Avançar para o conteúdo principal

Viajante à Luz da Lua

Há livros que são um pouco como um sonho.


Viajante à Luz da Lua, de Antal Szerb, é um clássico da literatura húngara. Tendo um desejo enorme de visitar Budapeste (quiçá 2018), o meu desejo de ler o fruto da literatura local foi grande também. Escrito nos anos 1930, por um autor que viria a morrer no Holocausto, não espelha muito do ambiente político, fora algumas menções a Mussolini - não, este livro vai mais longe.

Imaginem Mihály, um homem húngaro na sua lua de mel a partir de Budapeste para percorrer Itália (aquela outra viagem de sonho).O casamento com Erszi foi precipitado - ela era casada e, no decorrer do seu caso, decidiu largar o marido para casar com Mihály.

É a primeira vez que Mihály visita a Itália, e está fascinado, não pelo que o rodeia, mas pelo glorioso passado que o país representa. Porém, logo no início da lua de mel, vemos um marido com uma crise de identidade, com pressentimentos mórbidos acerca do seu futuro, ainda ligado à sua adolescência. E esta encontra-o, em Itália, sob a figura do seu antigo amigo János Szepetneki, logo quando decidira ter uma vida convencional de classe média. Tal como com Itália, é também o passado de Mihály que o prende, que o fascina. E quando, após este encontro perturbador, Erszi pede a Mihály que lhe conte mais da sua vida, este revela memórias e detalhes ambíguos e soltos sobre a sua relação com Tamás e Éva Ulpius, irmãos de quem fora amigo na adolescência, Ervin, um judeu que se convertera ao cristianismo, e János. E sobre a forma como os irmãos adolescentes lhe tinham mostrado o desejo pela morte.

Éva gostava de ser a mulher que enganava, traía e matava os homens. Tamás e eu gostávamos de ser os homens enganados, traídos, mortos e humilhados...

Há que esclarecer aqui uma coisa: Tamás e Éva eram jovens muito fora do vulgar, o tipo de pessoa que parece pensar que não pertence ao mundo; e Mihály, encantado e fascinado por eles, adoptou esse tipo de pensamento. Com eles, jogava jogos que muitas vezes punha em perigo as suas vidas, nesses jogos queria morrer por Éva. No entanto, e percebemos isto ao longo da narrativa, Mihály é absolutamente banal, a tentar racionalizar os seus dramas interiores e a julgar as pessoas que o rodeiam - incluindo a sua esposa.

Nem consegues imaginar até que ponto eram pessoas irreais, aborrecendo-se com qualquer manifestação da realidade prática. (...) 
Aqueles foram os anos mais felizes da minha vida e se, às vezes, um cheiro ou uma luz me faz recordá-los, consigo sentir aquela felicidade excitante, embriagadora e distante, a única felicidade que conheço.
Naturalmente, aquela felicidade não foi uma dádiva sem custos. Para me sentir bem na casa dos Ulpius, tive de me desligar do mundo dos factos. Fui obrigado a escolher entre uma coisa ou outra: não podia viver, ao mesmo tempo, em dois mundos.

É por esta altura que Mihály recebe uma carta amigável do ex-marido de Erszi, Zoltán Pataki, e apercebe-se de que nunca será o marido ideal para ela - e que nunca tinha sido feito para a vida conjugal. Mihály sai de um comboio para ir beber um café e apanha o comboio errado - apanha o comboio errado e abandona a esposa. Parece quase um acidente, mas percebemos que não é; não faz nada para se reencontrar com Erszi - em vez disso, passa grande parte do resto do livro sozinho, a visitar sítios vários em Itália, acabando em Roma. A viagem à luz da lua dura não uma noite, mas meses. 

