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Jane Eyre

Mais uma review infinitamente atrasada porque honestamente só me apetece dormir e sinto que tenho muito a dizer.


Jane Eyre é um livro que eu já tinha lido, em português, aos 16 anos, e do qual na altura retirei pouco mais que "é uma seca, mulher maluca no sótão, romance parvo". Desta vez retirei mais - sendo que talvez fosse triste se não fosse o caso, dez anos corridos - e é aí que vamos.

O livro começa na infância da protagonista que dá o nome ao livro, contando a sua infância difícil ao ser criada por familiares (da parte da mãe) que não a querem e a tratam mal, seguida de oito anos num internato para órfãos com péssimas condições. Nesta escola ela conhece a sua primeira amiga, Helen Burns, que ao mesmo tempo que é uma personagem que faz sentido e é inteligente, traz consigo um dos meus problemas com este livro: toda a temática do cristianismo. Helen tenta ensinar Jane a aceitar as dificuldades da vida de uma forma inteligente e forte, tenta fazer dela uma pessoa melhor - no entanto, atribui tudo isto a Jesus e, quando morre, nova e tragicamente, atribui também toda a sua paz de alma ao cristianismo.

E é daí que vêm também todas as morais, integridade e "sabedoria" de Jane. E o que mais me irrita é que ela não esconde a origem de toda a integridade que é suposto admirarmos.

Anos mais tarde, tendo sobrevivido com sucesso à escola terrível, Jane, aos 18 anos, procura trabalho como governanta e arranja trabalho em Thornfield Hall, ensinando uma criança francesa, Adèle, a muito provável filha bastarda do dono da casa, Edward Rochester, que, tendo passado anos a arranjar amantes Europa fora, decide não reconhecer a paternidade da criança, vendo-a como um fardo que tem de arrastar.

Jane é feliz no seu trabalho, gosta da casa, gosta de Adèle, gosta de Mrs. Fairfax que toma conta da casa, e acima de tudo gosta - romanticamente, lá está - de Mr. Rochester, o seu patrão. Estes sentimentos são retribuídos e, eventualmente, após enganar Jane e a fazer acreditar que se ia casar com uma rapariga rica lá do sítio, Rochester pede Jane em casamento. Jane aceita, mas recusa-se a aceitar prendas caras e a deixar de trabalhar. 

É interessante que uma mulher dessa altura quisesse mais que o casamento, quisesse um trabalho, e admiro isso. É interessante que ela não se deixasse ser submissa.

"Jane, be still; don't struggle so like a wild, frantic bird, that is rending its own plumage in its desperation."
"I am no bird; and no net ensnares me; I am a free human being, with an independent will; which I now exert to leave you."

Entretanto, acidentes bizarros e assustadores vão acontecendo pela casa - alguém tenta pegar fogo à cama de Mr. Rochester com ele lá dentro, alguém tenta matar um visitante da Jamaica, alguém rasga e estraga o véu de casamento que Rochester ofereceu a Jane. Mr. Rochester tenta ignorar todos estes incidentes, algo que é muito bizarro e que Jane nunca questiona por aí além. Esta parte de mistério é, para mim, a mais fascinante e interessante do livro, aquele gótico misterioso e quase sobrenatural (como em The Turn of the Screw, de Henry James, também sobre uma governanta, ou o mais recente Rebecca, de Daphne du Maurier cujo filme nunca vi mas já percebi que distorce bastante a história - recomendações de mistérios góticos, atirem na minha direcção).

Mrs. Fairfax avisa Jane:

"Gentlemen in his station are not accustomed to marry their governesses."

Palavra chave aqui, marry. Jane leva um bocado a mal este conselho, porque quem raio é a velha para lhe estragar assim a felicidade, mas a verdade é que a vida, e mesmo este livro, não é um conto de fadas. Há aqui factores que Mrs. Fairfax tem em conta: a diferença de idade (enorme - Rochester podia ser pai de Jane), e a desigualdade social e de rendimentos. Acrescente-se que Rochester tem um historial de amantes europeias das quais se cansava rapidamente, e Jane tem noção de que o seu noivo/patrão se pode cansar dela como se cansava das outras. Como ter um casamento feliz quando o noivo é dado a, bem, extravagâncias?

O livro vai arrastando, lento, lento. As últimas 200 páginas (sim, porque isto é um bocado enorme) trazem alguma redenção, porque a narrativa finalmente arranca após termos passado um bom bocado em melodrama pouco realista a roçar o tédio e o enfiar da superioridade moral de Jane pelas nossas gargantas abaixo.

