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Wide Sargasso Sea

Leitor, casei-me com ele. Primeiro.


Neste livro, Jean Rhys, a autora, mulher crioula da República Dominicana, decide revisitar e explorar a personagem mais misteriosa de Jane Eyre: Bertha Mason, a mulher louca e monstruosa trancada no sótão, de origens semelhantes à sua.

Aqui, acompanhamos a vida de Antoinette Cosway desde a infância: é-lhe atribuída uma identidade. Apesar de ser uma espécie de prequela de Jane Eyre, este livro é-lhe tão distante quanto possível, com uma linguagem evocativa, colorida e exótica, como as imagens do Caribe e da cultura caribenha circa 1836, pouco depois do Emancipation Act que aboliu a escravatura. O ambiente físico é bonito porém escuro e misterioso; e o ambiente social que se segue à abolição da escravatura é recheado de desconfiança. Tudo isto se torna pesado e mesmo claustrofóbico, apesar da beleza natural que rodeia as personagens. Antoinette é filha de antigos proprietários de escravos, e é apanhada neste cenário. Com a sua mãe, viúva e na pobreza, só alguns escravos mais fiéis ficaram, no papel de empregados, destacando-se Cristophine, da Martinica, católica e com roupas muito diferentes das dos outros empregados, que pratica obeah e faz magia negra.

Antoinette, de origens inglesas e martinicanas, é crioula, mas é descrita como sendo bonita e branca. É maioritariamente aceite como branca, mas "aceite" não é exactamente a palavra mais correcta: com o libertar dos escravos, o balanço de poder nas colónias mudou, mas não se reverteu, e todos questionam a sua identidade. Antoinette não é branca e não é de cor, e tanto ela como a mãe são odiadas por todos, especialmente por terem origens na colónia francesa. Quanto Annnette Cosway, mãe de Antoinette, casa pela segunda vez, com o inglês Mr. Mason, Antoinette passa a chamar-se Antoinette Mason e refere que agora comem "comida inglesa", vê o quão inglês o seu padrasto é e sente-se cada vez mais incerta acerca de si própria. Expressões como "white nigger" e "white cockroach" são recorrentes.

I often wonder who I am and where is my country and where do I belong.

Antoinette Cosway encontra-se presa no meio de uma sociedade decadente e na qual está completamente expatriada. É uma criança negligenciada no meio dos humores da sua mãe (que demonstra alguns indícios de doença mental), vivendo isolada no meio da natureza na sua casa em Coulibri. Tem uma única amiga, Tia, e a amizade de ambas oscila entre ofensas raciais extremas.

Com o casamento, Annette procurava começar de novo, mas não resulta como ela pensava. Quando os locais pegam fogo à casa da família, matando o seu irmão deficiente e o papagaio da família (que, de asas cortadas, se atira da casa, em chamas), Annette ataca Mr Mason e, com as suas reacções extremas à perda da casa e do filho, é dada como louca. Antoinette leva com uma pedra na cabeça, presumivelmente um ataque da sua antiga amiga, Tia.

Annette funciona aqui como um presságio horrível do que virá a acontecer à sua filha, desde os azares no amor à loucura, passando pela discriminação pelas suas origens crioulas e mesmo o ataque físico ao marido.

Antoinette fica entregue a uma tia, Cora, que parece ser a única pessoa com os interesses de Antoinette em vista, e do padrasto, Mr Mason. Vai estudar para um convento em Spanish Town - e é durante este período que vemos a mãe rejeitá-la completamente, sendo que Annette acaba por morrer, sem sabermos ao certo como; a distância entre ambas era tal que Antoinette apenas refere o funeral de passagem. Sabemos mais tarde, no entanto, que Antoinette presenciou a sua mãe a ser abusada pelo homem que supostamente tomava conta dela.

Quando Mr Mason morre, deixa a sua fortuna dividida entre Antoinette e Richard, o seu filho de um casamento anterior. Mas Richard decide casar Antoinette com o segundo filho de um rico proprietário inglês, a quem nunca é dado um nome, mas que presumimos ser Mr. Rochester, protagonista de Jane Eyre. A tia Cora tenta impedir o casamento, e mesmo Antoinette não o deseja; mas o seu noivo promete-lhe felicidade, conforto e segurança - promessas vãs para alguém para quem o casamento é nada mais que um negócio para ultrapassar o facto de ser um segundo filho sem direito a herança.

E, assim, neste livro temos a substituição da escravatura por um novo tipo de escravatura, o casamento, arranjado pela família de Antoinette sem o seu consentimento, e no qual esta é tratada como propriedade, como um mero objecto que traria riqueza material ao marido, que a trata por um nome que não é o dela: Bertha. A independência não se seguiu à abolição da escravatura, pois havia ainda diferenças de classe, género, raça e saúde mental.

Antoinette é uma mulher frágil e frustrada cujas circunstâncias de vida e ambiente social levam a um destino que a quebra, o casamento; o seu marido não a compreende nem a quer compreender, e isto, conjugado com a conspiração de terceiros contra ela, levam à sua vida de tortura trancada num sótão. O marido sente-se tão repelido como atraído por tudo o que o rodeia: odeia as paisagens locais, não compreende o seu apelo e deita abaixo não só Coulibri, onde passam a lua de mel, como a sua própria esposa. Porque as paisagens caribenhas parecem guardar segredos, ao contrário das planícies inglesas que ele conhece tão bem. É um medo do desconhecido.

