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Anna Karenina

Será possível falar deste livro sem incorrer num discurso quase tão longo quanto o mesmo? Anna Karenina é um livro que habitava o meu imaginário há vários anos, a minha lista do Goodreads há cerca de doze, e as minhas estantes há quatro. Faço algo frequentes piadas sobre livros grandes e escoliose (que, efectivamente, tenho), e decidi novamente que o facto de trabalhar em casa, não obstante me roubar o tempo do autocarro para a leitura , me facilita a leitura de livros maiores sem prejudicar as minhas costas. E, após ouvir algumas pessoas dizer que Anna Karenina é essencial; após ver a Rory Gilmore de 16 anos a partilhar o livro com o Dean (odeio o Dean); após muito debate interno, foi desta que peguei no livro. A leitura não foi seguida, mas sim intermitente com outras obras, por motivos vários - salas de espera, praia, mood geral  -, mas foi uma experiência agradável e recomenda-se. Comecemos pelo início. Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own w...

We

Desafio para Junho : um clássico de sci-fi ou fantasia. Ler We não foi só responder ao desafio; foi também o cumprir de uma leitura desejada há mais de dez anos. Quando, há mais de dez anos, li 1984 , estava ainda a tentar compreender qual o cânone dos clássicos (ocidental, claro está) e comecei a pesquisar e a querer descobrir mais livros e leituras. Foi aí que surgiu o nome de Yevgeny Zamyatin, e a obra que inspirara George Orwell (e, segundo este, Aldous Huxley, mas o Huxley nega). Estamos no século XXVI, e não em 1984; há um Estado unificado, o OneState, vedado do "exterior", selvagem, por uma grande muralha verde. Em vez de um Big Brother, há um Benefactor. A ideia é que a liberdade e a felicidade são incompatíveis; é um mundo gerido e ditado por matemática, lógica, tabelas horárias, taylorismo - sem imaginação, emoção ou sonhos (mesmo a dormir - sonhos são sinal de doença mental). Não há individualidade; há supervisão e controlo constantes por parte do Bureau...

Quem Come o Quê?

Bárbara Ferreira lê álbuns ilustrados. Este livro chegou-me de surpresa. É um álbum ilustrado de grande formato, pelo que me dediquei no imediato à sua leitura. Não conhecia a autora, Katerina Gorelik, artista russa publicada em França pela Larousse e, agora,  também em Portugal. Pesquisei-a, e não existe muita informação sobre a mesma, fora as suas redes sociais. Fica aqui o behance , e aqui o instagram - confesso que gostei do traço de Katerina. É bonito, colorido e agradável. Quem Come o Quê? é directo qb; mostra-nos animais herbívoros mas também carnívoros, com delicadeza suficiente para dar a entender que alguns animais são também alimento para outros, sem ser gráfico: não só as minhocas e os insectos, mas também as galinhas, vítimas das raposas. Aliás, as galinhas são mostradas num galinheiro, realçando a sua proximidade com os humanos. É um bom livro, sucinto e com belas ilustrações. 3,5/5 Podem comprar esta edição na  wook  ou na  Be...

Dead Souls

Muito atrasada, foi esta a minha participação no meu próprio desafio, em Fevereiro. O desafio para Fevereiro era ler um clássico russo ; isto deve-se ao facto de, ao longo dos anos, ter visto alguns desafios que pegavam no aniversário da Revolução Russa para incitar a ler o género (e, como não quero apoquentar ninguém, achei por bem colidir um pouco nestas temáticas; veja-se o tema para Março, a leitura de um clássico de autoria feminina). Queria ler este livro há muito, e já há uns cinco anos que o tinha na estante. Gogol é um nome grande na lista do cânone dos russos, ficando sempre atrás de Dostoevsky e de Tolstoy, e eu nunca lera sequer os seus contos mais conhecidos, como "O Nariz" ou "O Capote". De Dead Souls , apelava-me o título (como me apela também o Diary of a Madman ); sem ter explorado a temática, descobri que o livro que tinha em mãos era suposto vir a ser uma trilogia. Gogol escreveu o primeiro volume, queimou grande parte do segundo ...

