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Querida Ijeawele - Como Educar para o Feminismo

Tenho ficção de Chimamanda por ler, mas por algum motivo comecei por Querida Ijeawele.

O grande atractivo neste volume - para ter feito dela o meu ponto de início na obra da autora - é, além da temática, a sua reduzida dimensão. Na verdade, o livro é diminuto, talvez por ser como que uma carta que a autora escreveu a uma amiga que pediu conselhos sobre como criar a sua filha recém-nascida para ser feminista.

É claro que estou furiosa. Sinto-me furiosa com o racismo. Sinto-me furiosa com o sexismo. Mas recentemente apercebi-me de que me sinto mais furiosa com o sexismo do que com o racismo.
Porque na minha fúria com o sexismo sinto-me muitas vezes só.
O livro está dividido em quinze peças/conselhos práticos, cada capítulo uma sugestão ou tópico novo. Discute questões do feminismo como padrões de beleza, auto-estima, privilégio (branco ou masculino), racismo, sexismo, papéis de género, casamento, roupa, sexualidade, opressão, entre outros. Isto porque a educação não acaba na adolescência…

Essa Dama Bate Bué!

Este livro chamou imenso a minha atenção pela capa, pelo título e pela premissa.

A protagonista é Vitória que, tal como Yara Monteiro, nasceu no Huambo, em Angola, e veio com a família materna viver para Portugal muito, muito cedo. Filha da revolucionária Rosa Chitula, que fora afastada da família por se envolver na guerra civil, com ideias muito diferentes das do pai, assimilado, Vitória cresce sem mãe, sob a austeridade dos avós, que a criam para ser uma boa esposa.

Tinha, aliás, um noivo, mais por conveniência que por qualquer outra coisa. E, semanas antes do seu casamento, no ano de 2003, Vitória vai para Luanda quase sem pré-aviso.

«Tudo o que hoje preciso é de um casamento. Com certeza não tenho de ir. Nem conheço os noivos. O meu, daqui a três semanas. Um erro, o Dinis. (...)»

Isto porque Vitória decide procurar a sua mãe, e parte para Angola apenas com dois nomes como pistas: Zacarias Vindu e Juliana Tijamba. Em Luanda, é prontamente recebida por Romana, antiga amiga da sua ti…

Há Gente em Casa

Quem me conhece, sabe que leio pouca poesia - e que gostei muito do pouco que li de Ondjaki.

Assim, abracei esta oportunidade de ler o seu mais recente lançamento, Há Gente em Casa. O meu namorado já leu vários livros do autor, incluindo a sua poesia, dizendo que gosta muito mais da prosa, mas dei total oportunidade a esta obra.
as feridas falam dos dias na solidão, e da extensão do percurso. trago esse pouco que é quase nada. arrasto ruídos para anunciar a minha vez. chego como quem está ainda por chegar.
Não sei muito sobre poesia - não sei falar sobre poesia. Quantas vezes tenho de dizer isto? Mas as palavras de Ondjaki são bonitas, muito bonitas. É um livro pequeno, com poemas pequenos, de rápida leitura; são poemas de liberdade, mas também de solidão. E da vida. Às vezes há gente em casa - mas estamos sozinhos.
4/5

Podem comprar esta edição aqui.

novidades de Novembro

Apesar de ainda estar em França, tenho estado atenta às edições em Portugal.


E aqui tenho três novidades que não podia perder:

Lápides Partidas, de Aquilino Ribeiro. Como mencionei aqui, Aquilino Ribeiro era um autor que eu tinha na minha wishlist de Feira do Livro, e que, na altura, não trouxe; vinguei-me portanto com esta novidade da Bertrand.
Libório Barradas, ainda preso às recordações tão profundamente sentidas de Santa Maria das Águias, deixa o enquadramento serrano da sua juventude e vem encontrar na Lisboa do tempo o ambiente pré-revolucionário que dois anos depois iria provocar o derrubamento da monarquia. (...)
Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho, é o Prémio LeYa de 2017. Nunca li nada do autor, mas sei que o seu livro anterior foi finalista do mesmo prémio, portanto tenho expectativas algo elevadas. Tenho curiosidade quanto a prémios literários - tenho em casa, ainda por ler, a edição BIS do Prémio LeYa de 2011, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro; ambos…

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Mais Mia Couto, numa review com quase 20 dias de atraso, de um livro com um título do qual nunca me lembro como deve ser (digo sempre algo como "Um Rio Chamado Casa").

