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Quincas Borba

O terceiro e quiçá último Machado de Assis do ano, desta feita um romance sobre sanidade, insanidade e um cão. Ao vencedor, as batatas!


Quincas Borba é o filósofo amigo de Memórias Póstumas de Brás Cubas; é também o nome que o filósofo atribuiu ao seu fiel cão. Quincas Borba,  cuja sanidade mental é debatível, agora rico, está no leito da morte; morrendo em casa de Brás Cubas, deixa todos os seus bens a Pedro Rubião, que esperava apenas receber uma lembrancinha. Rubião é seu discípulo, um antigo professor, irmão daquela que teria sido esposa de Quincas Borba, filósofo, caso tivesse sobrevivido. A condição desta fortuna é cuidar para sempre de Quincas Borba, cão.

Rubião não tem o maior amor do mundo ao cão, mas, de certa forma convencido que a alma do filósofo reside no seu homónimo canídeo, decide respeitar a vontade do seu falecido amigo.

E agora Rubião é rico, e com dinheiro vêm os amigos. Muda-se para o Rio de Janeiro, onde é uma presa fácil para todos os que se queiram aproveitar da sua fortuna. Introduzamos Cristiano Palha e a sua lindíssima esposa, Sofia. Sofia conquista imediatamente o coração de Rubião, e a carteira de Rubião conquista Cristiano. Os Palha fazem um amigo íntimo, que os enche de presentes - nomeadamente, jóias para Sofia. Sofia envia-lhe morangos. Rubião pensa na amoralidade de esperar a retribuição do seu amor - mas amor é amor, e Rubião declara-se a Sofia, propõe-lhe que olhem juntos para as estrelas.

"As estrelas são ainda menos lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que elas sejam; Deus, que as pôs tão alto, é porque não poderão ser vistas de perto, sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, não; estão aqui, ao pé de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o céu..." (...)
Tinha razão, deviam separar-se; só lhe pedia uma coisa, duas coisas: a primeira é que não esquecesse aqueles dez minutos sublimes; a segunda é que, todas as noites, às dez horas, fitasse o Cruzeiro, ele o fitaria também, e os pensamentos de ambos iriam achar-se ali juntos, íntimos, entre Deus e os homens.

Sofia, assustada, rejeita-o, conta ao marido, mas este deixa claro que não o podem enxotar da sua vida dadas as dívidas que Cristiano contraiu com Rubião. Entretanto, Palha abre um negócio com Rubião, que esbanja a sua fortuna em jantares de sociedade, prendas, maus investimentos e vai fazendo umas festinhas a Quincas Borba, cão, quando se lembra.

O nosso herói, entretanto, vai assumindo o seu lugar na sociedade, fazendo amigos (mais uma vez, sendo presa fácil, dado o seu dinheiro). Destes amigos, destaca-se Carlos Maria. Carlos Maria é o amigo interesseiro por excelência, arrogante, narcisista, elitista e sedutor. Também Carlos Maria se encanta por Sofia, porque a verdade é que Sofia sabe que é bonita e atraente e, de certa forma, faz por encantar os homens que a rodeiam. Sofia nunca retribui os sentimentos, como Rubião descobriu amargamente, mas gosta de manter os seus pretendentes por perto - mesmo por perto do marido. Nunca sabemos o que esperar de Sofia, que é imprevisível e, para o leitor, totalmente desconhecida. A diferença, neste caso, é que Sofia também se encanta por Carlos Maria, com quem valsa frequentemente - rivalizando com a sua prima do campo, Maria Benedita.

Sofia contribuía para esse estado; era tão diversa de si mesma, ora isto, ora aquilo, que os dias iam passando sem acordo fixo, nem desengano perpétuo.

Sai daqui uma série de ligações enciumadas: Rubião apercebe-se da paixão de Sofia por Carlos Maria, e esta, por sua vez, apercebe-se da paixão da prima pelo seu amado. A solução, aqui, passa por tentar casar Maria Benedita com Rubião, arranjando-lhe marido e afastando-o das suas pretensões ao coração de Sofia. Rubião, afogado no seu amor, ignora a ideia de ter uma vida conjugal normal com uma mulher que não Sofia, começa a enlouquecer, tem delírios de grandeza e começa lentamente a convencer-se que é Napoleão III.