The Steel Flea

Tinha de comprar um livro na Flâneur. E o eleito acabou por ser este conto, da autoria de Leskov, autor que já tinha lido antes  e que entendi que não me iria desiludir. Esta edição é dos Little Black Classics  da Penguin, que contém várias pequenas pérolas, com número de páginas limitado e preços ridiculamente atractivos (podem ler aqui a minha opinião sobre um outro livro da colecção, A Cup of Sake Beneath the Cherry Trees ). Se, por um lado,  Lady Macbeth de Mtsensk  é um conto sobre uma mulher pérfida, The Steel Flea é um jogo de neologismos, humor e duas grandes nações num balanço de poder delicado devido a algo tão mesquinho como uma mosca metálica, que representa a relação da Rússia com o Ocidente. O Czar Aleksander I (contexto: 1820s, uns 50 anos antes de o conto ter sido escrito - e a grafia é intencional, como ao longo de toda a obra) encontra-se de visita à Inglaterra (então, a Nação mais tecnologicamente desenvolvida do mundo), acompanhad...

Lady Macbeth de Mtsensk

Descobri este livro quando ganhei bilhetes para a ante-estreia do filme. A personagem principal, que, de certo modo, dá o nome ao livro, é Katerina Lhvóvna Izmáilova: (...) que desempenhou outrora um drama tão terrível que os nossos nobres, a exemplo de alguém de palavra fácil, passaram a chamá-la Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk. (...) Tinham-na dado em casamento ao nosso mercador Izmáilov, de Tuskar, Gubérnia, de Kursk, não por amor ou qualquer atracção, mas simplesmente porque Izmáilov a pedira em casamento, e, sendo ela uma moça pobre, não podia escolher noivo. Confesso que, por motivos que não me recordo, acabei por não ir à ante-estreia (e, até hoje, ainda não vi o filme...); porém, o livro ficou-me na ideia desde então. O título é apelativo: a ideia de Lady Macbeth, o protótipo da vilã, a mulher que incita o seu marido a fazer o mal... e o facto de esta personagem ter inspirado um autor russo! Quando, por acaso, encontrei o livro na Biblioteca Municipal, e...

Voltei à Feira do Livro

Em minha defesa, voltei à Feira porque a minha mãe tinha-me pedido que lhe comprasse um livro específico. Começo por dizer que não encontrei o livro que a minha mãe queria: estaria supostamente na tenda dos pequenos editores, que achei giríssima e cujo espaço tive de debater com um cão que abanava a cauda, mas o livro não estava lá. Depois do insucesso, dei uma voltinha rápida tipo missão de reconhecimento no canto que me ficou por ver na ida anterior: o "canto inferior esquerdo", que é como quem diz a parte da Porto Editora/Bertrand, Babel, FNAC, etc, à qual ainda quero voltar em espírito de Hora H, e de despedida de aquisição de livros durante quiçá um ano (até à próxima Feira - gosto de me abrir a excepção de "comprar livros em viagem", mas assim de repente só tenho uma viagem marcada, e alguém conhece autores holandeses que me recomende?). Na Babel, rondei um livro que queria especificamente comprar: o Armários Vazios , da Maria Judite de Carvalh...

The Kreutzer Sonata

Relendo obras numa leitura conjunta com o meu amor, que encaixa também perfeitamente com o #russialit . O meu primeiro Tolstoy foi o War and Peace , que li no ano em que escrevi uma tese sobre um estudo de caso da Rússia. Foi um ano de Tolstoy, Bulgakov, Nabokov e Pushkin, porque claramente não me fico por projectos pequenos. The Kreutzer Sonata  não é uma telenovela recheada de bailes e trocas de noivos - mas talvez seja engraçado comparar a futilidade amorosa de Natasha com esta obra. Aqui acima de tudo temos o lado moralista de Tolstoy: o discurso furioso de um homem que expressa visões assustadoras sobre o amor, o casamento, a sexualidade. Uma longa viagem de comboio, um grupo de estranhos na mesma carruagem. Começa uma conversa sobre o amor; alguns dos passageiros saem; e ficam apenas Pozdnyshev, um homem de alguma idade que demonstrara ter visões cépticas e agressivas acerca da existência do amor e da funcionalidade do casamento, e o narrador. Let us stop believin...

