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Freshwater

Um dos livros mais difíceis de explicar que li no último tempos. Freshwater é uma obra cheia de camadas que parecem nem sempre encaixar, caber, coincidir. É a história de Ada, que, quando nasce, tem vários ogbanje presos no seu corpo. Ada é uma jovem nigeriana cuja identidade se encontra por isso fracturada, em cuja "mente", uma sala de mármore, vive não só ela, mas vários deuses, espíritos, ogbanje , que se encontram presos a ela, talvez por erro, porque por que motivo deuses quereriam estar num corpo mortal? It’s not easy to persuade a human to end their life – they’re very attached to it, even when it makes them miserable, and Ada was no different. But it’s not the decision to cross back that’s difficult; it’s the crossing itself. O livro é maioritariamente narrado por estes espíritos que, apesar de externos a Ada, a habitam. Estes espíritos têm vontades próprias, não estão habituados a vidas mortais, a formas físicas, e, de forma mais ou menos activa, parecem puxar pelo m...

My Sister, the Serial Killer

Leitura escolhida para levar para a praia face à incapacidade de ler num tablet com tanto reflexo + dimensão do Anna Karenina . Tendo sido cá lançado recentemente, talvez seja um livro do qual muitos já tenham ouvido falar. Às vezes perguntam-me por que escolho algumas leituras, e este foi um dos livros questionados. Reparei nele quando foi uma das opções do Books That Matter, há mais de dois anos. Apesar de não comprar as caixas deles (comprei talvez duas ou três, há já uns anos, mas os portes subiram muito e houve o Brexit), costumo estar atenta aos títulos sugeridos, embora saiba que nem todos me vão agradar. Comprei este no Awesome Books, em Abril, pouco antes de ter sido editado por cá. My Sister, the Serial Killer  é narrado por Korede, enfermeira, irmã mais velha de Ayoola, a serial killer  do título. Sendo título, não será exactamente spoiler dizer que Ayoola já matou, mais que uma vez, e o livro abre com o jantar de Korede, interrompido por um pedido de ajuda da irmã,...

O Cão e os Caluandas

Livros sobre cães? Mas é claro. (O Lassie  aguarda-me na estante) Li O Cão e os Caluandas  por sugestão do meu respectivo, proprietário da edição em causa, não sendo a minha primeira incursão pela obra de Pepetela (já tinha lido A Parábola do Cágado Velho   e O Quase Fim do Mundo ). O cão em questão é um Pastor Alemão e, através de uma investigação, seguindo o rasto do cão, que deambula por Luanda, obtemos um retrato da sociedade pós-independência. A perspectiva é, sem dúvida, original - a recolha de vários relatos, em vários registos, não sendo possível ao leitor apurar o que será real ou falso, se o cão é sempre o mesmo (há relatos algo contraditórios sobre a localização do mesmo em determinado momento)... Mas será que isso importa? Todos os relatos apresentam um cão de personalidade peculiar, quase capaz de estar em dois sítios ao mesmo tempo - capaz de percorrer centenas de kilómetros em curto espaço de tempo, de viajar à boleia, seja de ferry , seja d...

O Terrorista Elegante e Outras Histórias

Esta novidade chamou-me imediatamente a atenção devido à sua dupla autoria. Pelos dois motivos: por ser escrito a quatro mãos, contrariando, como diz Mia Couto no prólogo, a ideia da escrita enquanto acto solitário; e pelos dois autores, embora tenha apenas lido, até à data, uma obra de Agualusa  (não obstante ter duas outras na estante). A expectativa era considerável, e a obra corresponde. O livro reúne três contos, ou novelas, e é a leitura ideal para fazer numa tarde mais descontraída. Todas são baseadas em peças de teatro, também da autoria partilhada de ambos, e essa fonte subentende-se na riqueza dos diálogos, nas didascálias disfarçadas no corpo do texto. Todo o livro está envolto na musicalidade e no humor típicos dos autores, sendo de leitura muito agradável, como era, aliás, de antecipar. O primeiro texto da obra, aquele que lhe dá título, traz-nos Charles Poitier Bentinho, um angolano elegante, que veste marcas caras e fatos de alfaiate, que é detido ...