Sim, Napoleão III. E, como imperador, ignora o cão e a casa, enquanto distribui títulos e grandezas e cargos políticos. Vê a Imperatriz Eugénia em Sofia. Palha dissolve a sociedade comercial que tinha com Napoleão, perdão, Rubião, pois era o dinheiro deste que sustentava o negócio. Entra D. Fernanda, prima de Carlos Maria, que consegue que Palha promova o internamento do nosso ensandecido amigo, acompanhado do seu cão, num hospício (esperemos que não fosse a casa verde). Coroando-se Napoleão III, fugindo para Barbacena, repetindo exaustivamente a máxima do seu mentor, "ao vencedor, as batatas", o futuro para Rubião não é animador.

D. Fernanda coçava a cabeça do animal. Era o primeiro afago depois de longos dias de solidão e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acariciá-lo, e levantou o corpo, ele ficou a olhar para ela, e ela para ele, tão fixos e tão profundos, que pareciam penetrar no íntimo um do outro. A simpatia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração humana diante daquela miséria obscura e prosaica, e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o fascinava, que o atava aos pés dela. Assim, a pena que lhe dava o delírio do senhor, dava-lhe agora o próprio cão, como se ambos representassem a mesma espécie. E sentindo que a sua presença levava ao animal uma sensação boa, não queria privá-lo de benefício.
- A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sofia.

Tiremos, aliás, um minuto para pensar: a vida de Rubião, após a morte de Quincas Borba, homem, não é animadora, e é quiçá pior que a de Quincas Borba, cão. Apesar de Rubião não dar total atenção ao seu amigo de quatro patas (excepto quando convencido da presença do seu amigo humano neste), a verdade é que Quincas Borba, cão, nunca duvida do amor que sente pelo seu dono, nem do amor do seu dono por si - já Rubião é rejeitado pelo objecto do seu amor, e a sua vida começa a deteriorar-se a partir daí. O sonho de amor romântico destrói-o, tira-lhe o dinheiro, deixa-o sozinho e louco e convencido que é Napoleão III, porque é assim que a mente dele o abstrai dos seus problemas.

Amor, amizade, sanidade mental e dinheiro tornam esta obra inegavelmente actual mais de 100 anos decorridos da sua publicação. E a eterna questão em torno do seu título continua por resolver: Quincas Borba, filósofo, ou cão?

4/5

Podem comprar esta edição aqui.

Maratona Literária de Verão 2017: 1076 pág.

Comentários

  1. Lembro-me que então me diverti muito com este livro e o das memórias póstumas, mas curiosamente já perdi muito das memórias deste livro, talvez porque divertem mais do que nos fazem refletir e eu retenha melhor os que me chocam e me fazem pensar.

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    1. Carlos, é verdade - são livros mais "de humor", apesar de tocarem em temas sérios, como saúde mental e a solidão a que muitas vezes nos remetemos, e apesar da crítica social neles presente. Do autor, talvez o que me ficará mais (pois ficou bastante presente nos últimos sete anos) seja "Dom Casmurro". A mim, ficam mais não só os que me fazem reflectir, mas os de impacto emocional pesado.

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  2. Adorei o post! Segui o teu blog, podes seguir o meu? :)

    https://aflormaria.blogspot.pt

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  3. Quando estava a ler e passei por 'fugindo para Barbacena' pareceu-me ler Barcarena o que seria incrível e legítimo

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    1. Hahaha quem nunca? :$ :p

      Ehhhh Barcarena :p vamos escrever esse livro! Mas não lhe podemos chamar "Última paragem Barcarena" :$

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  4. "- A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sofia."

    Ahahahahah

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  5. Parece interessante o livro Ba, clássico Machado de Assis de que tanto gostas :p

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    1. Sim, agora já li os três "grandes" do Machado de Assis, este, o Brás Cubas e o Dom Casmurro :p é um autor que vale muito a pena!

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  6. Nunca li nada do autor, mas tenho de ler brevemente! Talvez comece por Dom Casmurro ou por Memórias Póstumas de Brás Cubas :)
    Estas edições da Guerra & Paz são lindas!!

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    1. Daniela, o Dom Casmurro é dos meus livros preferidos. Tenho praí uma review do Memórias Póstumas, mas o Dom Casmurro, que li há anos, é um livro incrível mesmo.
      São muito bonitas sim :)

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