I hated the mountains and the hills, the rivers and the rain. I hated the sunsets of whatever colour, I hated its beauty and its magic and the secret I would never know. I hated its indifference and the cruelty which was part of its loveliness. Above all I hated her. For she belonged to the magic and the loveliness. She had left me thirsty and all my life would be thirst and longing for what I had lost before I found it.

Apesar de inicialmente contrariada, Antoinette acaba por aceitar o seu marido; mas na verdade ambos estão na mesma situação, vendidos pelas suas famílias, cheios de falsas promessas. Porém, um deles é um homem branco, tornado rico pelo casamento, e a outra é uma mulher crioula que sabe que o marido a vê como inferior por isso e que, dado o casamento, ficou sem controlo sobre o seu dinheiro. E esta é uma distinção muito forte.

E enquanto que o noivo nunca tem um nome, é mais significativo que ele mude o nome de Antoinette, que começa como Antoinette Cosway, para se tornar Antoinette Mason, para se tornar Antoinette "Rochester", a quem o marido chama Bertha, um nome que a tenta forçar a aceitar, enquanto rouba completamente a sua identidade e quem ela verdadeiramente é. O facto de o marido não ter nome faz dele poderoso e ao mesmo tempo desprovido de valor - mas ao dar um novo nome à sua mulher, a imagem é ainda mais forte.

O marido fica cada vez mais frustrado por ter sido empurrado para um casamento sem amor, começa a tornar-se obcecado e a ouvir todo o tipo de rumores sobre ela e a sua saúde mental (ou falta dela). Antoinette torna-se numa marioneta nas suas mãos (chama-a também de marionette); ao decidir que Antoinette é louca, o seu marido recupera poder, ao poder declará-la como tal e a castigar por isso. Isto é reminiscente de obras como The Yellow Wallpaper, em que a loucura de uma mulher é a forma como os homens as controlam e oprimem.

Uma das fontes de rumores é Daniel, que alega ser um dos muitos meios-irmãos ilegítimos de Antoinette, cujo pai era conhecido por ter filhos com escravas várias. O pai de Antoinette nunca o reconheceu - e na casa de Daniel há um quadro dizendo "Vengeance is mine"; Daniel tem inveja de Sandi, o filho do filho ilegítimo favorito, que era o amor de infância de Antoinette, e é difícil perceber quais os sentimentos ou intenções de Daniel com os seus rumores e alegações.

E tendo em conta que um dos motivos que afasta Antoinette e o marido é o facto de ela não ser propriamente sexualmente púdica, é fácil provocar-lhe ciúmes. Isto leva à ideia da palavra histeria, que vem da palavra grega para útero, e que durante séculos ligou a ideia de loucura feminina à sua sexualidade: uma forma de a sociedade (e, nomeadamente, a patriarquia) ver mulheres como sendo doentes, quando a sua única aflição era a natureza repressiva da sociedade.

Vain, silly creature. Made for loving? Yes, but she'll have no lover, for I don't want her and she'll see no other.

"Rochester" nunca amou Antoinette, e ao chamá-la Bertha numa tentativa fútil de a mudar, tentou criar para ela um lugar no mundo - um lugar que ela nunca teve, mas não o lugar que ela desejaria. Com o deteriorar da relação, é fácil ver ambos a enlouquecer - e Antoinette recorre a Christophine, que foi a sua mãe substituta, ao obeah, numa esperança de reconquistar o marido. Christophine é uma personagem interessante porque dá conselhos como "a man don't treat you good, pick up your skirt and walk out"; porque se envolve em magia e porque tem um passado misterioso e obscuro - que tenta negar a magia do obeah a Antoinette mas finalmente lho dá. E é o obeah que se vira contra ela, quando o marido se envolve com uma das empregadas no quarto ao lado, de maneira que ela ouve tudo.

A narrativa de "Rochester" centra-se em ódio e vingança e desespero, em vez de em tentar compreender a sua esposa.

If I was bound for hell, let it be hell. No more false heavens. No more damned magic. You hate me and I hate you. We’ll see who hates best. But first, first I will destroy your hatred. Now. My hate is colder, stronger, and you’ll have no hate to warm yourself. You will have nothing.

Enquanto que "Rochester" se apercebe do quão destrutivo está a ser, não se apercebe que destrói completamente a sua esposa; não sou a maior fã de Jane Eyre, nem do Rochester original - mas é indisputável que aqui ele é pintado em cores mais escuras, mais egoístas e vingativas. A destruição de Antoinette culmina ao levá-la embora: retira-lhe o nome, o passado, a propriedade, toda a realidade da vida dela. Ao regressar a Inglaterra, ele recupera a sua sanidade mental; mas ela é trancada num sótão, um segredo trancado e escondido.

They tell me I am in England but I don't believe them. We lost our way to England.

Porque Antoinette não sobreviveu ao atravessar o Mar dos Sargaços, está agora num país que em tempos idealizou de alguma maneira mas que agora a marginaliza, onde é colonial e estranha e inaceitável e se vê sem poder - e sem nome. Bertha Mason.

Wide Sargasso Sea. Que faz deste mar tão largo, tão vasto? A distância entre o mundo civilizado de Inglaterra e o mundo das Índias Ocidentais? A distância entre raças, entre estatutos e classes sociais, entre quem tem sanidade mental e quem a perdeu?

Será que há realmente esperança, num mundo em que há divisões de raça, género, sanidade mental, em que estas diferenças alimentam tantas ideologias e tanto ódio?

5/5

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