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O Livro de Cesário Verde

Já conhecia Cesário Verde do secundário, e decidi dar-lhe nova chance.


Não sei se já alguma vez o tinha manifestado, e possivelmente esta é uma declaração meio polémica, nomeadamente logo a seguir a polémicas relacionadas com o exame de português do 12º ano - mas não gostei de nenhuma das obras de leitura obrigatória no secundário. Li-as todas, é certo - mas não apreciei nenhuma. Excepto o Frei Luís de Sousa, de que ninguém gosta. Vi os dois filmes.

(o meu exame incidiu sobre Alberto Caeiro, já agora)

Regressei mais recentemente a Eça de Queirós (tendo lido os Contos, o Crime do Padre Amaro e A Relíquia), e até gostei. Estou então, lentamente, a tentar dar uma nova oportunidade aos outros autores, cerca de dez anos volvidos.

E é aqui que entra Cesário Verde. Lembro-me de ler Cesário no 11º ano, aquando do estudo do realismo, logo a seguir a ler Os Maias, e lembro-me apenas vagamente. Lembro-me que na altura estava investida na leitura de Great Expectations, do Dickens, que a minha professora na altura disse ser uma óptima escolha. Lembrava-me vagamente da dicotomia cidade/campo na obra de Cesário.

E encontrei o Livro de Cesário Verde a 3€ numa das minhas últimas idas à Feira do Livro.

Poesia é, sem dúvida, o meu ponto fraco no que respeita a leitura, e é possivelmente daquilo que leio menos. Cesário Verde introduziu o realismo na poesia em Portugal, retratando perfeita e metodicamente a vida real, como a via - e tentando ver para além do óbvio. As temáticas são várias: as ruas lisboetas e a vida do campo, a modernidade, e como tudo isto se reflectia nas pessoas: a tal ideia da dicotomia cidade/campo, pois sente-se a sua preferência pelas pessoas do campo, trabalhadores honestos.

No meio disto, Cesário retrata as condições de vida dos vários grupos sociais, a vida quotidiana. São imagens cruas e realistas.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

--Sentimento dum ocidental

Também esta duplicidade de sentimentos se reflecte nos poemas sobre mulheres: enquanto que as mulheres da cidade, do alto da sua elegância citadina, são frias, talvez até más, e servem como objecto erótico de apreciação, as mulheres do campo, apesar de feias e mal vestidas, são frágeis, naturais, cheias de sentimentos nobres e coragem, logo, dignas de simpatia. E, honestamente, estas palavras não ressoam muito bem. Não a mim, não em 2017.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

--Deslumbramentos

Em Nós, poema no qual compara Portugal aos países do Norte da Europa (os "fleumáticos farmers de Inglaterra"), Cesário Verde fala da tuberculose, que lhe tirou a irmã e o irmão, doença com a qual acabaria por morrer, aos 31 anos, virtualmente desconhecido: foi apenas em 1887, um ano após a sua morte, que o seu amigo Silva Pinto compilou e tratou da publicação d'O Livro de Cesário Verde.

Confesso que continuei sem apreciar particularmente a poesia de Cesário Verde. Enquanto que Sentimento dum ocidental é um brilhante retrato das condições sociais, toda a dicotomia cidade/campo ao longo da obra não me atraiu, e especialmente as partes sobre mulheres caíram um pouco mal.

3/5

Podem comprar esta edição aqui.

Comentários

  1. É importante conhecer a nossa literatura, poesia não é o meu forte também mas kudos por leres mais autores portugueses :p

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    1. Diz a pessoa com toda uma nova colecção de Fernandos Pessoas :p

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    2. Acho que posso dizer que nos inspirámos um ao outro a ler mais portugueses e lusófonos em geral :p

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    3. tu inspiras-me, that's for sure! :p

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    4. Lame, mas excelente review mais uma vez, emprestas-me o livro Ba?

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  2. No meu exame saiu o Felizmente Há Luar!, Fernando Pessoa e o meu puto Miguel Torga :p

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    1. Não li Miguel Torga na escola (nem nunca) :o e o Felizmente Há Luar ganha o prémio de obra de que menos gostei :$

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    2. Tens de ler Ba, empresto-te o que quiseres :p

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    3. Prefiro que sejas tu a recomendar :p

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