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O Baile

Mais uma para a onda de novelas gráficas que este blog atravessa.


O meu companheiro comprou este livro no Contacto, em Abril, tendo-nos sido recomendado não só pelos senhores da Legendary Books, como pelos prémios que terá recebido. A ideia por trás é também bastante interessante: zombies e Estado Novo. E como combinar os dois?

1967, o Papa vem a Portugal. Assim, torna-se necessário "tomar medidas para que a visita seja exemplar e sem incidentes. Parte dessa iniciativa passa por calar e desmistificar rumores de actividades pagãs e sobrenaturais em vários pontos do país...". Assim, Rui Brás, inspector da PIDE, é enviado a uma vila costeira para investigar "histórias de gaiatos" que reportam a existência de zombies no local.

Nesta aldeia, nada é o que parece - o povo da aldeia é frequentemente atacado por um exército de zombies vindos do mar, que levam outros com eles. A culpa é atribuída a uma mulher (claro!), que canta à lua pelo seu amor perdido e que toda a aldeia ostraciza. O ambiente de aldeia é, aliás, extremamente bem caracterizado - fora a referência talvez bizarra a Sidónio Pais (mas também há hoje quem mencione Salazar), o contágio dos comportamentos de grupo, a forma como toda a gente aceita a acusação daquela mulher sem se questionar ou a tentar compreender é extremamente real em comunidades pequenas.

Assim, Rui Brás tem de enfrentar não só o conflito da aldeia, mas o seu próprio conflito interno, a missão que tem e o trabalho que faz e a forma como estes influenciam a sua vida.

 

À primeira vista, pode parecer uma história de zombies normal, arraçada de cinema norte-americano, mas a forma como este conjuga as dúvidas pessoais do inspector da PIDE e o ambiente da aldeia, esquecida à beira-mar, torna o enredo muito português. 

A ideia é muito boa, mas a concretização não foi talvez a melhor. Havia transições estranhas, que me levaram a pensar que podia ter saltado páginas e me tivesse escapado algo (não foi o caso); a história é muito curta, sendo pena não ter sido mais desenvolvida, nem ter deixado realmente espaço ao suspense antes da revelação final ou do clímax. O livro devia ser maior, simplesmente.

Soube a pouco.

O livro destaca-se, ainda assim, por dois motivos: um deles é o facto de pegar numa época da História portuguesa que, tanto quanto percebo, não foi ainda particularmente explorada na nossa literatura; o outro, é a coragem de pegar num inspector da PIDE e torná-lo num herói. É difícil sentir simpatia por um inspector da PIDE, tantos anos corridos do 25 de Abril, e tendo informação suficiente para saber o papel da autoridade na repressão vivida no país.

3,5/5

Podem comprar esta edição aqui.

Comentários

  1. Oláaaaaaaaaa!
    Que BD tão fofaaaaaa! Amei! Obrigada pela partilha 💟😱💖
    Beijokitaz



    Www.devaneiosdemissl.com

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    1. "Fofa" é uma palavra estranha para um livro sobre hordes de zombies e tortura da PIDE :p

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  2. Resume-se a isso, "Sabe a pouco". Tinha potencial para mais. Um dia chegaremos lá. =)

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    1. Um dia! A ideia era muito boa, mas houve momentos com transições tão rápidas que temi ter saltado páginas :)

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  3. Gostei muito do teu post, o livro tem realmente muitas ideias diferentes e boas mas sabe mesmo a pouco, devia ser maior

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    1. É verdade! :( obrigada por mo teres emprestado :p

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  4. Quero muito começar a aventurar-me por novelas gráficas! Quais é que aconselhas? Fiquei curiosa, pois parece ser um enredo muito português, de facto.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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    1. Cherry, não serei a melhor pessoa para dar esta resposta! Mas a primeira que li foi Maus, de Art Spiegelman, e gostei muito. Também li o livro da Allie Brosch (adorava o blog dela), alguns Astérix, e mais recentemente li este, o "Como falar com raparigas em festas" do Gaiman, "No caderno da Tangerina", "Sintra" (os dois últimos da editora escorpião azul) eeee até ver é tudo :) as colecções do Levoir com o Público parecem estar muito bem curadas! Espero daqui a uns tempos ser melhor para responder a esta pergunta :) há muita coisa a acontecer em Portugal também!

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  5. Gostei muito de ler a tua opinião e, tendo eu uma grande afinidade com quem editou o livro, ainda mais curiosa fiquei por saber o que outras pessoas achavam, porque não costumo ver ninguém a falar de banda-desenhada portuguesa.

    Obrigada pela partilha :)

    http://badwolftale.blogspot.com/

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    1. Sandra, conheço muito pouco de BD portuguesa mas quero conhecer mais e mais :) tenho para breve uma opinião de uma outra obra - mas de outra editora. Se tiveres recomendações, por favor partilha comigo!

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