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American Psycho

A escolha mais macabra possível para um book club de uma instituição financeira.


Há uns anos li o Less than Zero e gostei muito de toda a atmosfera pessimista e desoladora do livro. Há também muitos anos que queria ler este (sem nunca ter visto o filme, para não variar).

Uma das admissões mais chocantes a fazer acerca deste livro é que sinto que o teria apreciado muito mais - como em, gostado muito mais da leitura - se tivesse 16 anos. Nessa altura, lia Chuck Palahniuk e achava piada a toda essa cultura alternativa de cult classics. Ainda acho - mas American Psycho caiu-me mal.

Patrick Bateman tem, como eu, 26 anos e, como eu, trabalha numa instituição financeira (sintam o porquê de eu achar uma escolha macabra para um book club laboral). É o narrador e personagem principal deste livro, e a narrativa passa por tópicos extremamente repetitivos: no início, descrições extensas e patéticas da roupa cara e de designer que toda a gente do seu círculo tem vestida, os restaurantes a que vão, a comida que comem, a conta dos mesmos restaurantes, a água que bebem, os aparelhos caros que têm em casa, o racismo, sexismo e elitismo de todas as personagens; a forma como Bateman vê obsessivamente e lista os tópicos de um programa fictício, o Patty Winters Show, antidepressivos, cocaína, muito exercício físico, manicuras e penteados; os vários nomes pelos quais toda a gente é tratada, porque são todos tão idênticos e/ou demasiado centrados em si próprios para distinguir terceiros.

Superficial, superficial, superficial.

É uma sátira de uma sociedade dos anos 80 nos Estados Unidos, em New York para ser mais precisa; Patrick Bateman identifica-se pela roupa que veste, os produtos que usa, os lugares onde come, o exercício que faz: o dinheiro que tem. Sendo maçudo, não é exactamente mau. As primeiras muitas páginas são passadas a observar pessoas ricas a serem ricas e desagradáveis, Patrick a ter reacções pouco normais a coisas como a incapacidade de reservar uma mesa no restaurante do momento, Patrick a dizer coisas perturbadoras aos seus amigos, os seus amigos a aparentemente não ouvirem, a acharem que ele é óptimo rapaz e incapaz de fazer mal a uma mosca.

I like to dissect girls. Did you know I'm utterly insane?

Bateman é um assassino. Assassina um sem-abrigo, um colega de trabalho, uma criança, mas a sua verdadeira paixão é torturar e assassinar mulheres.

E é aqui que o livro de certa forma muda, porque após Bateman insinuar alguns homicídios e começar a cometê-los e descrevê-los, o livro torna-se caótico, a falta de cronologia torna-se evidente, e pior, o livro torna-se aborrecido. Bateman tortura e mata repetidamente e as cenas fizeram-me pensar frequentemente "não, não, não, não". Cenas sexuais macabras, tortura sexual, tortura pura. Não consigo compreender estas cenas enquanto absolutamente necessárias. E a partir daqui, quando nenhum detalhe nos é poupado, tudo o que acontece é o surgir de novas mulheres para morrerem, novos métodos de tortura, nada de muito novo.

I imagine her naked, murdered, maggots burrowing, feasting on her stomach, tits blackened by cigarette burns, Libby eating this corpse out, then I clear my throat.

Este livro foi muito mais macabro do que eu pensava, a muitos, muitos níveis.

Algumas tentativas de uma narrativa surgem: Bateman mata um colega chato, Paul Owen, por este estar a tratar de uma conta cobiçada, e começa a usar o seu apartamento como recipiente para restos mortais. Um detective eventualmente vai ter com Bateman, em busca de Paul Owen, mas este é repetidamente avistado em Londres e Bateman está além de qualquer suspeita, apesar de o apartamento estar sob vigia.

E o livro perde-se um bocado, torna-se numa série de eventos banais da vida de Patrick Bateman, sendo que o banal para ele vai desde exercício físico a homicídios a fingir que trabalha a ir às compras a alucinar. Sente-se uma batalha constante com a sua saúde mental - não que ele se sinta mal, que sinta culpa, mas sente a falta de controlo. É, no entanto, impossível simpatizar com Bateman, bem como com praticamente qualquer outra pessoa no livro.

