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Bisa Bia, Bisa Bel

O livro que mais me intrigava da Colecção Pererê da Tinta-da-China (só tenho os primeiros cinco volumes, a primeira colecção) era Bisa Bia, Bisa Bel , de Ana Maria Machado, por estar listado nos 1001 Children's Books You Must Read Before You Grow Up. Este livro, de leitura muito simples (li-o numa tarde) começa com Isabel, uma rapariga pré-adolescente que, enquanto a mãe faz limpezas na casa, descobre numa caixa um retrato da sua bisavó, Bia, que nunca chegara a conhecer. Este retrato exerce sobre Bel um fascínio quase infantil, e ela pede à mãe que lhe empreste o retrato, talvez para que possa conhecer melhor este membro da família que nunca antes tinha visto. A verdade é que, mais que um retrato, nesta jornada de descoberta, "Bisa Bia" começa a acompanhar Bel, a ser quase parte dela, enquanto Bel vai aprendendo mais da sua família, das gerações passadas, de costumes de outros tempos. O passar das décadas tem o seu peso, e Bel acha que algumas das ideias da bisavó não sã...

Pétalas

Pétalas é um livro mudo. Peguei nesta obra pela primeira vez numa edição anterior do Amadora BD ; voltei a pegar-lhe recentemente, por ser um livro curto e pela sua capa belíssima. Pela dimensão, é dificílimo falar do enredo sem revelar informação fundamental para o desfecho (ou mesmo toda a narrativa); no entanto, adianto que a mensagem é de generosidade, conforto, altruísmo e sacrifício. É inverno, e uma pequena raposa procura lenha para se aquecer e ao seu pai doente. No caminho, e no meio da neve, encontra um pássaro pernalta elegantemente vestido, que lhe estende a mão e o acompanha no rigoroso inverno, trazendo alegria à sua casa. As ilustrações de Gustavo Borges são belíssimas, o que é fundamental num livro que não depende de palavras (fora algumas, poucas onomatopeias). As cores escolhidas por Cris Peter para enriquecer esta história são muito bonitas e impressionantes. 5/5 Podem comprar esta edição  directamente à editora .

Um castelo em Ipanema

Queria há já algum tempo ler Martha Batalha e comecei por este por ter a ideia que A Vida Invisível de Eurídice Gusmão  é melhor. Um castelo em Ipanema  tem, no Brasil, o título de Nunca houve um castelo  (frase que é proferida mais para o final do livro). Já dizia Tolstoy que as famílias infelizes têm todas histórias diferentes - aqui, seguimos três gerações infelizes da família Jansson, começando com Johan Edward Jansson, ainda na Suécia, que emigra para o Brasil, no papel de cônsul, com a sua esposa, Brigitta, de modo a fugir das vozes que esta ouve (tentando despistá-las pelo caminho transatlântico). Em Ipanema, zona ainda em construção e deserta, constroem um castelo para a sua família, dando início à urbanização do local. Uma pequena ressalva - houve efectivamente um cônsul sueco chamado Johan Edward Jansson , que construiu um pequeno castelo em Ipanema . A existência deste castelo, que veio a ser demolido nos anos 60, aparentemente desconhecida por muitos, tem...

Coração de Vidro

 A vontade de reler e regressar a José Mauro de Vasconcelos era muita. E, antes de reler Meu Pé de Laranja Lima  (releitura que quero mesmo fazer - li o livro repetidamente no início dos anos 2000 e quero muito ver como a história se aguenta face ao meu envelhecimento) ou pegar na edição antiga que herdei de Rosinha minha canoa , calhou ler esta nova edição de Coração de Vidro  (por ser muito mais curta e eu estar à procura de uma pequena pausa na minha leitura de não-ficção actual). Não sabia o tema da obra, sabia apenas tratar-se de contos. É um belo conjunto de quatro pequenos contos sobre seres vivos não humanos - um pássaro, um peixe, um cavalo, uma árvore - cujas histórias têm como factores comuns o espaço físico em que decorrem, numa fazenda, e o papel da intervenção humana nas suas vidas. Baixou os olhos. Não chorou nem explicou mais nada. Que tristeza (agora começava a descobrir) as pessoas terem de crescer e perder o coração... Que tristeza dolorida as pessoas g...

