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L'Étranger

Aujourd'hui, maman est morte. Esta é, no fundo, a minha terceira leitura do livro: primeiro, em 2011, em inglês; já este ano, em português ; e foi agora a vez de ler o livro em francês, na adaptação para nona arte, da autoria de Jacques Ferrandez, livro que comprei em Paris . Da segunda vez que li O Estrangeiro , consegui gostar mais do que da primeira, da intencionalidade da indiferença de Mersault em todos os seus gestos. A história é já conhecida do público (suponho): começa com a morte de Mersault, uma espécie de inconveniência. Quando Marie menciona o casamento, Mersault aceita, porque não lhe faz diferença. Quando o seu patrão lhe sugere uma promoção e um cargo em Paris, ele diz que pode ser, mas não tem importância para ele. Comete um crime sem sentido, sem grande justificação ou motivação. A ideia recorrente é que, para Mersault, nada importa. Até que, sentado no seu julgamento, dá por si condenado à morte. E o pouco tempo que lhe resta, não o quer dedi...

Vozes de Chernobyl

Dei prioridade a este livro porque decidi que quero ver a série (ainda não vi). Svetlana Alexievich já estava na minha wishlist  há algum tempo, e aproveitei uma promoção na Feira do Livro de Lisboa para adquirir esta obra, que não relata os eventos de Chernobyl, mas sim reúne testemunhos daqueles que foram afectados pelo desastre: liquidadores, viúvas de liquidadores e bombeiros, aqueles que viviam na área e foram evacuados, aqueles que viviam na área e ficaram para trás, crianças nascidas antes e depois do desastre... A autora, jornalista, passou três anos a entrevistar várias pessoas que, de um modo ou de outro, tinham estado envolvidas em Chernobyl. As suas palavras são-nos apresentadas sem cortes, sem comentários por parte de Svetlana. É um livro devastador, mas também repleto de beleza. Através destas entrevistas orais (as "vozes" do título), tanto a pessoas comuns quanto a algumas pessoas que viram novas responsabilidades nas suas áreas (cientistas, políti...

The Awakening and Selected Stories of Kate Chopin

Um clássico feminista que aguardava na estante há mais anos do que tenho coragem de revelar. Tratando-se de uma edição combinada, romance e contos, decidi começar a minha leitura de Kate Chopin pelos contos. Começo, assim, por falar dos contos, destacando alguns. Estes contos são retratos de algumas das complexidades de ser mulher no Sul Norte-Americano no final do séc. XIX, incluindo as relações com os homens, como o amor romântico pode não correr da melhor maneira, ser incompreendido, não passar de um ideal. Aqui, os casamentos nunca são totalmente estáveis e podem mesmo ser vistos como uma prisão. Mães que se permitem a indulgência em si próprias, o egoísmo, mulheres que têm de confrontar o mundo, mulheres que acabam por descobrir algo sobre si mesmas. Todas estas mulheres procuram a sua felicidade, no fundo - e esta procura acaba por se prender com o racismo, inferioridade, sofrimento, independência, realização pessoal. Destaco três contos. Desiree's Baby  - um...

Um Beijo Dado Mais Tarde

Uma das leituras mais ansiadas - e mais estranhas. Queria ler Llansol desde que a descobrira, há não muito tempo - na Feira do Livro de Poesia de 2018 , muito por acaso. Ficou, então, a promessa (ainda por cumprir...) de visitar o Espaço Llansol, e uma enorme curiosidade acerca do trabalho da autora. Confesso que fui cativada por este título, mais do que uma recomendação concreta ou alguma noção de ser um bom sítio para começar a conhecer a obra de Maria Gabriela Llansol. De facto, e como o posfácio me deu a entender, possivelmente este não era o melhor ponto de partida. A título de referência, ficam as recomendações que o _marianomariano me deu, no Instagram, e que poderão ser melhores sítios para começar: - O Livro das Comunidades - Lisboaleipzig - Casa de julho e agosto - O começo de um livro é precioso (poesia) Este livro parece ter algo de autobiográfico, sem se conseguir perceber exactamente o quê; a escrita e a narrativa são confusas, dispersas, quase...

