Avançar para o conteúdo principal

It Can't Happen Here

Apresento-vos a distopia mais assustadora que alguma vez li.


Queria ler este livro há já vários anos: segundo o Goodreads, estava na minha wishlist desde 2012. Sinclair Lewis é um autor laureado com o prémio Nobel que possivelmente muita gente desconhece. Já tinha lido Main Street, do autor - um livro extremamente inspirador sobre small town America. Em It Can't Happen Here, escrito em 1935, um candidato populista, Buzz Windrip (este livro está repleto de nomes estranhos) é eleito presidente e rapidamente torna os EUA numa ditadura. Este livro tornou-se particularmente popular desde a eleição de Donald Trump, e pode-se facilmente compreender porquê.

People will think they're electing him to create more economic security. Then watch the terror! God knows, there's been enough indication that we CAN have tyranny in America.

It Can't Happen Here, como em, "não pode acontecer aqui". Como em, "isso só acontece aos outros". Nunca nos acontece a nós, não é verdade?

Aliás, rectifico: o mais assustador é que este livro é classificado como uma sátira, não como uma distopia. Porque, lá está: a ideia de distopia prende-se com a sociedade imaginada; aqui, somos confrontados com algo que poderia muito facilmente acontecer.

Relevante, desde já: Sinclair Lewis escreveu esta obra pouco depois da subida ao poder de Hitler, pela altura em que criou a Wehrmacht, violando o Tratado de Versailles; as suas previsões sobre um despotismo norte-americano foram semelhantes ao que se veio a passar na Alemanha Nazi. No entanto, a base para este livro terá sido o candidato democrata Huey Long, assassinado antes das eleições de 1936.

Certainly there was nothing exhilarating in the actual words of his speeches, nor anything convincing in his philosophy. His political platforms were only wings of a windmill.

Buzz Windrip escreve um livro, chamado Zero Hour, no qual promete melhorar os Estados Unidos. Na sua campanha, com os seus Quinze Pontos (The Fifteen Points of Victory for the Forgotten Men), promete um tecto aos salários anuais, declara socialismo e comunismo traição, promete $5000 anuais a cada “verdadeiro” (pela sua definição) cidadão americano. Promete também tirar os direitos civis aos judeus, negros e mulheres (estas só poderão trabalhar em empregos considerados “femininos”, como salões de beleza ou enfermagem), e declarar o cristianismo como única religião viável. Mas contei-vos como prometeu dinheiro? Lembrem-se que isto foi relativamente pouco tempo depois da crise de 1929. Claro que esmaga a candidatura de Franklin D Roosevelt pelos Democratas, e claro que nas presidenciais esmaga o Partido Republicano.

The conspicuous fault of the Jeffersonian Party, like the personal fault of Senator Trowbridge, was that it represented integrity and reason, in a year when the electorate hungered for frisky emotions, for the peppery sensations associated, usually, not with monetary systems and taxation rates but with baptism by immersion in the creek, straight whisky, angelic orchestras heard soaring down from the full moon, fear of death when an automobile teeters above a canyon, thirst in a desert and quenching it with spring water - all the primitive sensations which they thought they found in the screaming of Buzz Windrip.

Entretanto, apresento-vos Doremus Jessup. Doremus é o protagonista deste livro, um jornalista sexagenário que vive em Fort Beulah, Vermont, que passa de “it can’t happen here” para “aconteceu”. Doremus têm uma filha de 18 anos, Sissy, que sonhava ser arquitecta. Doremus tinha o seu próprio jornal, e era livre – representa os media liberais. Doremus teme a eleição vindoura, e não acredita que possa acontecer. E Doremus vê o que acontece à medida que o populismo ignorante toma conta da política do seu país.

E, pelos olhos de Doremus, vemos também o que acontece: a instituição de uma polícia militarizada tipo Gestapo (os “Minute Men”, com o seu uniforme antiquado e patriótico), homicídios em massa, terror sobre a população educada ou que possa demonstrar qualquer tipo de dissidência quanto à administração. É, simplesmente, aterrador: há um novo balanço de poder, e há ataques constantes à liberdade de expressão, à academia, ao sistema jurídico – à liberdade geral, no fundo.

Shad Ledue é um dos que espera lucrar com as promessas de prosperidade de Windrip. Shad, classe trabalhadora pobre, é a verdadeira definição de manhoso, e aproveita-se das possibilidades que lhe são dadas por este regime para subir no poder e se colocar acima de Doremus, para quem trabalhava antes, e que sentia que não o respeitava. Shad Ledue, "the kind of vindictive peasant who sets fire to barns", tem como principal objectivo a vingança.

Doremus e a sua família tentam lutar contra Windrip, tentam resistir, e perdem rapidamente a luta – é difícil de acreditar que um homem assim seria eleito, mas aconteceu. E mal chega ao poder, vira os seus militares, governo e media contra aqueles que o elegeram com base nas suas falsas promessas.

More and more, as I think about history, I am convinced that everything that it is worth while in the world has been accomplished by the free, inquiring critical spirit, and that the preservation of this spirit is more important than any social system whatsoever. But the men of ritual and barbarism are capable of shutting up the men of science and silencing them forever.