"I do not think, sir, you have any right to command me, merely because you are older than I, or because you have seen more of the world than I have; your claim to superiority depends on the use you have made of your time and experience."

Chega o dia do casamento e tudo parece correr bem, incidente do véu acima mencionado aparte; Rochester parece apressado, muito; até que, na capela em si, alguém responde ao clássico "se alguém tiver algo contra fale agora ou cale-se para sempre", e descobrimos a verdade: Mr. Rochester já era casado. Os incidentes perigosos deviam-se ao facto de a primeira esposa de Mr. Rochester ter um qualquer problema psiquiátrico que levou o marido a trancá-la no sótão - porém, a empregada que era paga para tomar conta dela por vezes descuidava-se (devido a alcoolismo, como descobrimos bem mais tarde) e dava asneira. Forçado a casar com ela por dinheiro, loucura hereditária, etc, etc, perdoa-me Jane e fica comigo, alega ele.

Como é que uma pessoa tranca um cônjuge no sótão e se esquece de o mencionar até o dia do segundo casamento? Que há de errado contigo, Rochester? Rochester é frio, condescendente, guarda segredos (inclusive sobre tentativas de homicídio, relembremos). Se um homem com o dobro da nossa idade que admite livremente a sua inclinação para cantoras de cabaret europeias e ignora a sua própria provável filha e se esquece de nos dizer que é casado e que a sua mulher já nos tentou assassinar aos dois (e ao próprio irmão) - é fugir.

Algumas palavras sobre a primeira esposa, Bertha Mason: de origem criola e criada na Jamaica,  na altura uma conhecida beleza local; será ela realmente uma maluca trancada no sótão, ou terá a infelicidade conjugal de um homem que sabemos leviano levado a verdadeiro abuso conjugal, numa reclusão que a terá levado à loucura? Rochester alega que ela era promíscua (moral, cadê?) e alcoólica, mas, especialmente tendo em conta que ele é igualmente dado a laivos de emoção violenta, e também a sua situação, será ele a melhor testemunha? Deixo aqui a parte em que Jane descreve o incidente do véu ao seu noivo:

"Fearful and ghastly to me - oh, sir, I never saw a face like it! It was a discoloured face - it was a savage face. I wish I could forget the roll of the red eyes and the fearful blackened inflation of the lineaments!"
"Ghosts are usually pale, Jane."
"This, sir, was purple: the lips were swelled and dark; the brow furrowed: the black eyebrows widely raised over the bloodshot eyes. Shall I tell you of what it reminded me?"
"You may."
"Of the foul German spectre - the Vampyre."

Jane não nota só os olhos vermelhos de sangue ou o comportamento aterrador da mulher que viu - nota, assustada, que ela é de cor. Bertha não é branca, não é a cristã pura - por mais hereditária que fosse a "loucura", será que foi mesmo por isso que Rochester a rejeitou?

Mas este livro não é sobre o romance, nem, infelizmente, sobre a maluca no sótão (já agora, há um livro da Jean Rhys sobre Bertha, que gostava muito de ler - Wide Sargasso Sea - até porque a mulher demonizada me parece a melhor personagem do livro). É sobre integridade pessoal.

E Bertha, enquanto esposa legal e viva de Rochester, é um impecilho ao casamento legítimo de Jane e Rochester - mas ele não desiste e insiste com ela que vão ambos viver para França onde ninguém os conhece e se podem fingir casados.

Aqui está a questão que Mrs. Fairfax levantou acima: casar com a governanta não era comum, mas amantizá-la possivelmente era, bastante, e a governanta provavelmente raras vezes estava em condições de rejeitar. Jane fica indignada, embora dividida - e rejeita-o, recusando-se a deixar o amor cegá-la ao ponto de renegar todas as suas convicções e integridade, que mais ninguém defenderia se não fosse ela. Ironicamente, muito ironicamente, mais tarde lemos esta citação:

"I would always rather be happy than dignified."

Ao recusar Rochester, Jane fica com a sua dignidade, mantém-se fiel a si mesma, recusa-se a destruir a sua integridade após um atentado que ela acha impensável às suas convicções e morais. O que Rochester lhe oferece é uma forma de ultrapassar o obstáculo, Bertha, e apresenta a Jane a sua primeira grande tentação - ser sua amante. Como eu disse acima, porém, Jane estava bastante aclimatizada com o historial de amantes de Rochester, e de como ele se cansava delas - e, agora, de como se tinha cansado da mulher. No toque "conto de fadas" que o livro frequentemente nos apresenta, é óbvio que apenas o casamento levaria à felicidade eterna, ao felizes para sempre; enquanto que ser amante do homem que amava levaria a felicidade efémera, muita luta interna, uma vida infeliz (novamente, muita da moral cristã).