Os Intérpretes

Peguei neste livro ansiosa por conhecer mais literatura nigeriana. Da autoria de Wole Soyinka, prémio Nobel mais conhecido pela sua obra enquanto dramaturgo, Os Intérpretes  foi publicado em 1965, quando a Nigéria era ainda uma Nação independente. Esta obra segue um grupo de jovens, com formação superior e empregos importantes, enquanto estes tentam compreender como viver as suas vidas. Não é um livro "formador da Nação", como muitos livros publicados em torno da independência de uma ex-colónia tendem a ser - mas acompanha os personagens enquanto estes lidam com questões como a família, o casamento, o trabalho, a política, a religião, a morte. Ao longo do livro, Kola, o artista, pinta um quadro de grandes dimensões, uma espécie de panteão que junta imagens cristã e pagãs, no qual retrata os seus amigos e outros personagens. Numa sociedade diferente daquela em que cresceram, os vários personagens procuram interpretar os seus novos papéis, as suas vidas. Infeli...

Nós Matámos o Cão-Tinhoso

Um clássico da literatura moçambicana. Tinha este livro à minha espera na estante há cerca de dois anos, numa compra motivada por Os da minha rua , de Ondjaki . Há, na obra de Ondjaki, todo um capítulo emocional sobre a leitura da obra de Luís Bernardo Honwana. O Cão-Tinhoso é, muito simplesmente, um cão tinhoso. Um cão velho, doente, moribundo. Só Isaura, uma menina, gosta dele - faz-lhe festas, alimenta-o. E, por isso, Isaura é considerada louca. Mas o narrador da história é Ginho, um rapaz que é gozado por todos os colegas, na escola, nos jogos de futebol. Ginho sente alguma empatia pelo cão, embora não consiga perceber porquê. O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo, aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer. E um dia o Dr. Duarte, veterinário, pressiona e convence os rapazes a abater o Cão-...

Purple Hibiscus

A minha primeira experiência a ler Chimamanda Ngozi Adichie não foi a mais favorável. Tinha este livro na estante há mais anos do que me orgulho de dizer, e todos os anos dizia que era desta que me ia estrear a ler a autora; no entanto, e ironicamente, quando Querida Ijeawale  se cruzou no meu caminho e deixou um leve sabor a desilusão, decidi que devia mesmo ler a sua ficção. De facto, todos elogiam grandemente Adichie como uma excelente escritora - mais pela sua ficção, pelo que compreendo. E decidi começar pelo início, pelo seu primeiro livro. A narradora é Kambili, uma adolescente de 15 anos, que vive com o irmão Jaja, a mãe Beatrice e o pai Eugene. Eugene é um industrial rico que vive na cidade de Enugu, um homem extremamente católico, muito generoso com a comunidade, alimentando os pobres, financiando os estudos e pagando tratamentos caros aos vizinhos e amigos, um patrono na igreja de St. Agnes, que frequentam, um homem que apregoa a justiça no seu jornal. ...

Querida Ijeawele - Como Educar para o Feminismo

Tenho ficção de Chimamanda por ler, mas por algum motivo comecei por Querida Ijeawele . O grande atractivo neste volume - para ter feito dela o meu ponto de início na obra da autora - é, além da temática, a sua reduzida dimensão. Na verdade, o livro é diminuto, talvez por ser como que uma carta que a autora escreveu a uma amiga que pediu conselhos sobre como criar a sua filha recém-nascida para ser feminista. É claro que estou furiosa. Sinto-me furiosa com o racismo. Sinto-me furiosa com o sexismo. Mas recentemente apercebi-me de que me sinto mais furiosa com o sexismo do que com o racismo. Porque na minha fúria com o sexismo sinto-me muitas vezes só. O livro está dividido em quinze peças/conselhos práticos, cada capítulo uma sugestão ou tópico novo. Discute questões do feminismo como padrões de beleza, auto-estima, privilégio (branco ou masculino), racismo, sexismo, papéis de género, casamento, roupa, sexualidade, opressão, entre outros. Isto porque a educação não acab...

Essa Dama Bate Bué!

Este livro chamou imenso a minha atenção pela capa, pelo título e pela premissa. A protagonista é Vitória que, tal como Yara Monteiro, nasceu no Huambo, em Angola, e veio com a família materna viver para Portugal muito, muito cedo. Filha da revolucionária Rosa Chitula, que fora afastada da família por se envolver na guerra civil, com ideias muito diferentes das do pai, assimilado, Vitória cresce sem mãe, sob a austeridade dos avós, que a criam para ser uma boa esposa. Tinha, aliás, um noivo, mais por conveniência que por qualquer outra coisa. E, semanas antes do seu casamento, no ano de 2003, Vitória vai para Luanda quase sem pré-aviso. «Tudo o que hoje preciso é de um casamento. Com certeza não tenho de ir. Nem conheço os noivos. O meu, daqui a três semanas. Um erro, o Dinis. (...)» Isto porque Vitória decide procurar a sua mãe, e parte para Angola apenas com dois nomes como pistas: Zacarias Vindu e Juliana Tijamba. Em Luanda, é prontamente recebida por Romana, antiga am...

