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Antologia Poética de Gabriela Mistral

O primeiro laureado com o Nobel da Literatura na América Latina foi uma mulher.


"for her lyric poetry, which inspired by powerful emotions, has made her name a symbol of the idealistic aspirations of the entire Latin American world"
Tinha, por tudo isto, curiosidade acerca do trabalho de Gabriela Mistral, que nasceu Lucila Godoy Alcayaga. Mais que isso: diplomata, humanista e foi professora de Pablo Neruda. Segundo percebo, não foi uma figura particularmente popular no seu país, tendo-se afastado com a sua carreira e morrido em New York, onde trabalhava como cônsul. Também foi cônsul em Lisboa, nos anos 40.
A sua vida é sem dúvida interessante, em particular a sua carreira; a sua poesia não me tocou.

Este volume é uma antologia, e reúne Desolação (Nova Iorque, 1922), Ternura (Madrid, 1924), Tala (Buenos Aires, 1938), Lagar (Santiago do Chile, 1954) e Poema do Chile (Barcelona, 1957). Tem uma introdução da própria autora, intitulada "Como escrevo".

Gostei muito da i…

Dois Corpos Tombando na Água

Fã incondicional de Alice Vieira em pequena, decidi dar uma chance à sua poesia.

Em parte, esta chance deve-se também a este post da Alexandra; por outro lado, estava sentada numa poltrona na Biblioteca Municipal de Belém e vislumbrei este livro na estante ao lado, pelo que o retirei imediatamente.
Primeiro, a edição: trata-se de uma colecção da Caminho chamada "Frente e Verso", que combina a prosa e poesia de autores que escrevem ambos os géneros. Do lado da prosa, encontra-se Às Dez a Porta Fecha, livro que li na minha infância e que por esse motivo não reli nesta ocasião; mas posso fazê-lo, se vos aprouver, repescando a minha edição da estante.

tínhamos então a idade
de tudo o que nos acontecia pela primeira vez
protegidos pela sobra dos castanheiros de maio
e     ainda que por breve tempo     chegámos a acreditar
que um dia nos iríamos de novo amar ali
exactamente ali
entre o rio     as pontes     as estátuas
a praia que roubávamos ao asfalto
onde os dias pareciam sem desvio
Ano…

Um Útero é do Tamanho de um Punho

Livro para o qual estava super entusiasmada. Lembram-se?


Já aqui referi várias vezes a minha enorme dificuldade a ler e comentar poesia. Este post não será a excepção. Angélica Freitas escreve, para este volume, 35 poemas sobre mulheres, tentando definir mulheres, por vezes tentando-se definir a ela própria, no meio de uma visão cultural e identitária, crítica e humorística.
Ou seja, não é mais um livro sobre ser mulher, ou condição feminina; é um livro que pega na perspectiva. Pega nos assuntos mais banais, nos maiores clichés, de um novo ponto de vista, sem autodepreciação ou pena de si mesma por ser mulher.
queridos pai e mãe tô escrevendo da tailândia é um país fascinante tem até elefante e umas praias bem bacanas
mas tô aqui por outras coisas embora adore fazer turismo pai, lembra quando você dizia que eu parecia uma guria e a mãe pedia: deixem disso?
pois agora eu virei mulher me operei e virei mulher não precisa me aceitar não precisa nem me olhar mas agora eu sou mulher
--- mulher depois
É u…

Há Gente em Casa

Quem me conhece, sabe que leio pouca poesia - e que gostei muito do pouco que li de Ondjaki.

Assim, abracei esta oportunidade de ler o seu mais recente lançamento, Há Gente em Casa. O meu namorado já leu vários livros do autor, incluindo a sua poesia, dizendo que gosta muito mais da prosa, mas dei total oportunidade a esta obra.
as feridas falam dos dias na solidão, e da extensão do percurso. trago esse pouco que é quase nada. arrasto ruídos para anunciar a minha vez. chego como quem está ainda por chegar.
Não sei muito sobre poesia - não sei falar sobre poesia. Quantas vezes tenho de dizer isto? Mas as palavras de Ondjaki são bonitas, muito bonitas. É um livro pequeno, com poemas pequenos, de rápida leitura; são poemas de liberdade, mas também de solidão. E da vida. Às vezes há gente em casa - mas estamos sozinhos.
4/5

Podem comprar esta edição aqui.