Dois Irmãos (novela gráfica)

Milton Hatoum é um nome que eu já tinha na ideia antes de surgir a oportunidade de ler esta adaptação magnífica. Fábio Moon e Gabriel Bá são também nomes que já me eram familiares, e com os quais tinha a experiência não de Daytripper  (que tenho na estante, à minha espera, de forma quase criminosa), mas de Como Falar com Raparigas em Festas , também uma adaptação, nesse caso, de um conto. Não conhecia a narrativa a que ia - e não desiludiu. Dois Irmãos  trata de uma saga familiar no início e metade do século XX, em Manaus, no Noroeste brasileiro, à margem do Amazonas. Uma terra do interior, portanto. A narrativa centra-se em dois irmãos, gémeos, Omar e Yaqub, filhos de dois descendentes de libaneses, Halim e Zana. Cruzamo-nos, no prefácio da obra, com Zana, desolada - e sabemos, logo ao início, que houvera um conflito entre os dois irmãos que dão título ao livro. Ao longo da obra, com algumas quebras cronológicas, sabemos como Halim conheceu e cortejou Z...

A morte e a morte de Quincas Berro d'Água

As imensas saudades que tinha de ler Jorge Amado. A morte e a morte de Quincas Berro d'Água destaca-se pela sua diminuta dimensão: tem menos de 100 páginas. E é nessas menos de 100 páginas que se vê o génio de Jorge Amado, porque contêm a energia, excitação e toda a magia que muitas outras estantes repletas de livros não conseguem alcançar. A narrativa é simples: Joaquim Soares da Cunha, em tempos homem de família, funcionário público, na última década da sua vida decidira chamar jararacas à mulher e à filha, fugir da vida respeitável, mudar de nome, abandonar a família, tornar-se "rei da gafieira", "patriarca da zona do baixo meretrício", viver na pobreza. Logo no início do livro, e como indica o título, de certa forma, é encontrado morto. Morte natural, sorriso na cara. A filha, Vanda, e o genro, Leonardo, aparecem de imediato, com intenções de rezar pelo falecido e dar-lhe um funeral respeitável, embora discreto, pois já tinham dito a toda a ...

O Martelo

Cheguei a esta obra sem saber ao que ia. Foi-me indicado O Martelo  como a sequência lógica por ter gostado de Um útero é do tamanho de um punho , de Angélica Freitas ; também me foi dito, pela Gabriela, que estava na Feira do Livro de Poesia e mo recomendou, que a presença da autora, Adelaide Ivánova, no Instagram, era forte. Comprei o livro, segui a autora e dirigi-me a um café, para começar a ler. É poesia - e vocês já saberão a minha relação complicada com o género. O Martelo  é um livro sobre sexualidade feminina e violência (violência sexual incluída), narrado por uma voz feminina anónima. O livro está dividido em duas partes, inspirado, segundo a própria autora, no primeiro Imperador Romano Cristão (Constantino), que estabelecera que a violação e o adultério eram ambos crimes semelhantes, cometidos pela mulher. Sim, precisamente. É um livro violento, é certo, mas é um livro que mostra que a autora não tem receio em se exprimir. E a violência nun...

