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Hotel Melancólico

Não resisti a agarrar logo neste livro.


Após ter adorado O Nervo Ótico, também de María Gainza, este lançamento, de uma obra igualmente curta e que prometia igualmente um misto de realidade com ficção, prendeu-me imediatamente. Foi uma questão de poucos dias entre o momento em que chegou a casa e o momento em que o comecei a ler.

Sendo mais ficção que o livro anterior, não sei se esperava aquilo que encontrei - mas a maneira de narrar e a personalidade da autora, bem como a sua relação com a arte, estão aqui presentes. Aliás, María escreve a partir do seu amor pela pintura, como dá para sentir em cada parágrafo. O tema essencial, a arte, mantém-se; apenas a autoficção se transforma, lentamente, num mistério.

A narradora recorda a sua juventude, quando, por "sugestão" (ou cunha) de um tio, começou a trabalhar no gabinete de avaliação de obras de arte de um banco, tendo como mentora Enriqueta, uma mulher mais velha, aparentemente séria e dura. Num momento inicial, a obra foca-se na amizade entre as duas colegas de trabalho. Aqui, a narradora descobre o mundo da falsificação de obras de arte, algo que a entusiasma, com a adrenalina do "proibido", do ilegal.

Quando um colecionador compra, não está a comprar arte, mas uma confirmação social do seu investimento. Paga para ter a certeza e ter a certeza é caro. Mas quem sou eu para criticar?

A certo momento, um evento (para mim, inesperado) altera um pouco o rumo da obra, e entramos mais ainda no mundo das obras falsificadas, num hotel (o Melancólico, do título) e um círculo social de artistas e boémios de Buenos Aires dos anos 60. A narradora, tendo perdido um emprego enquanto crítica de arte, decide investigar mais a fundo uma personagem misteriosa, A Negra, supostamente uma conhecida falsificadora da obra de Mariette Lydis, pintora austríaca que viveu em Buenos Aires após ter fugido da II Guerra Mundial (e cuja obra, confesso, desconhecia), entre outros. O objectivo será escrever uma biografia sobre esta mulher, sobre quem se sabe tão pouco, que desapareceu sem deixar rasto, mas a obsessão da narradora parece satisfazer-se mesmo sem a encontrar.

Qual será o mistério da Negra? Por que está ela envolta numa nuvem que a torna inalcançável, onírica?

 - Como era ela? Tão bonita quanto dizer?
 - Era esplendorosa, lúgubre, singular.

Assim, entre personagens históricos e fictícios, embrenhamo-nos num mistério, num livro de investigação, quase de detectives, no qual subjaz a questão: onde está a verdade? Como podemos distinguir o verdadeiro do falso? As várias entrevistas da narradora levam-nos a várias histórias que se sobrepõem às da misteriosa mulher que se mexia no mundo das artes.

Gostei muito da mudança de estilo relativamente ao Nervo Ótico; se este pegava em experiências de vida, as decalcava, e as juntava através do amor à arte, Hotel Melancólico explora o outro lado da arte: o lado obscuro da falsificação. E fá-lo através de personagens e ambientes fascinantes.

O que me impeliu afinal nesta busca? Terá sido apenas uma tentativa de deter a minha queda? Foi curiosidade? O êxtase da descoberta? Nenhuma destas explicações me satisfaz. Quando um ser querido morre, há um ato reflexo básico e, intuo, universal: regressa-se mentalmente a essa pessoa, reveem-se os temas de conversa, resgata-se o velho léxico de caretas e anedotas privadas, revisitam-se os lugares comuns.

O capítulo final é sublime. María Gainza é uma autora para continuar a seguir.

5/5, mais uma vez

Podem comprar esta edição na wook ou na Bertrand

Comentários

  1. Pensei em ler o Nervo Otico, mas então esgotou e depois dediquei me a outras obras, pelo que nunca li a autora.

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    1. Não fazia ideia que tinha esgotado! Continuo a vê-lo disponível, pelo que creio que terá sido reeditado entretanto. Gostei muito e recomendo ambas as obras, mas creio que O Nervo Ótico irá mais de encontro aos interesses do Carlos.

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  2. Também fui toda lançada, como sabes, mas demorei uma eternidade a lê-lo porque não puxou nada por mim. A Gainza escreve mesmo bem e as personagens dela aqui são fantásticas, mas não me trouxe a envolvência que eu esperava depois do Nervo Ótico. Chegaste a ver os quadros da Lydis? Os olhos, caramba!
    Paula

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    1. Compreendo, até porque me lembro do teu comentário sobre a relação da narradora com a Enriqueta, e, bem... ela desaparece de cena relativamente cedo, e o ritmo do livro altera muito a partir daí. E o livro é bastante diferente do anterior!
      Não conhecia a Lydis, e fui pesquisar, na altura. Os olhos! A utilização da luz, os traços. Confesso que não faz o meu género, mas é sem dúvida um estilo único e inconfundível.

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