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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta poetry

Sutra do Deserto

Foi através da distribuição online (gratuita, e encorajada) do primeiro volume de  Poesia de Resistência Palestiniana , em Novembro de 2023, que me apercebi da Traça Editora. Sutra do Deserto  é um livro de poesia da autoria do editor da Traça, de pseudónimo cobramor, e apresenta-se como "um poema longo composto como uma peça de free jazz sobre a destruição das zonas silvestres, a gentrificação, a uniformização cultural e o apocalipse capitalista".  De facto, sentimos em Sutra do Deserto  o ritmo variado, as cadências que denotam a liberdade criativa que cede ao improviso, como no  jazz . A musicalidade neste longo poema é forte, assentando em repetições de sons, de tonalidades, aliterações, que ganharia possivelmente muito ao ser lido em voz alta. o verde frio do todo-poderoso omnisciente omnipotente altíssimo capital santificado o vosso nome tempos|mortos|moribundos|doentios|patológicos areais sujos lojas inúteis trabalhos fúteis incham o abdómen do ânim...

Cântico dos Cânticos

O desafio para Novembro era ler um clássico de poesia ou teatro. O Cãntico dos Cânticos  é (pasmem-se) parte da Bíblia. Este texto é tradicionalmente atribuído ao Rei Salomão, e é de enorme interesse a vários níveis - principalmente, porque parece destoar dos restantes textos da Bíblia (que, atenção, nunca li) pelo seu cariz mais sensual e por não abordar a lei de Deus ou outros ensinamentos/sabedorias. Fala, aliás, da beleza e do mistério do amor. Embora algumas das alegorias e simbolismos se percam para mim (Torre do Líbano, por exemplo), e de outras questões estranhas ou que podem não ter envelhecido muito bem (invocar relações familiares, comparação com animais, atenção esquisita à cor da pele), o texto é de beleza intrínseca e fala sobre não apressar o amor, pois este irá "despertar" quando estiver pronto.  ah como estás bela minha amiga      ah como estás bela com teus olhos de pomba oh como estás belo meu amado e que doçura     o nosso leito en...

Afectuosamente (Dearly)

Fui saboreando esta colecção de poesia aos poucos. De Atwood, vergonhosamente, ainda só tinha lido The Handmaid's Tale , há demasiados anos e com demasiados outros títulos a aguardar na estante. O facto de esta ser a sua primeira obra de poesia em cerca de vinte anos, no entanto, acabou por me aguçar particularmente a curiosidade, e fui lendo aos poucos esta edição bilingue - confesso que com particular ênfase às palavras no original (que transcrevo abaixo - mas recordo que o livro está em português, com o original inglês à esquerda, permitindo a comparação e apreciação de ambos). A colecção começa com um poema intitulado Late Poems , relembrando que estes são poemas tardios na vida da autora, de 80 anos: Late Poems These are the late poems. Most poems are late of course: too late, like a letter sent by a sailor that arrives after he’s drowned. Too late to be of help, such letters, and late poems are similar. They arrive as if through water. Whatever it was has happened: the battle...

Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica

O tema do #lerosclássicos2021 de Agosto era um livro censurado ou banido. Eis um livro cuja história, para mim, em muito excede o conteúdo. Já por cá falei, inúmeras vezes, da minha relação com poesia. A verdade é que a minha curiosidade com este livro foi sempre mais histórica do que exactamente literária. Recomendo, desde já, caso nunca o tenham feito: vejam a série "3 Mulheres", disponível na HBO, que fala de Natália Correia, Snu Abecasis e Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa); grande parte do relato sobre Natália, nesta série, versa precisamente sobre a edição e publicação da obra que hoje vos trago, bem como as suas consequências. Em Dezembro de 1965, foi publicada, pela Editora Afrodite, a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, na qual Natália reuniu poemas (e não só! Há textos em prosa) de autorias diversas, desde a Idade Média até a poetas seus amigos e contemporâneos. Saliente-se, desde já, que há apenas quatro mulheres representadas na Antologia, incluindo...