E isso é, já agora, uma enorme vergonha, dado que Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra é possivelmente o livro mais bonito que li do autor - e quem tiver lido as minhas reviews anteriores saberá que os padrões estavam altos.

Alguém conhece magia mais bonita que a dos livros de Mia Couto?

O enredo passa-se em Luar-do-Chão, uma ilha onde ainda há tradições - temática frequente em Mia Couto, conforme me tenho vindo a aperceber. Dito Mariano, patriarca da família dos Malilanes, morre, e toda a família é chamada a comparecer, incluindo Mariano, seu neto, a quem é deixada, pelo próprio defunto, a responsabilidade de se encarregar do funeral (honra que devia ter passado ao primogénito). O avô está deitado numa sala sem tecto, e o seu estado clínico é... pouco estável, digamos.
E é deste avô quase-morto que M…

Mar me quer

"Mar me quer" é muito mais que um trocadilho.


Comprei este livro na Feira do Livro deste mesmo ano. Vi que seria um livro dirigido a um público um pouco mais infantil, com ilustrações, de Mia Couto, de quem só li Terra Sonâmbula - mas cuja escrita adorei.
Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
Parece realmente um livro infantil, com ilustrações lindíssimas, mas acaba por ser a história de um homem e de uma mulher - de como um homem, Zeca Perpétuo, deseja uma mulher, Luarmina, sua vizinha, um pouco mais velha que ele, mulata, "gorda e engordurada", cuja foto de juventude deixava ver uma mulher elegante.
Luarmina, no entanto, quer o passado de Zeca, quer conhecer as suas memórias - mas Zeca quer viver no presente, alegando que o passado o maltratou.
Cada capítulo é introduzido com um dito do avô Celes…

Feira do Livro - o rescaldo

Aqui ficam as últimas compras da Feira do Livro (e, segundo planeio, as últimas compras do próximo ano).

14 de Junho: Fui esta noite com uma lista estrita e decidi que, na Bertrand/Porto Editora, compraria apenas edições que entrassem em Hora H.
Tendo chegado cedo, fiz um pequeno desvio e comecei por comprar O que traz a noite, de Alexandre Costa, na banca onde estava representada a Capital Books, livro que me arrependo de não ter comprado no ano passado, quando foi lançado. O senhor que estava na banca entregou-me o livro num saco, dizendo, "vai aqui num saco do Daniel Silva, mas se calhar não tem nada a ver". Vergonha minha, porque se nunca li Daniel Silva e isso não me apoquenta, o pior é que nunca li Alexandre Costa. E eu conheço o Alexandre. Nunca estive com ele muitas vezes, mas ele apareceu no Largo Camões para me dar os parabéns quando eu fiz anos, em 2012. E conheço o Ricardo, que fez a capa do livro, e não vejo o Ricky há possivelmente cinco anos também. Uma vez al…

Feira do Livro - Hora H

Fiz ontem a minha primeira deslocação à Feira do Livro, com o objectivo de aproveitar a Hora H, tradição que cumpro há dois anos.

Saí do 738 no Marquês ainda antes das 21h30 e fiz a primeira paragem na banca da E-Primatur, onde queria comprar o livro do dia: Casos de Direito Galático e outros textos esquecidos, de Mário-Henrique Leiria, escritor surrealista português que nunca li, com uma capa bastante curiosa. Tive uma simpática conversa com o responsável da banca, que me agradeceu estar a pagar em multibanco, em como temo vir a ter o fim da família Clutter (quem leu o A Sangue Frio/In Cold Blood do Truman Capote poderá perceber), e recebi um saco de pano, um catálogo da editora e todo um conjunto de marcadores.
Subi para a LeYa, onde me encontrei com o meu companheiro e fizemos, como sempre, as compras centrais (como em, mais numerosas) da Feira: o aproveitar da Hora H. Comprei Tereza Batista Cansada da Guerra e Farda Fardão Camisola de Dormir, de Jorge Amado. Fiquei triste de ver …

Luuanda

Minha estória. Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro que não falei mentira e estes casos passaram nesta nossa terra de Luanda.