Sonnets from the Portuguese

O primeiro livro que li para o #MarçoFeminino - um livro que não tinha, de todo, planeado.

Era segunda-feira e, entre trocas de malas para o fim de semana, tinha-me esquecido do Moby Dick. Pior: ia ao médico depois do trabalho. O meu amor, enquanto pessoa incrível que é, emprestou-me este pequeno livro, do qual tinha gostado muito.
Comecemos, talvez, pelo título, que fez com que um colega de trabalho me questionasse por que motivo lia coisas sobre portugueses em inglês: Elizabeth Barrett Browning estava inicialmente hesitante quanto à publicação destes poemas, dado o seu cariz bastante pessoal; mas o seu marido, Robert Browning (também ele poeta), insistindo no seu valor literário, sugeriu-lhe que os publicasse na mesma, mas sob algum subterfúgio. Assim, Elizabeth publicou-os como se fossem traduções de sonetos estrangeiros. A razão por trás da escolha de "Portuguese" não é clara, mas estará algo entre a sua admiração por Camões, a alcunha carinhosa que o marido tinha para …

Feira do Livro de Poesia 2018

Dia 25 de Março, fui à Feira do Livro de Poesia.

Esta Feira é uma iniciativa da Casa Fernando Pessoa, em honra do Dia Mundial da Poesia, que se celebra, tal como o Dia da Árvore, a 21 de Março. Já tinha pensado em ir a esta feira no ano passado, mas não se deu; este ano, em tom duplamente celebratório, plantei uma árvore e, posteriormente, desloquei-me até Campo de Ourique.
A Feira é pequena, mas aprendi a gostar de feiras pequenas com a Festa do Livro de Belém. O vento era forte e fazia-se sentir largamente, com alguns volumes mais pequenos a chegar mesmo a levantar voo. Entre as bancas da LeYa, Quetzal e Relógio d'Água, destacaram-se, para mim, dois nomes bem mais pequenos: a Douda Correria e o Espaço Llansol (com livros da Mariposa Azual).
Destacaram-se ambas por motivos semelhantes: as senhoras que estavam em cada banca eram visivelmente apaixonadas pelos projectos que representavam, e ambas de uma simpatia inegável. A oferta de títulos completamente diferentes, e de edições …

O Livro de Cesário Verde

Já conhecia Cesário Verde do secundário, e decidi dar-lhe nova chance.


Não sei se já alguma vez o tinha manifestado, e possivelmente esta é uma declaração meio polémica, nomeadamente logo a seguir a polémicas relacionadas com o exame de português do 12º ano - mas não gostei de nenhuma das obras de leitura obrigatória no secundário. Li-as todas, é certo - mas não apreciei nenhuma. Excepto o Frei Luís de Sousa, de que ninguém gosta. Vi os dois filmes.
(o meu exame incidiu sobre Alberto Caeiro, já agora)
Regressei mais recentemente a Eça de Queirós (tendo lido os Contos, o Crime do Padre Amaro e A Relíquia), e até gostei. Estou então, lentamente, a tentar dar uma nova oportunidade aos outros autores, cerca de dez anos volvidos.
E é aqui que entra Cesário Verde. Lembro-me de ler Cesário no 11º ano, aquando do estudo do realismo, logo a seguir a ler Os Maias, e lembro-me apenas vagamente. Lembro-me que na altura estava investida na leitura de Great Expectations, do Dickens, que a minha pro…

milk and honey

O livro que há que tempos ansiava ler.

Comprei este livro no início do mês, em Inglaterra, conforme escrevi aqui há dias, e peguei-lhe praticamente logo. É um livro em verso livre, de uma beleza enorme, seja nas suas palavras, seja na edição - e li-o praticamente de uma assentada, num só dia.
if you were born with the weakness to fall you were born with the strength to rise
Cada poema, cada página, é infinitamente pessoal, e ao mesmo tempo universal, descrevendo eventos, emoções e sentimentos muito fáceis de reconhecer. O livro está dividido em quatro partes: the hurting, the loving, the breaking, the healing. Falam de perda, de amor, de ser mulher, de trauma, de corações partidos, de figuras paternas negativas, de violência. Mas de muito, muito amor.
É incrivelmente bonito, é incrivelmente forte.

E é também incrivelmente positivo. A parte do healing acaba por ser o final não necessariamente feliz, mas apaziguador, do livro. Esta é a viagem pessoal de Rupi Kaur, uma viagem sobre o amor e…

La mariée mise à nu

Leitura feita numa espécie de celebração tardia do Dia Mundial da Poesia.