E é esta convicção religiosa que a leva a fazer algo que acho que nem a Bertha no pico da loucura faria: sair de casa a meio da noite sem dinheiro algum nem nada de modo a fugir à tentação. Que é que ela achava que ia acontecer? Como é que uma mulher supostamente educada e sensata faz isto? Claro que passou fome e claro que, num dos twists menos credíveis do livro, ela vai parar à porta de, resumindo muito, os seus únicos familiares vivos, da parte do pai, a parte que não a rejeitou e a mandou para o internato em pequena e que, ainda antes de saberem que ela era prima deles, e mesmo sendo pobres, a acolheram como se da família fosse e lhe arranjaram emprego como professora. Num pequeno extra, um tio que vivia de vinhos da Madeira deixou a ela todo o seu dinheiro, que era uma boa fortuna, e ela repartiu com esses primos, como pessoa caridosa que é. Assim, Jane consegue a independência que sempre sonhou.

Vamos aqui falar de um desses três primos, St. John (sim, ele chama-se St. John) - além do nome bizarro, é missionário e é apaixonado por Rosamund, que também gosta dele; porém, ela não daria boa esposa de missionário, portanto por mais apaixonado que esteja, ela não é exactamente prática.

"It is strange," pursued he, "that while I love Rosamond Oliver so wildly - with all the intensity, indeed, of a first passion, the object of which is exquisitely beautiful, graceful, fascinating - I experience at the same time a calm, unwarped consciousness that she would not make me a good wife; that she is not the partner suited to me; that I should discover this within a year after marriage; and that to twelve months’ rapture would succeed a lifetime of regret. This I know." 

Na verdade, toda a intensidade da sua personalidade é dedicada a gostar de Rosamund - de resto ele é uma pessoa fria e dedicada a Deus. Daí que ele quer casar com Jane, não por gostar dela, mas porque ela seria óptima na Índia em trabalhos missionários, mas ela não quer, porque seria um casamento "prático" e não por amor. Ele ensina-lhe a língua hindustâni e quer que ela trabalhe, seja alguém, faça alguma coisa da vida que não se dedicar ao ócio. St. John é descrito como imensamente bem parecido, mas Jane fica horrorizada com a ideia de casar com ele - especialmente porque, no fundo, alguém que faz decisões de relações pela lógica e prática e não por amor é aquilo em que ela se está a tornar.

E daí ela decide ir procurar Mr. Rochester, com ou sem Bertha, após ter enviado cartas e mais cartas sem resposta a inquirir por ele.

Jane descobre que Thornfield Hall ardeu e é uma mera ruína; Bertha pegou fogo à casa e suicidou-se, numa saída em grande, dando a conhecer a toda a terra a sua existência e, no meio de tudo isso, deixando Rochester cego e sem um braço, tendo ficado assim após ter salvado toda a gente da casa (ah, o herói), vivendo agora em reclusão com dois empregados. Sem Bertha, já não há o problema técnico que levaria à bigamia - e lá vai Jane em busca do seu amado, que a aceita de braços abertos, achando estar a viver um sonho.

Reader, I married him.

Problema: a desigualdade que Mrs. Fairfax advertira é removida não só porque Jane agora tem dinheiro, mas porque Rochester está tão mutilado que Jane agora lhe é não só uma esposa, mas uma enfermeira. Ela fica feliz por lhe poder ser de serventia. Ele precisa de alguém e ela quer ser essa pessoa, e ele está num estado tão diminuído (enquanto ela é uma herdeira rica) que, inexplicável e excepcionalmente, o casamento de ambos é socialmente aceite. Sim, ela só se casou com ele quando era legal, e sim, o ponto da coisa é que ela o rejeitou quando a tentação era enorme e a sociedade quase não lhe permitia que o fizesse - mas toda a condição em que ela se casa com ele estraga um bocado tudo, mais que o casamento em si.

A parte mais estranha do livro - mais ainda que manter uma esposa trancada no sótão - é que os últimos parágrafos do livro são dedicados ao primo religioso, St. John Rivers, que literalmente se mata a trabalhar na Índia. É estranho porque ele não só teve uma parte muito pequena na vida de Jane, como essa parte foi maioritariamente negativa, pelo menos a meu ver. Mas pelos vistos é importante terminar o livro relembrando todos que ele esteve a fazer grandes trabalhos em nome de Deus.

4/5 porque retirei mesmo bastante do livro, e a leitura foi bastante agradável - embora veja que a review possa ser muito crítica, é apenas porque nesta altura esperava muito mais.

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