Este livro surpreendeu-me de diversas maneiras, a primeira das quais o facto de ser um livro com três contos (algo que eu não sabia nem esperava - esperava uma narrativa contínua). Também não é uma leitura fácil: não só pelas expressões e frases inteiras em quimbundo, língua com a qual não estou de todo familiarizada (o que me levou a recorrer frequentemente a um glossário no final do livro) - o português usado é muito, muito africano -, como pelas situações de miséria descritas.
As personagens são sempre muito humildes: a avó pobre, desiludida com o passado, e o neto que , desiludido com o presente e com a falta de emprego, apesar da falta de dinheiro e da fome, da muita fome, quer camisas coloridas para arranjar namorada; o deficiente que só queria o amor de uma rapariga e o disputa com um papagaio, segundo entende; a luta por um ovo (quando …

Mais Feira

As últimas compras dos próximos tempos, ou o post em que me assumo Targaryen não incestuosa.

Destaques super positivos da Feira do Livro: Hora H, sempre; banca do El Corte Inglés, pela enorme selecção de Wordsworth Editions ainda mais baratas que o habitual e os espanhóis aos quais o acesso não é o mais fácil em geral; os clássicos da Porto Editora; a Leya, sempre um mundo.
Comprei mais um livro de Clarice Lispector após ter absolutamente adorado o que comprei no ano passado - é neste momento a maior inspiração na minha escrita, e é uma autora na qual quero investir mais. 
Três Wordsworth: um Shakespeare, porque o meu amor anda a descobrir e adorar Shakespeare e eu só li dois e preciso claramente de mais na minha vida; um do Dickens, porque é o primeiro autor que li em inglês e preciso também de mais Dickens; e o Tristram Shandy, porque a descrição parece bastante eu, de certa maneira:
As its title suggests, the book is ostensibly Tristram's narration of his life story. But it is …

O Quase Fim do Mundo

E se um dia eu desse por mim sozinha, a única forma de vida animal no mundo?

Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.
O livro começa com Simba, médico de 35 anos, o principal protagonista deste livro, a voltar para casa no seu carro e a ver um relâmpago - e a dar por si sozinho numa cidade com dois milhões de habitantes. Nada que seja telecomunicação funciona, roupas e carros abandonados na rua, estará louco? Atravessa a cidade procurando um psiquiatra para a sua condição, já que não pode ser a realidade.

O banco, a estação da polícia, tudo vazio; na Noruega ninguém atende o telefone. Que se passa?

Ao tentar assaltar o terceiro banco, encontra uma senhora de meia idade, Geny, que revela acreditar ser o fim do mundo anunciado na sua dura religião, os Paladinos da Coroa Sagrada. Começam a dar-se bem e a encontrar alguns outros sobreviventes, cada um a lidar com o choque à sua maneira, mas todos em choque. Jude, rapariga precoce de 16 anos (que é das personagens m…

Parábola do Cágado Velho

Mais um livro incrível emprestado pelo mais incrível de todos.

O livro começa de forma imensamente poética, uma vida que se vira ao contrário devido a uma granada e a visão que esta traz. Ulume vai visitar frequentemente um cágado velho, possivelmente mais velho que ele, acreditando na sua sabedoria, sentindo o tempo parar sempre que o cágado vai beber água, todos os dias pela mesma hora. Ulume desabafa e questiona o cágado sobre os problemas da vida, e sente que este o ouve, aguardando pelo dia em que lhe responda.
Houve um tempo anterior a tudo, há sempre, não é mesmo?
Ulume é casado com Muari, de quem tem dois filhos, Luzolo e Kanda, que partem cada um para uma facção diferente da guerra civil Angolana: nunca nos é dito quem vai para a UNITA e quem vai para a MPLA, neste livro não há distinção sobre quem são "os nossos" e quem são "os inimigos" - são todos iguais e, na pequena aldeia, afastada de Calpe, dos centros urbanos, ninguém percebe ao certo o porquê da l…

A Feira dos Assombrados e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis

Contos, contos!

A Feira dos Assombrados é o primeiro e maior conto deste pequeno livro. Passa-se na cidade do Dondo, em finais do século XIX, e narra a chegada dos "afogados", mortos que surgiam via Rio Quanza na pequena cidade e que, com a sua aparência cada vez menos humana, abalaram a população, trazendo ao de cimo todos os conflitos latentes, entre as figuras de poder (o professor, o administrador do concelho, o padre) e entre personagens invulgares e acontecimentos dignos de um Entroncamento.
"Fizeram-no chefe do concelho e sua excelência julga que o fizeram Rei. Chefe do concelho?! E afinal o que é que ele governa? Uma feira de assombrados é o que ele governa!"
4/5

Podem comprar esta edição aqui.