Un peu de Paris

Já tinha este livro em wishlist  há algum tempo quando finalmente o adquiri, na livraria L'Écume des Pages . Num momento de profunda nostalgia, finalmente agarrei neste livro de ilustrações. Sempé é mais conhecido por ilustrar Le Petit Nicolas  (obra que também adquiri em Paris e que, igualmente, ainda não li...). Este livro não tem texto: é um conjunto de desenhos e esboços de Paris, demonstrando a cultura da capital francesa. Cada peça é capaz de fazer esboçar um sorriso, mesmo para quem não tenha a maior familiaridade com a cultura em França. Sendo uma obra recente, pega também nos contrastes e "choques" tecnológicos perante o modo de vida mais tradicional. Temos baguetes debaixo do braço, inúmeras bicicletas, e cenários fáceis de reconhecer, desde a Tour Eiffel ao Café de Flore. Na grande maioria, estes desenhos são a preto e branco, capturando de forma magnífica os cinzentos desta cidade. A atenção ao detalhe - cada personagem é única, mesmo n...

A Little Princess

Livro perfeito para quem quiser uma leitura de conforto, um livro infantil fofinho. Sara Crewe não é uma princesa - Sara é a filha do Captain Crewe, um jovem viúvo, que a adora e a mima e, um dia, a leva da Índia para estudar em Londres, como todas as meninas de família, para quem a Índia não seria o lugar mais adequado ou saudável onde crescer. O Captain Crewe não se quer separar da sua pequena Sara, mas sabe que é para o bem dela. Miss Minchin, a professora da escola onde Sara é acolhida, não gosta dela, desde o início; mas, por ter apreço pelo dinheiro dos Crewe, aceita os luxos que o Captain Crewe deseja para a sua filha: as bonecas, as roupas excessivas, o conforto. Sara não é a menina mimada que poderia ser - Sara é gentil, generosa, calma, madura para a sua idade. Toda a gente gosta dela, e toda a gente gosta das histórias que Sara conta, da sua imaginação incrível. Sara trata toda a gente bem: desde as suas colegas mais mimadas e crianças, à empregada-quase-escrava ...

Giovanni's Room

Paris, 1950s. David é um norte-americano que vive em Paris e está à procura de si mesmo enquanto a sua namorada, Hella, decide se se quer casar com ele fazendo uma viagem solitária por Espanha. David está a ficar sem dinheiro - e o pai dele cortou os fundos, na esperança que ele volte para casa, pois considera que, com quase 30 anos, já não tem idade para esses devaneios. O conflito de David reside numa voz interna que não ouve, que tenta não ouvir - a voz que o corrói por dentro, que não o deixa aceitar quem realmente é, que o obriga a ceder à vida convencional e ao falso sentido de segurança: porque, em adolescente, se envolveu com Joey, o seu então melhor amigo. David conhece Giovanni, não por estar à procura de alguém, mas porque precisa de dinheiro e o pede a Jacques, um homem de negócios americano, mais velho, cujo preço é entretenimento, companhia, conversa, ou mais, dependendo do grau de desespero. Jacques sente-se atraído por Giovanni, um barman num bar gay de Paris...

Carrie

É a segunda vez que leio este livro (o primeiro livro publicado de Stephen King), tendo-me sido emprestado há anos. Lembro-me de ter visto o filme quando era ainda muito pequena, de a imagem de uma rapariga coberta de sangue no seu baile de finalistas me ter ficado na cabeça. Lembrava-me dos homicídios em massa que se seguiram. Não sou, na verdade, adepta de reler livros (tantos livros para ler, tão pouco tempo, etc), mas decidi dar a este essa chance - a verdade é que adoro o filme, que já tive oportunidade de rever. É uma história que faz parte da cultura popular, e há motivos para isso; a verdade é que há muito mais neste livro que não apenas o sangue de porco, os homicídios, a mãe fanática religiosa. O livro vale a pena mesmo já se sabendo o que se passa, até porque Stephen King introduz, no meio da narrativa, excertos de livros e artigos fictícios que tratam sobre o assunto: desde papers  sobre telecinese, a memórias e entrevistas de alguns alunos e cidadãos de Mai...