Destaca-se a incapacidade de o apanharem ou suspeitarem sequer de Bateman no meio de todos estes crimes. Quando Bateman, a certa altura, tenta regressar a casa de Paul Owen, descobre que esta está simplesmente à venda. Mais tarde, sabe que há quem tenha jantado com ele em Londres. Será que todos estes eventos extremamente brutais aconteceram de verdade, ou foram as horrendas alucinações de um indivíduo psicótico?

(...) there is an idea of a Patrick Bateman, some kind of abstraction, but there is no real me, only an entity, something illusory, and though I can hide my cold gaze and you can shake my hand and feel flesh gripping yours and maybe you can even sense our lifestyles are probably comparable: I simply am not there.

Mais: a certa altura, Patrick decide telefonar ao seu advogado e deixa uma longa mensagem no gravador de chamadas a descrever os seus actos macabros, os seus crimes. Quando, mais tarde, encontra o advogado, este confunde-o com outra pessoa e diz que o telefonema teve imensa piada, e se Patrick não fosse tão boa pessoa, tão certinho, quase que acreditava.

Patrick Bateman sai ileso de todas as tentativas de confissão do que se passa na sua cabeça.

O outro problema é que isto não precisava de ter tantas páginas. Não sou, pessoalmente, fã de conversas repetitivas sobre modas e bronzeados e a maneira correcta de usar sapatos castanhos e qual a melhor água engarrafada ou, pior, detalhes absurdos sobre a carreira da Whitney Houston. É entediante, tal como o narrador é.

Será que Bateman se tornou assim por ser tão rico e estar tão aborrecido e o mundo ser um lugar tão vazio que ele não tinha nada para conseguir, conquistar, desejar - nada por que tivesse de lutar? O que é que se faz quando a vida é tão vazia?

De salientar também aquela que creio ser uma crítica frequente ao livro: Bateman não é particularmente criterioso com quem mata, mas guarda os desmembramentos, ratos e berbequins e canibalismo para mulheres (que são as vítimas mais frequentes). E os homicídios destas mulheres são extremamente sexualizados, geralmente cometidos após o acto. Violações, espancamentos, torturas extremamente detalhadas e nauseantes. A misoginia é tão pronunciada que não me parece acidental ou parte de uma misantropia generalizada.

E isto é extremamente repetitivo. Bateman fala sobre coisas insignificantes e banais e mundanas de forma repetitiva, ninguém sabe quem é quem porque no fundo são todos o mesmo produto da mesma sociedade, Bateman participa em actos sexuais extremos e pouco apelativos e depois há um homicídio horrendo. Rise and repeat.

O livro acaba abruptamente. Tal como começou, Bateman encontra-se com o seu círculo de amigos numa conversa absolutamente banal. Fiquei chateada porque acabou do nada, confesso - há livros em que isso funciona, mas neste não senti isso. Não há justiça, não há redenção, não há mudança ou crescimento em Bateman. Compreendo o valor e a importância do livro - percebo como Bret Easton Ellis abriu caminho para, por exemplo, Chuck Palahniuk, que era o autor preferido dos meus 16 anos (lá está, teria apreciado esta obra muito mais por essa altura). Mas não consigo atribuir valor a um livro tão desprovido de significado, quando podia ter sido uma óptima sátira de uma sociedade, para ser apenas um conjunto de pornografia e terror.

2/5

Podem comprar uma outra edição aqui, ou em português aqui.

Comentários

  1. Ainda não o li, mas adorei o filme pelo Bale. Penso que explora muito bem a superficialidade de que falas.

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    1. nunca vi o filme, como digo acima, mas gosto muito do Christian Bale. conforme apurei, o filme é muito mais light que o livro... a superficialidade é a parte boa do livro, a violência é demasiada.

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  2. Olá!
    Ainda não vi o filme, mas gostava de ler o livro primeiro.
    Parecem ambos bons!
    Boas leituras

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  3. olá Isaura!
    continuo sem ter visto o filme, o livro é um bocado agressivo... não é mau, mas caiu-me mal, é mais isso :)
    boas leituras!

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