Rapidamente surgem queimas de livros, campos de concentração, controlo total da imprensa.

Doremus Jessup tem a escolha de se resignar, ou de se insurgir contra o que se passa. Decide publicar um editorial derrogatório sobre o governo, é preso, levado a um falso tribunal. O seu genro tenta protestar e não corre bem (primeiro grande nó no estômago deste livro). Jessup é libertado sob a condição de deixar o Corpos (como são conhecidos os apoiantes do governo) apoderar-se do seu jornal.

Doremus não aceita esta humilhação durante muito tempo, tem de agir: desde jornais reaccionários (“Vermont Vigilance”) a tentativas de fuga para o Canadá, tudo coisas que o podem levar para um campo de concentração.

It seemed worse than futile, it seemed insane, to risk martyrdom in a world where Fascists persecuted Communists, Communists persecuted Social-Democrats, Social-Democrats persecuted everybody who would stand for it; where "Aryans" who looked like Jews persecuted Jews who looked like Aryans and Jews persecuted their debtors; where every statesman and clergyman praised Peace and brightly asserted that the only way to get Peace was to get ready for War.
What conceivable reason could one have for seeking after righteousness in a world which so hated righteousness? Why do anything except eat and read and make love and provide for sleep that should be secure against disturbance by armed policemen?
He never did find any particularly good reason. He simply went on.

Era capaz de falar sobre este livro durante horas, mas não o vou fazer, porque merece ser lido. A certa altura, os Estados Unidos declaram guerra contra o México, por motivo nenhum, por considerarem os mexicanos inferiores ou algo assim. O livro começa com a subida ao poder de um demagogo racista e sexista, mas continua pelas consequências de ter um presidente assim para os trabalhadores comuns, para os cidadãos outrora intocáveis, e para aqueles que, tendo recentemente adquirido um cargo de poder, são agora os novos intocáveis. Ninguém está seguro neste novo regime.

Temo não estar a atribuir a este livro o lado humano que ele tem. Tal como 1984 tem Winston Smith e Julia, aqui temos Doremus Jessup e toda a sua família, definitivamente centrais no livro - e diria mesmo mais reais e humanos que Winston.

He was afraid that the world struggle today was not of Communism against Fascism, but of tolerance against the bigotry that was preached equally by Communism and Fascism. 

Relembro que o livro é classificado como sátira. Não era suposto uma sátira ter piada? Porque este livro não tem. Começa por ter, mas torna-se numa história de terror, aos poucos, quando vemos a sociedade virar-se contra Jessup, contra pessoas inocentes, contra aqueles que podiam ser qualquer um de nós. Eu não costumo ler livros de terror (review do Stephen King a caminho). Este é um livro de terror. Tive reacções físicas ao ler este livro, senti desespero, senti nojo, senti vontade de chorar.
Senti nós no estômago, medo real. É assustador pensar como um país pode passar da democracia à ditadura numa questão de dias.

O consolo é que o livro, não tendo um final feliz, acaba numa nota mais ou menos positiva (e sem detalhes horríveis de tortura), embora inconclusiva. É um apelo à força, à resistência à tirania. Estas histórias existem porque o fascismo existe, porque é possível.

And still Doremus goes on in the red sunrise, for a Doremus Jessup can never die.

5/5

Podem comprar esta edição aqui e, para ler em português, podem apoiar o projecto da E-Primatur aqui.

Maratona Literária de Verão 2017: 2543 pág.

Comentários

  1. Uau, excelente review, deve ser um livro super interessante
    Emprestas? :p

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Empresto pois :D mais que interessante, é assustador e real :$

      Eliminar
  2. Não conhecia, mas definitivamente vou querer ler agora, depois desta tua opinião!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fico feliz, Sara! O livro é excelente e merece ser lido. Se quiseres ler em português, a E-primatur está a trabalhar na sua tradução :)

      Eliminar
  3. Não sou de ler distopias, nem terror...acho que não é para mim. Mas ainda bem que gostaste :)
    beijinhos e boas leituras

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Percebo, Isaura - também não sou fã das distopias em geral, mas as clássicas, políticas, como o 1984, gosto de ler, sem dúvida. São aterradoras pelas suas possibilidades de real :)
      Beijinhos, boas leituras!

      Eliminar
  4. Já tinha ouvido falar do autor mas não sabia muito bem por onde começar. Este parece-me extremamente interessante e a edição é linda. Já entrou para a minha wishlist de Natal :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Catarina, recomendo este e o Main Street - são ambos excelentes, cada um à sua maneira :) fico feliz por ter tido esta influência :D a capa é bem bonita sim! Que o Natal to traga :)

      Eliminar
  5. Parece um livro muito interessante, mesmo que seja um pouco diferente do que estou habituada a ler. Beijinhos*

    PS: Parabéns pelo blog, ganhaste uma nova seguidora :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Oh, muito obrigada :D é talvez um pouco diferente, distópico mas muito realista! Eu gostei muito :)

      Eliminar

Publicar um comentário