Ao sair do comboio, Mihály sai também do seu casamento e, de certa forma, do mundo a que se prende. É a sua oportunidade de escapar à vida burguesa para a qual cria não ser feito, uma maneira de regressar à sua juventude boémia e errática com os seus antigos amigos, que desesperadamente se esforçara por deixar para trás, sem sucesso. Nesta viagem de auto-descoberta, vai atrás do seu passado  (numa viagem, esta física, por Itália)- vai atrás de Éva, em particular, mas não o sabe. Acompanhamos um homem que se revolta contra a sua vida básica e medíocre, mas que não sabe aquilo que persegue e o que o levou a abandonar tudo. E se Mihály não se esforça por se reunir com a sua esposa, a verdade é que esta também não se move nesse sentido. Também ela tem uma viagem sua, para decidir o que quer fazer da sua vida.

Sabia também que não regressaria a casa. Mesmo que tivesse de carregar sacos e esperar por ela durante cinquenta anos. Agora, por fim, tinha encontrado um lugar no mundo onde havia razão para estar, um lugar com sentido.

Mas este está longe de ser um livro deprimente. Toca em temas como o amor, a vida, a morte e o suicídio, e a derrota pessoal de Mihály; tem um toque de tragédia latente; mas não cai no precipício da tragédia, não é um livro deprimente ou niilista. A atmosfera é de sonho, porque Mihály é um sonhador, distraído, que deu por si a trabalhar no negócio da família, numa vida banal, entediante, respeitável, que vai contra tudo aquilo em que acreditara nos anos da sua adolescência. E ler este livro é, como disse acima, quase como estar num sonho.

 - Diz-me, por favor.
 - Éva, é que estejas ao meu lado quando morrer... como quando estiveste ao lado de Tamás.

É um livro misterioso, inclassificável, subtil e imprevisível. Perdemo-nos nas vielas de Veneza, na Toscânia e na Úmbria, na cultura italiana, na noite e na luz da lua. É impossível ler este livro sem o ver, sem imaginar o cenário de um filme. Mihály tem uma atracção pela morte mórbida, magnética, e a narrativa parece quebrar quaisquer laços com o mundano, com a realidade. E, no entanto, é uma simples história de nostalgia pela juventude, pelo amor perdido.

4/5

Podem comprar esta edição aqui.

Maratona Literária de Verão 2017: 2162 pág.

Comentários

  1. Gostei muito do post mas tenho uma questão :p
    “E se Mihály não se esforça por se reunir com a sua esposa, a verdade é que esta também não se move nesse sentido. Também ela tem uma viagem sua, para decidir o que quer fazer da sua vida.”
    Mas como saberia ela como o encontrar? Se calhar voltou àquela estação e tudo mas não o encontrou e procurou por todo o lado

    Será que vais a Budapeste em 2018? :p

    “Aqueles foram os anos mais felizes da minha vida e se, às vezes, um cheiro ou uma luz me faz recordá-los, consigo sentir aquela felicidade excitante, embriagadora e distante, a única felicidade que conheço.”
    Gosto como fazes para que cheire altos risquinhos mas não é preciso Ba, não preciso de recordar o quão feliz sou contigo, simplesmente o sei e o sinto :p

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Metendo anúncios, contactando a polícia, coisas assim :$ que ela no início fez, mas rapidamente desistiu! Continuou a viagem até ao fim mesmo quando o marido não voltou para o comboio :o

      Será que vamos? :p

      :$$$$$ sou tão feliz contigo, sabes bem que não sou eu que faço, lembra-te de Londres :p

      Eliminar
    2. Ahah és tão fofinha :p não sei não seeei, iremos descobrir :p
      Também temos de fazer alta viagem de comboio, mas sempre juntos :p

      Eliminar
    3. Transsiberiano, ou transitaliano como neste livro? :p

      Eliminar
  2. Olá Bárbara,
    Li este livro há algum tempo e gostei bastante. Fiquei ainda mais encantada e ansiosa para ir a Budapeste :)
    Beijinhos e boas leituras

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Isaura, acho que foi precisamente pela tua review que fiquei mais entusiasmada com este livro! Uma atmosfera encantadora e de sonho, sem dúvida :)
      Beijinhos, boas leituras!

      Eliminar
  3. Fiquei interessada em ler este livro, quando passar por ele na biblioteca vem comigo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. o livro tem uma aura misteriosa e de sonho, acredito que vás gostar :)

      Eliminar

Publicar um comentário