver os jogos, numa tentativa de terem uma ligação, uma relação (o pai era, no entanto, fã do Chelsea, e não sentia a mesma paixão que o filho, sendo esta rotina para ele, muitas vezes, segundo Hornby, quase um castigo).

O autor fala da sua relação com o futebol e com o clube desde o início, juntando os efeitos da paixão que se tornou obsessão na sua vida pessoal (sejam negativos ou positivos), com uma lucidez e capacidade de reflexão impressionantes. Nick Hornby cresce, e é sempre acompanhado pelo futebol. Mesmo quando pensa que vai deixar de assistir a jogos, há algo que o traz de volta. O Arsenal não é, para ele, uma escolha - é uma paixão que não acaba, por mais que ele tente.

I had discovered after the Swindon game that loyalty, at least in football terms, was not a moral choice like bravery or kindness; it was more like a wart or a hump, something you were stuck with. Marriages are nowhere near as rigid - you won’t catch any Arsenal fans slipping off to Tottenham for a bit of extra-marital slap and tickle, and though divorce is a possibility (you can just stop going if things get too bad), getting hitched again is out of the question.

Lemos sobre jogos, vários, cujas datas Nick Hornby sabe de cor, e que relaciona a vários eventos marcantes da sua vida, o que é uma forma narrativa diferente e interessante, mesmo quando jogos de futebol não são exactamente a narrativa mais entusiasmante. É escrito do coração, e lemos sobre a viagem do Arsenal ao longo dos anos desde que Hornby começara a sua saga enquanto fã, os heróis do clube, os bons e os maus momentos, bem como vários momentos do futebol que marcaram a história do Reino Unido (como Hillsborough).

Enquanto Fever Pitch deve ser lido, possivelmente, por todos os fãs do Arsenal - aqueles que partilham desta paixão, aqueles que querem conhecer um pouco mais, talvez, da história do seu clube -, é um livro para ler quando se quer saber mais sobre futebol, sobre futebol em Inglaterra, em particular, ou sobre a paixão pelo desporto. Porque Fever Pitch é, acima de tudo, a defesa desta paixão. É sobre outras coisas, claro: sobre classes económicas, sobre racismo, sobre hooligans, sobre como ter uma vida com outras pessoas para além desta obsessão. E sobre como, por vezes, a obsessão vai demasiado longe, e influencia demasiado a vida e as decisões importantes.

As I get older, the tyranny that football exerts over my life, and therefore over the lives of people around me, is less reasonable and less attractive. Family and friends know, after long years of wearying experience, that the fixture list always has the last word in any arrangement; they understand, or at least accept, that christenings or weddings or any gatherings, which in other families would take unquestioned precedence, can only be plotted after consultation. So football is regarded as a given disability that has to be worked around. If I were wheelchair-bound, nobody close to me would organise anything in a top-floor flat, so why would they plan anything for a winter Saturday afternoon.

4/5

Podem comprar uma outra edição em inglês aqui, ou em português aqui.

7 comentários:

  1. Óptima camisola :p glory glory Man United :D

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  2. Babetes :$ Obrigado por tudo, és incríveeeel

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  3. E um bom livro também, é sem dúvida diferente
    Um livro que realmente deve ser lido por qualquer fã do Arsenal mas não só, qualquer fã de futebol revê-se em muito ao ler muitas das páginas
    Obrigado por mo teres emprestado Ba :p

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    1. Também achei que qualquer fã se poderia rever, independentemente do clube que figurava nas histórias do autor :p sem dúvida uma autobiografia diferente!

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  4. Claro, e a tua imagem ilustra isso mesmo, United e Arsenal, futebol acima de tudo, a paixão que cria

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