Nobelpriset i litteratur

Tendo sido anunciado o laureado deste ano, deixo as minhas considerações sobre os autores (e obras) que já tive oportunidade de ler - e aqueles cujos livros tenho aqui por casa, à espera da sua oportunidade. 1921 - Knut Hamsun Este é dos que já li. Li apenas Hunger e Mistérios , cujas reviews podem ler seguindo os links . São ambos livros bastante diferentes mas muito bons, aproximando-se talvez um pouco da filosofia e partilhando imagens e sentimentos da Escandinávia; este prémio foi atribuído  for his monumental work, Growth of the Soil , que é sem dúvida mais um a acrescentar à infindável lista de livros para ler um dia. 1925 - George Bernard Shaw Muito antes de ter este blog li Pygmalion , obra que deu origem ao conhecido filme (e peça) My Fair Lady . Tenho uma edição da Europa-América com a Audrey Hepburn na capa que é possivelmente o único livro editado por eles que possuo do qual gosto: é uma edição bilingue, o que facilita a leitura das palavras de Eliza ...

Three Soviet Plays

Este livro foi-me oferecido pela pessoa mais especial, comprado em segunda mão numa ida a Cascais. Esta edição tem três peças de três autores diferentes, nenhum dos quais eu conhecia. Mas é a Penguin, são peças, e são soviéticos - toda uma receita de sucesso comigo que, mais uma vez, funcionou. A edição em si é óptima: tem toda uma introdução sobre teatro na União Soviética (na qual é mencionado o Bulgakov), e uma introdução a cada uma das três peças. The Bedbug , de Vladimir Mayakovsky Esta é honestamente das melhores peças que já li. Segundo a introdução, Vladimir Mayakovsky planeava, com o dinheiro que fizesse graças à peça, ir a Paris comprar um Renault, algo que conseguiu; o seu sucesso, no entanto, ficou-se pelo Renault. Esta peça tem como protagonista Prisypkin, proletário vulgar e alcoólico aspirante a burguês, cheio de insectos que a wikipedia me diz chamarem-se "percevejos de cama" em português, que tenta afrancesar o seu nome e se vai casar com uma mulher...

The White Guard

O Bulgakov é possivelmente o meu russo favorito, e o The Master and Margarita é um livro que acho que toda a gente devia ler (porque gatos). Este parece que tem o Clint Eastwood na capa e veio do eBay. Muito diferente dos outros livros do Bulgakov que li (este foi o meu quarto), The White Guard  retrata o inverno de Kiev em 1918-1919 através dos irmãos Turbin, Alexei, Elena e Nikolka, uma família da classe média que apoia a monarquia, o Czar Nicholas e a sua família já assassinada pelos Bolcheviques (e estão em negação quanto a este facto). Isto em si é interessante pois, embora ucranianos, os Turbin sentem-se claramente russos. O nome desta família lembrava-me, de forma previsível e frequente, de um conhecido  hit  da música popular portuguesa. Sim, eu acabo de referir Ana Malhoa num  post  sobre um clássico russo refundido. Sabem porquê? Porque posso. Adiante, após a guerra civil que se seguiu à Revolução Bolchevique de 1917, Kiev foi ocupada pelo e...

Plays by Chekhov

O (clássico) Chekhov é um dos russos que me escapou no ano em que li russos para fingir que trabalhava na tese (altura na qual infelizmente não tinha ainda este blog); em 2008 comprei um pequeno volume de  short stories  dele, que tenho para aí algures e do qual não tenho honestamente grande recordação. Na minha lista de coisas preferidas na vida encontram-se edições  omnibus  de peças. Nesta, podemos encontrar Ivanov , The Seagull , Uncle Vanya , The Three Sisters , The Cherry Orchard , The Bear , The Proposal e A Jubilee . Como é óbvio, porém, não vou falar de todas, que são muitas. Comecei a ler este livro em Fevereiro e lembro-me de ter lido Ivanov numa sala de espera do hospital, e recomendo imenso, especialmente pelo final e pelos " first world problems " do protagonista, mas na altura não me lembrei de escrever sobre a peça imediatamente e não me sinto à vontade para o fazer agora. The Seagull : Esta peça tem como temas centrais amores não-corres...