It Can't Happen Here

Apresento-vos a distopia mais assustadora que alguma vez li. Queria ler este livro há já vários anos: segundo o Goodreads, estava na minha wishlist desde 2012. Sinclair Lewis é um autor laureado com o prémio Nobel que possivelmente muita gente desconhece. Já tinha lido Main Street , do autor - um livro extremamente inspirador sobre small town America . Em It Can't Happen Here , escrito em 1935, um candidato populista, Buzz Windrip (este livro está repleto de nomes estranhos) é eleito presidente e rapidamente torna os EUA numa ditadura. Este livro tornou-se particularmente popular desde a eleição de Donald Trump, e pode-se facilmente compreender porquê. People will think they're electing him to create more economic security. Then watch the terror! God knows, there's been enough indication that we CAN have tyranny in America. It Can't Happen Here , como em, "não pode acontecer aqui". Como em, "isso só acontece aos outros". Nunca nos aconte...

Maratona Literária + Book Bingo

Findos os desafios, fica aqui o balanço final! Este não foi o verão mais recheado de leituras dos últimos anos. Entre algum excesso de trabalho, projectos pessoais, o desânimo do Le Rouge et le Noir (que ainda não acabei de ler), e outras questões afins, não terminei nenhum dos desafios que mencionei há alguns meses. Nunca foi o meu objectivo fazê-lo, acrescente-se. Acrescento também que há uma série de reviews  em atraso por estes lados, pelos motivos acima descritos, mas que lá chegaremos. Maratona Literária de Verão 2017 Desafios concluídos e contabilização das páginas: 1) Ler um livro noutra língua (inglês, francês, espanhol, italiano, etc.) El Túnel , de Ernesto Sabato, em espanhol. 160 páginas 2) Ler um livro de um autor português O que traz a noite , de Alexandre Costa. 128 páginas 4) Ler um livro infantil A Little Princess, the Frances Hodgson Burnett. 294 páginas 5) Ler um livro publicado em 2017 Ruínas , de Hugo Lourenço. 168 pá...

Viajante à Luz da Lua

Há livros que são um pouco como um sonho. Viajante à Luz da Lua , de Antal Szerb, é um clássico da literatura húngara. Tendo um desejo enorme de visitar Budapeste (quiçá 2018), o meu desejo de ler o fruto da literatura local foi grande também. Escrito nos anos 1930, por um autor que viria a morrer no Holocausto, não espelha muito do ambiente político, fora algumas menções a Mussolini - não, este livro vai mais longe. Imaginem Mihály, um homem húngaro na sua lua de mel a partir de Budapeste para percorrer Itália (aquela outra viagem de sonho).O casamento com Erszi foi precipitado - ela era casada e, no decorrer do seu caso, decidiu largar o marido para casar com Mihály. É a primeira vez que Mihály visita a Itália, e está fascinado, não pelo que o rodeia, mas pelo glorioso passado que o país representa. Porém, logo no início da lua de mel, vemos um marido com uma crise de identidade, com pressentimentos mórbidos acerca do seu futuro, ainda ligado à sua adolescência. E e...

King Lear

Li este livro com o objectivo de ir ver a encenação no CCB , há dias, emprestado pelo meu amor para esse propósito. O Rei Lear está velho, e pretende dividir o seu reino pelas suas três filhas. O critério? A resposta a um simples e surreal "o quanto gostam de mim?". Trocar terra por declarações de amor leva a um desencadear de eventos violentos e absurdos, naquela que é uma das tragédias mais conhecidas do autor. A ideia de dividir o território consoante o quanto as suas filhas declarem gostar dele torna Lear, de certa forma, repulsivo: egoísta, egocêntrico e, como veremos, irritável e precipitado. Goneril, a filha mais velha, lança elogios vãos; Regan segue o mesmo caminho. Cordelia vai pensando em como não sabe o que dizer. Após belas palavras, o pai deliciado, são as filhas mais velhas presenteadas com vastos territórios para governarem com os seus maridos. Sobra Cordelia. Cordelia, a filha mais nova, cuja sinceridade transparente provoca - tal como a lisonja vazi...