Tendo visitado o blog a gun in the garland, onde Madalena de Castro Campos escreve poemas, fiquei com uma enorme curiosidade acerca desta obra, o seu segundo livro publicado (acabado de lançar, inclusive).
Não sou a melhor a escrever sobre poesia; já tentei, neste espaço, escrever sobre poemas de autores como Sylvia Plath, Pablo Neruda ou, mais recentemente, Florbela Espanca, e sinto que falho sempre em me expressar. Não é um género que leia com frequência, e, no fundo, é mais fácil escrever sobre uma narrativa mais longa - sobre prosa.
Os poemas de Madalena de Castro Campos não têm o romance de Neruda, nem a melancolia de Florbela. Não têm a beleza muitas vezes associada à poesia, mas provocam emoções fortes: são poemas crus, duros, cínicos, violentos, femininos e marcadamente sexuais, com imagens e palavras explícitos, roçando por vezes o vulgar.
Exploram, na sua maioria, o papel e o "lugar" da mulh…

Sonetos de Florbela Espanca

A minha primeira leitura do mês, eternamente associada ao dia em que o meu comboio ficou 45 minutos parado em Entrecampos.

Nesta edição, encontram-se reunidos os vários sonetos de Florbela Espanca, poetisa portuguesa que na sua curta vida escreveu sobre temas como a solidão, a dor, a dificuldade em encontrar o amor, o amor em si e algum erotismo - acima de tudo, a procura da felicidade. Usa frequentemente palavras como rútilo, amor e saudade. São poemas maioritariamente tristes, mas de uma enorme beleza.
Que importa? Que te importa , ó moribundo? - Seja o que for, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!...
São poemas trabalhados, todos eles sonetos com estrutura precisa, todos eles revelam uma enorme angústia e insatisfação com o mundo, com ela própria, com a condição de ser mulher. É acima de tudo curioso como, de um soneto para o outro, passamos de intensa amargura para entrega apaixonada, reflectindo, talvez, a instabilidade da autora.
Para quê?!
Tudo é vaidade nest…

Under Milk Wood

A Play for Voices.



Esta é uma obra bastante singular, não sendo nem uma peça nem um poema, mas uma obra escrita como peça de rádio para a BBC. Small town Gales - e se small town America sempre funcionou para mim, um dia na vida da sonolenta cidade de Llareggub, Gales, não ficou atrás.
Gales sempre me fascinou. Desde os dragões, ao sotaque, aos castelos, ao Very Annie Mary que continua a ser dos meus filmes preferidos, à língua incrivelmente bizarra - aos 15 anos gostava de dizer a palavra Cymru repetidamente e não vou deixar que me digam que isso é estranho. Pode ser o patinho feio da Grã-Bretanha, mas fascina-me mais que a Escócia e não tenho vergonha de o dizer.
Portanto acordamos numa pequena cidade galesa onde, à boa maneira das cidades pequenas, todos têm um segredo, todos têm fantasmas e esqueletos no armário (ao menos não têm esposas no sótão), a escrita é simples, as palavras fluem maravilhosamente - quase sem uma pausa para pensar ou respirar, porque esta é uma peça para voze…

The Melancholy Death of Oyster Boy and Other Stories

Eu, fã do Tim Burton, me confesso.

Li este pequeno livro numa viagem de comboio a caminho do trabalho. Não tenho palavras.
Esta é uma colecção de histórias/poemas ilustrados, em que Tim Burton mostra algumas das suas ideias e personagens. Enquanto que algumas histórias (como a do Oyster Boy) se prolongam por algumas páginas, outras têm poucas linhas e uma ilustração para nos fazer pensar. Todas elas são histórias tristes, sobre a tristeza e solidão e o ser incompreendido e estar isolado, de tantas, de várias maneiras - na verdade, é este o trabalho de Tim Burton, em geral.
Porque as histórias de Tim Burton foram sempre sobre todos nós que estamos sozinhos, os Edward Scissorhands, a Sally.

Todos os que são de uma maneira ou de outra rejeitados pelo mundo, as noivas assassinadas quando vão fugir com os amados, os monstros, a necessidade de encontrar uma realidade separada da dos outros, de encontrar uma cura para estar vivo e viver neste mundo. Portanto também este livro é estranho, é …