the princess saves herself in this one

Vamos falar de poesia de internet. Mais que certo e sabido que não sou leitora habitual de poesia. Este era um livro que me despertava vago interesse por alegadamente ter conteúdo feminista e de empowerment  (vede o título); interesse esse vago o suficiente para eu nunca o ter adquirido e não ter a certeza se o queria ter na estante. Portanto, e dado que a última experiência correu bem, apostei na leitura digital. Novamente, pareceu ser uma boa aposta: poucas palavras por página, mancha de texto limpa, por que não? "1. fill in the blank: a) poetry is ______ - anything you want it to be" Será mesmo? Gosto de alguns dos sentimentos do livro, de ideias feministas aqui pautadas, das emoções cruas, é certo - mas o conteúdo tem índole tão pessoal que me lembra dos idos tempos do LiveJournal e de confidenciar coisas tristes e momentos depressivos adolescentes a desconhecidos e tentar ter estilo, de ter 13 anos e escrever poemas e pensamentos soltos horrorosos que ainda bem que foi t...

Mensagem

Relendo uma leitura escolar obrigatória que, à época, não me tinha impressionado particularmente. Ressalva: continuou sem impressionar. Já é mais que conhecida e por aqui relatada a minha dificuldade em apreciar poesia, que leva a raramente a ler. Reli esta obra para participar no projecto do João,  #12meses12portugueses , para o qual já lera O retrato de Ricardina , de Camilo Castelo Branco. Eu sei que Fernando Pessoa foi os quatro maiores poetas portugueses dos tempos modernos e, acreditem, eu tentei. Maioritariamente devido à dimensão diminuta da obra, acabei por reler. O conteúdo da obra será conhecido por uma vasta maioria: a exortação de Portugal, dos portugueses e dos seus grandes feitos, um apelo para o regresso à grandeza dos tempos passados, etc, etc. Não vou entrar no quão problemático considero achar os Descobrimentos grandiosos, pois há que ter em conta o contexto da altura em que a obra foi escrita (a publicação data de 1934); posso apenas dizer q...

O Livro dos Gatos

Um livro que se lê maravilhosamente em companhia felina. Já tinha este na estante desde a Feira do Livro de 2018, mas o destino quis que eu tivesse um gato antes de efectivamente lhe pegar e o ler. Tenho maravilhas a dizer sobre esta edição: embora não tenha as ilustrações mais clássicas de Edward Gorey, é belissimamente ilustrado por Axel Scheffler. É também uma edição bilingue, o que permite ao leitor (que, como eu, assim o pretenda) comparar o poema original e o traduzido. (fica aqui a nota que saiu, recentemente, uma edição da Assírio & Alvim, igualmente bilingue, com as ilustrações de Edward Gorey. Podem verificar aqui ) TS Eliot é conhecido por obras primas da poesia, como sendo The Waste Land  mas é também o autor desta colecção de 15 poemas sobre gatos, a maioria dos quais a falar de um gato com personalidade distinta (o ladrão, o velho sábio, o que nunca está satisfeito)... cada gato tem um nome, e esta obra é a base do musical de Andrew Lloyd Webber, qu...

Nadar na Piscina dos Pequenos

Ainda na luta da poesia. (honestamente? Já estive mais longe de desistir) Golgona Anghel chamou-me a atenção quando li o seu poema Vim porque me pagavam, que pertence a um livro com o mesmo nome. Procurei esse livro na Mariposa Azual, na Feira de Poesia de Campo de Ourique, em Março, mas sem sucesso. Estava esgotado, a autora é agora editada por outra editora, etc. Quiçá um dia. Decidi, assim, passar para este título, mais recente, do qual já tinha reunido algumas, boas, opiniões. Golgona Anghel é de origem romena, mas está radicada em Portugal há muitos anos. A sua poesia, tal como muita da que se escreve e se faz actualmente, tem pouca estrutura - ou terá uma estrutura original, talvez. As temáticas são quotidianas, críticas da sociedade, demonstrando uma ironia e um humor fortemente agressivos. Devia escrever coisas mais divertidas, entreter as massas. Evitar, ao menos, cenas tristes, mudar de roupa uma vez por mês. Podia, decerto, afastar-me, sair do ...