A Disciplina do Amor

A minha vontade de ler Lygia Fagundes Telles era já antiga. No entanto, aparentemente, a autora encontra-se maioritariamente esgotada , tendo a sua obra sido editada pela Presença. Assim, ao encontrar um dos seus livros na Dejà Lu , a hesitação em trazê-lo comigo foi pouca (e deveu-se ao facto de eu já ter dois livros na mão). Mesmo sem saber nada sobre o livro - e sem ser um dos "principais" na minha wishlist (a saber: As Meninas, ou Ciranda de Pedra). Esta obra, de 1980, surge, aliás, quando Lygia Fagundes Telles era já conhecida pelos seus romances - mas é uma obra de ficção curta, ou, aliás, uma obra que derruba barreiras entre ficção e realidade, ao juntar ao conto o relato autobiográfico e a memória. O livro abre com Os Gatos, um texto sobre, bem, gatos - e sobre Iracema, a gata (ou gato - nunca descobrimos) que surge na vida da narradora, e cujo nome se deve ao facto de ela, no momento, estar a ler e a estudar o romance de José de Alencar. Como se de uma...

Farda Fardão Camisola de Dormir

Já tinha saudades de ler Jorge Amado. Já saberão, decerto, que adoro Jorge Amado, que é um autor que há mais de 15 anos que não falha em me dar gozo ler. Comprei este livro na Feira do Livro de 2017 , não imensamente planeado, mas com receio de que viesse a esgotar, como esgotou a edição da Dom Quixote d' Os Subterrâneos da Liberdade .  Tive já o privilégio de ler alguns livros do autor; este foi o meu oitavo livro, se não estou em erro. E Jorge Amado não perde a magia. Esta obra é mais política que algumas - se Tieta ou Gabriela são fundamentalmente sociais, Capitães da Areia , ou Farda Fardão Camisola de Dormir têm uma índole mais política e moral. Mas político não significa aborrecido (ou vejam o meu amor por Afirma Pereira ). Anos 40. Com a morte súbita do poeta romântico Antônio Bruno, poeta da liberdade e do amor, membro da Academia Brasileira de Letras, surgem as eleições para nomear o seu sucessor. Reparemos desde já na data: anos 40, Segunda Guerra ...

Guadalupe

Livro que me tinha despertado imensa curiosidade quando o vi na Kingpin Books . O motivo principal era, confesso, a minha leitura de Angélica Freitas há não muito tempo - e querer saber como era o registo "novela gráfica", sabendo já como era o registo poesia . Aqui, o texto é de Angélica, e as imagens de Odyr, seu conterrâneo. Guadalupe é um livro com personagens únicas, sem dúvida: Elvira, a avó motoqueira; Minerva, o tio transformista; e Guadalupe, que dá o nome à obra, uma rapariga prestes a fazer 30 anos, que trabalha com Minerva numa loja alfarrabista e que só quer fugir da sua vida. A narrativa passa-se na Cidade do México; Elvira revela à sua neta que quer ser enterrada em Oaxaca, sua terra natal, e que quer que seja alguém chamado Juana a tratar do funeral e da música fúnebre. Com a sua morte inesperada, começa uma "roadtrip fantástica": é Guada quem conduz o camião da livraria, logo, é ela quem pode levar o caixão para cumprir o último des...

Um Útero é do Tamanho de um Punho

Livro para o qual estava super entusiasmada. Lembram-se? Já aqui referi várias vezes a minha enorme dificuldade a ler e comentar poesia. Este post  não será a excepção. Angélica Freitas escreve, para este volume, 35 poemas sobre mulheres, tentando definir mulheres, por vezes tentando-se definir a ela própria, no meio de uma visão cultural e identitária, crítica e humorística. Ou seja, não é mais um livro sobre ser mulher, ou condição feminina; é um livro que pega na perspectiva. Pega nos assuntos mais banais, nos maiores clichés, de um novo ponto de vista, sem autodepreciação ou pena de si mesma por ser mulher. queridos pai e mãe tô escrevendo da tailândia é um país fascinante tem até elefante e umas praias bem bacanas mas tô aqui por outras coisas embora adore fazer turismo pai, lembra quando você dizia que eu parecia uma guria e a mãe pedia: deixem disso? pois agora eu virei mulher me operei e virei mulher não precisa me aceitar não pre...