Há Gente em Casa

Quem me conhece, sabe que leio pouca poesia - e que gostei muito do pouco que li de Ondjaki. Assim, abracei esta oportunidade de ler o seu mais recente lançamento, Há Gente em Casa . O meu namorado já leu vários livros do autor, incluindo a sua poesia, dizendo que gosta muito mais da prosa, mas dei total oportunidade a esta obra. as feridas falam dos dias na solidão, e da extensão do percurso. trago esse pouco que é quase nada. arrasto ruídos para anunciar a minha vez. chego como quem está ainda por chegar. Não sei muito sobre poesia - não sei falar sobre poesia. Quantas vezes tenho de dizer isto? Mas as palavras de Ondjaki são bonitas, muito bonitas. É um livro pequeno, com poemas pequenos, de rápida leitura; são poemas de liberdade, mas também de solidão. E da vida. Às vezes há gente em casa - mas estamos sozinhos. 4/5 Podem comprar esta edição  aqui .

novidades de Novembro

Apesar de ainda estar em França, tenho estado atenta às edições em Portugal. E aqui tenho três novidades que não podia perder: Lápides Partidas , de Aquilino Ribeiro. Como mencionei aqui , Aquilino Ribeiro era um autor que eu tinha na minha wishlist de Feira do Livro, e que, na altura, não trouxe; vinguei-me portanto com esta novidade da Bertrand. Libório Barradas, ainda preso às recordações tão profundamente sentidas de Santa Maria das Águias, deixa o enquadramento serrano da sua juventude e vem encontrar na Lisboa do tempo o ambiente pré-revolucionário que dois anos depois iria provocar o derrubamento da monarquia. (...) Os Loucos da Rua Mazur , de João Pinto Coelho, é o Prémio LeYa de 2017. Nunca li nada do autor, mas sei que o seu livro anterior foi finalista do mesmo prémio, portanto tenho expectativas algo elevadas. Tenho curiosidade quanto a prémios literários - tenho em casa, ainda por ler, a edição BIS do Prémio LeYa de 2011, O Teu Rosto Será o Último , de Joã...

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Mais Mia Couto, numa review com quase 20 dias de atraso, de um livro com um título do qual nunca me lembro como deve ser (digo sempre algo como "Um Rio Chamado Casa"). E isso é, já agora, uma enorme vergonha, dado que Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra é possivelmente o livro mais bonito que li do autor - e quem tiver lido as minhas reviews anteriores saberá que os padrões estavam altos. Alguém conhece magia mais bonita que a dos livros de Mia Couto? O enredo passa-se em Luar-do-Chão, uma ilha onde ainda há tradições - temática frequente em Mia Couto, conforme me tenho vindo a aperceber. Dito Mariano, patriarca da família dos Malilanes, morre, e toda a família é chamada a comparecer, incluindo Mariano, seu neto, a quem é deixada, pelo próprio defunto, a responsabilidade de se encarregar do funeral (honra que devia ter passado ao primogénito). O avô está deitado numa sala sem tecto, e o seu estado clínico é... pouco estável, digamos. E é deste avô q...

Mar me quer

"Mar me quer" é muito mais que um trocadilho. Comprei este livro na Feira do Livro deste mesmo ano. Vi que seria um livro dirigido a um público um pouco mais infantil, com ilustrações, de Mia Couto, de quem só li Terra Sonâmbula - mas cuja escrita adorei. Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. Parece realmente um livro infantil, com ilustrações lindíssimas, mas acaba por ser a história de um homem e de uma mulher - de como um homem, Zeca Perpétuo, deseja uma mulher, Luarmina, sua vizinha, um pouco mais velha que ele, mulata, "gorda e engordurada", cuja foto de juventude deixava ver uma mulher elegante. Luarmina, no entanto, quer o passado de Zeca, quer conhecer as suas memórias - mas Zeca quer viver no presente, alegando que o passado o maltratou. Cada capítulo é introduzido c...