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O Senhor Ibrahim e as flores do Alcorão

A minha segunda incursão pela obra de Eric-Emmanuel Schmitt, depois de Milarepa.


Moisés é um menino judeu que vive com o pai, incapaz de demonstrar qualquer tipo de afecto por ele. A mãe dele abandonou-os, diz o pai - levando com ela Popol, o irmão mais velho de Moisés, que o pai adorava. São os anos 60, é Paris e vivem com pouco dinheiro. É Moisés quem faz as contas à casa e vai roubando qualquer coisa na loja do Senhor Ibrahim, velho árabe que dá o título ao livro.

Quando fiz onze anos parti o meu mealheiro e fui às putas.

O Senhor Ibrahim é o único árabe no meio dos judeus da Rue Bleue e da Rue de Paradis. E claro que sabe dos pequenos furtos, mas não diz nada; sorri sempre, apenas. E é com a ajuda de Brigitte Bardot que começam a falar, e surge uma grande amizade entre Moisés e Ibrahim. Moisés precisava de um pai, de uma figura parental, no fundo, de alguém que fosse presente e o orientasse na vida - e Ibrahim, velho e sem filhos, vivia sozinho com os ensinamentos do Corão.

É um livro muito curto, e é um livro muito positivo - as personagens usam a religião enquanto fonte de união e não de separação (não obstante as conhecidas e fortes rivalidades entre as religiões abraâmicas). A religião supostamente é isso. Odeio propaganda religiosa, mas aprecio livros que toquem na temática - o Brideshead Revisited, por exemplo. Mas os ideais de Ibrahim eram mais senso comum do que propriamente religiosos, portanto aqui, para mim, o livro funcionou.

 - E ser judeu não tem nada que ver com Deus?
 - Para mim, não. Ser judeu é simplesmente ter memória. Uma má memória.

O livro nunca é previsível. Moisés aprende a importância de sorrir, e que poderá não estar perdido para sempre; e acaba por compreender a verdade por traz da sua curta e infeliz vida, e aprende a viver com isso. E isso é reconfortante.

Há um filme deste livro, com o Omar Sharif - tenho curiosidade, especialmente por o livro ser bastante curto.

3,5/5

Podem comprar esta edição aqui.

Comentários

  1. Já ouvi grandes elogios a essa obra, por acaso estou mais habituado a ler sobre a religião como motivo de divisão do que de união e, talvez, mesmo só por esta perspetiva já valesse a pena ler. Vou anotar

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    Respostas
    1. Carlos, se gosta de ler sobre religião enquanto temática em geral, recomendo-lhe um dos meus livros favoritos: "Brideshead Revisited", de Evelyn Waugh.

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  2. Temos de ver o filme, não sei se é bom mas o Omar Sharif dá sempre aquela garantia! O livro segundo o post até parece interessante, gostava de o confirmar :p

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  3. Não conhecia o livro mas agora fiquei curiosa em ver a adaptação com o Omar Sharif :)

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