Manual de Prestidigitação

Prestidigitação é uma palavra incrível. Tinha curiosidade há muito tempo para conhecer o trabalho do autor; esta obra, em particular, estava na minha mira desde que vi a palavra "prestidigitação" no título de uma música, nos tempos em que eu não sabia que o B Fachada era a pessoa que parava no meio do corredor no edifício de inglês/geografia da faculdade ( esta música , mais de dez anos volvidos, parece-me horrível; na altura, o álbum esteve em alguma rodagem por estes lados...). Este volume é, na verdade, constituído de vários grupos de poemas, e não só aquele que lhe dá o título, sendo possível acompanhar várias das fases da poesia de Cesariny. Talvez por isso, houve momentos dos quais gostei mais do que de outros - infelizmente, logo o primeiro, Burlescas Teóricas e Sentimentais, não me apelou particularmente, na sua linguagem codificada e desmontagem de imaginário popular. Outros poemas, posteriores, como os de Alguns Mitos Maiores Alguns Mitos Menores Proposto...

O Martelo

Cheguei a esta obra sem saber ao que ia. Foi-me indicado O Martelo  como a sequência lógica por ter gostado de Um útero é do tamanho de um punho , de Angélica Freitas ; também me foi dito, pela Gabriela, que estava na Feira do Livro de Poesia e mo recomendou, que a presença da autora, Adelaide Ivánova, no Instagram, era forte. Comprei o livro, segui a autora e dirigi-me a um café, para começar a ler. É poesia - e vocês já saberão a minha relação complicada com o género. O Martelo  é um livro sobre sexualidade feminina e violência (violência sexual incluída), narrado por uma voz feminina anónima. O livro está dividido em duas partes, inspirado, segundo a própria autora, no primeiro Imperador Romano Cristão (Constantino), que estabelecera que a violação e o adultério eram ambos crimes semelhantes, cometidos pela mulher. Sim, precisamente. É um livro violento, é certo, mas é um livro que mostra que a autora não tem receio em se exprimir. E a violência nun...

Antologia Poética de Gabriela Mistral

O primeiro laureado com o Nobel da Literatura na América Latina foi uma mulher. "for her lyric poetry, which inspired by powerful emotions, has made her name a symbol of the idealistic aspirations of the entire Latin American world" Tinha, por tudo isto, curiosidade acerca do trabalho de Gabriela Mistral, que nasceu Lucila Godoy Alcayaga. Mais que isso: diplomata, humanista e foi professora de Pablo Neruda . Segundo percebo, não foi uma figura particularmente popular no seu país, tendo-se afastado com a sua carreira e morrido em New York, onde trabalhava como cônsul. Também foi cônsul em Lisboa, nos anos 40. A sua vida é sem dúvida interessante, em particular a sua carreira; a sua poesia não me tocou. Este volume é uma antologia, e reúne Desolação (Nova Iorque, 1922), Ternura (Madrid, 1924), Tala (Buenos Aires, 1938), Lagar (Santiago do Chile, 1954) e Poema do Chile (Barcelona, 1957). Tem uma introdução da própria autora, intitulada "Como escrevo". ...

Dois Corpos Tombando na Água

Fã incondicional de Alice Vieira em pequena, decidi dar uma chance à sua poesia. Em parte, esta chance deve-se também a este post  da Alexandra ; por outro lado, estava sentada numa poltrona na Biblioteca Municipal de Belém e vislumbrei este livro na estante ao lado, pelo que o retirei imediatamente. Primeiro, a edição: trata-se de uma colecção da Caminho chamada "Frente e Verso", que combina a prosa e poesia de autores que escrevem ambos os géneros. Do lado da prosa, encontra-se Às Dez a Porta Fecha , livro que li na minha infância e que por esse motivo não reli nesta ocasião; mas posso fazê-lo, se vos aprouver, repescando a minha edição da estante. tínhamos então a idade de tudo o que nos acontecia pela primeira vez protegidos pela sobra dos castanheiros de maio e     ainda que por breve tempo     chegámos a acreditar que um dia nos iríamos de novo amar ali exactamente ali entre o rio     as pontes    ...